quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Chove. É Dia de Natal


Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 






segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Acídia ou preguiça?

Fragmento de Os Sete Pecados Capitais, representando a Preguiça – de Hieronymus Bosch


Já diz um provérbio português que “não há sábado sem sol, domingo sem missa, nem segunda sem preguiça”.

      Às vezes, esse ditado cai como uma luva. Afinal, quem nunca sentiu vontade de “pular” uma segunda-feira? Quem não se sente lento e devagar no início de semana? Ainda mais, se formos pensar que é a semana do Natal (aí, dá preguiça até de pensar).

Moleza, lentidão, desânimo, falta de energia interior, cansaço físico e intelectual. Todas essas sensações são sinônimos de preguiça. Mas a palavra traz outras correlações e significados: melancolia, inação, acídia,  falta de vontade de “se gastar” ao cumprir um dever e aversão ao trabalho.

Na visão judaico-cristã, a preguiça está relacionada ao ócio. Ao perder o Paraíso Terrestre, Adão ouve do Senhor: “Maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida (...), Com o suor de teu rosto comerás teu pão, até que retornes ao solo, pois dele foste tirado (...)”.

Ao ócio feliz do Paraíso, segue-se o sofrimento do trabalho como pena imposta pela justiça divina e por isso os filhos de Adão e Eva (isto é, a humanidade inteira) pecarão novamente se não se submeterem à obrigação de trabalhar,  sintetiza Marilena Chaui, na introdução ao texto de Paul Lafargue: “O Direito à Preguiça”.

O trabalho, dessa maneira, vai se impondo como maldição e castigo nos mitos que narram a origem das sociedades humanas. E a preguiça, como vadiagem.

No livro “Elogio à Preguiça”, organizado por Adauto Novaes (1º lugar do Prêmio Jabuti, 2013 – categoria Ciências Humanas) vinte e dois pensadores discutem a preguiça sob  os mais variados ângulos, tentando desatar os nós que ligam o ócio ao pecado.

A ideia geral que perpassa a maioria das conferências é que no mundo dominado pela tecnociência, nunca se trabalhou tanto e se pensou tão pouco não apenas sobre as condições do trabalho, mas principalmente sobre a ausência do trabalho do espírito, entendendo por espírito “potência de transformação da inteligência”.

Um dos programas que a TVE apresentou no ano passado, e que compõe a série “Cafés Filosóficos” (acessível pelo canal youtube) tratou justamente do tema “a preguiça e a melancolia”. Nessa edição, o filósofo e professor da UNICAMP Oswaldo Giacóia Jr. discorre sobre os significados da palavra acídia, considerada a “mãe” da preguiça e da melancolia. O filósofo menciona trechos de um livro do estudioso italiano Giorgio Agamben, autor da expressão “catástrofe antropológica” com a qual define esse pecado capital.

A palavra acídia, diz Giacóia, é ainda muito utilizada no catecismo e é entendida como fonte geradora de uma situação de ânimo extremamente perigosa para os homens religiosos. É uma catástrofe antropológica  “porque gera o tédio, o desinteresse, o fastio e o asco pelo esforço em geral”. É muito mais perigosa do que a simples desídia, a indolência ou a preguiça.

Preguiça e melancolia são dois estados de ânimo bem distintos. Fazendo um breve resumo da apresentação do filósofo: de um lado, temos a inércia, a vagabundagem, a improdutividade - intoleráveis em uma sociedade mercantil como a nossa. De outro lado, temos a aversão e a repugnância - estados afetivos extremamente negativos que se colocam como uma espécie de fastio. Aquele que é acometido por esse tipo de sentimento tem uma percepção do absurdo da existência,  tem uma profunda insatisfação, pois percebe a falta de sentido das ações humanas. É este estado aversivo que vai gerar algo diferente da inação e da indolência: a necessidade de uma atividade febril, incessante, para vencer essa repugnância diante do sentimento esmagador da miséria da vida humana.

Para justificar a inclusão da preguiça como um vício capital, São Tomás de Aquino, em sua “Suma Teológica” - documento que oficializou a lista dos ditos sete pecados originais, no século 13 -, enfatizou que a tristeza é entre todas as paixões da alma, a que mais causa dano ao corpo. 

Hipócrates, no séc. V a.C, definiu a melancolia como a bílis negra – a patologia dos humores tristes.

Não foram poucos os artistas, escritores e filósofos que se valeram do afeto positivo (visão aristotélica da melancolia) para criar obras geniais: Platão, Sócrates, Michelangelo, Goya, Espinosa, Manuel Bandeira, Bukowski, Drummond, entre tantos outros.

Mário de Andrade dizia "a arte nasceu de um bocejo sublime...", do ócio dos filósofos gregos.

E Paul Valéry, muito antes, afirmou que “é preciso ser distraído para viver”, ou seja, é preciso afastar-se do mundo, sem se perder dele.

O escritor inglês Jerome K. Jerome, autor dos “Pensamentos preguiçosos de um preguiçoso”, mencionado por Novaes em um artigo publicado no Le Monde Diplomatique (2011), coloca: “o que melhor caracteriza um verdadeiro preguiçoso é o fato de ele estar sempre intensamente ocupado. De início, é impossível apreciar a preguiça se não há uma massa de trabalho diante de si. Não é nada interessante nada fazer quando não se tem nada a fazer! Em revanche, perder seu tempo é uma verdadeira ocupação, e uma das mais fatigantes. A preguiça, como um beijo, para ser agradável deve ser roubada”.

Olhando por esse prisma, podemos dizer que perder tempo exige pensamento e atividade. A ociosidade não se opõe necessariamente ao trabalho, já que, assim e através dela exercitamos e incitamos a faculdade do pensamento.

Então, por que não nos deixarmos levar por um estado de preguiça descompromissada, meio flâneur ou gauche (para ficar na inspiração dos afetos melancólicos)?

Por que não mergulharmos na plenitude de uma lassidão criativa, que provoque a reflexão, olhares ternos e ações solidárias, esmorecendo a ansiedade que precede as tensões e resoluções individuais de final de ano?

Ah, nessas horas, a acídia bem que nos faria transcender as diligências penosas da vida cotidiana, do trabalho e das imposições do tempo, que voa e sempre passa!

por Lene Franck