Avarento, agarrado, avaro.
Egoísta, obstinado, sovina.
Fominha, fuinha, gaveteiro.
Mesquinho, miserável, muquirana.
Tacanho, vilão, ambicioso.
A avareza, e seus múltiplos significados, nos remete de imediato às comédias e tragédias da vida cotidiana. A vida imita a arte. Não é isso? Então, abram-se as cortinas!
"O avarento", texto escrito por Molière em 1668, retrata muito bem o tema, com olhar crítico e irônico expondo a degradação das relações humanas movidas por uma mercantilização exacerbada, por uma avareza e mesquinhez sem limites.
Esse comportamento obstinado se reflete mais do que nunca nas formas de dominação política hoje presentes no mundo e nas práticas cotidianas sociais desgastadas, que ora se confrontam ora se distendem, conforme o movimento das forças em cena.
A cultura da avareza produz conceitos e sentimentos
de idolatria frente
aos objetos da existência. Vem de longa data, já com o cristianismo, esse
desejo exagerado ou descontrolado pela posse de algo: dinheiro, terras, bens
materiais, poder – apesar de algumas religiões advertirem que o homem
não levará para o paraíso o fruto de sua ganância!
Trata algo, que não é
Deus, como se fosse um. É considerado, por isso, como um pecado capital – tolo,
porém, por se firmar em possibilidades.
Na materialidade da vida terrena, a
cobiça tem rendido lucros, dividendos, pompa, distinção e poder – muito poder.
Não é à toa que boa parcela dos mortais ambiciona a riqueza como fonte de
status e de dominação, reproduzindo hábitos que levam à luxúria, à valorização
dos prazeres fúteis, ao fortalecimento de hierarquias e privilégios de classe, ao
egoísmo e à prepotência desmedida. O engodo e a dissimulação facilitam e
instrumentalizam a conquista de uma vida direcionada prioritariamente aos interesses
individuais, à espetacularização da vida. E isso, pra mim, é uma tragédia!
A política tem sido uma ferramenta
clássica da ganância e da cobiça desde os primórdios da civilização. Os propósitos continuam sendo os
mais mesquinhos possíveis, movidos pela vontade de potência nietzscheana - uma
vontade que se mostra como sede de fazer-se mais forte, pelo desejo de
constranger os mais fracos, pelo prazer
de manipular e submeter os considerados inferiores ou incapazes no jogo das forças sociais.
Está aí, mostrando os caminhos e descaminhos para se chegar lá, no topo da pirâmide. Valores
e moralidades vão para o brejo. Comprometimento ético, respeito à justiça, à
legalidade e à probidade ficam subjugadas a uma vontade de potência não
coletiva, a um desejo pessoal e de cunho material, corporativista, sustentada
por políticos avarentos, avaros e agarrados a um poder tosco, diluído e
enfraquecido por uma ganância sem fim - sistemática.
É o que estamos assistindo neste momento,
no cenário da política brasileira, onde a tese da avareza parece se sobrepôr
aos interesses coletivos, aos direitos e conquistas sociais e aos ditames democráticos.
É como dizem mesmo: a vida imita a arte. Então, ao toque do terceiro sinal, que entrem os bufões!
Por Lene Franck
Por Lene Franck
