quinta-feira, 12 de maio de 2016

Avarentos





Avarento, agarrado, avaro.

Egoísta, obstinado, sovina.

Fominha, fuinha, gaveteiro.

Mesquinho, miserável, muquirana.

Tacanho, vilão, ambicioso.

A avareza, e seus múltiplos significados, nos remete de imediato às comédias e tragédias da vida cotidiana. A vida imita a arte. Não é isso? Então, abram-se as cortinas!

"O avarento", texto escrito por Molière em 1668, retrata muito bem o tema, com olhar crítico e irônico expondo a degradação das relações humanas movidas por uma mercantilização exacerbada, por uma avareza e mesquinhez sem limites. 

Esse comportamento obstinado se reflete mais do que nunca nas formas de dominação política hoje presentes no mundo e nas práticas cotidianas sociais desgastadas, que ora se confrontam ora se distendem, conforme o movimento das forças em cena. 

A cultura da avareza produz conceitos e sentimentos de idolatria frente aos objetos da existência. Vem de longa data, já com o cristianismo, esse desejo exagerado ou descontrolado pela posse de algo: dinheiro, terras, bens materiais, poder – apesar de algumas religiões advertirem que o homem não levará para o paraíso o fruto de sua ganância!

Trata algo, que não é Deus, como se fosse um. É considerado, por isso, como um pecado capital – tolo, porém, por se firmar em possibilidades.

Na materialidade da vida terrena, a cobiça tem rendido lucros, dividendos, pompa, distinção e poder – muito poder. Não é à toa que boa parcela dos mortais ambiciona a riqueza como fonte de status e de dominação, reproduzindo hábitos que levam à luxúria, à valorização dos prazeres fúteis, ao fortalecimento de hierarquias e privilégios de classe, ao egoísmo e à prepotência desmedida. O engodo e a dissimulação facilitam e instrumentalizam a conquista de uma vida direcionada prioritariamente aos interesses individuais, à espetacularização da vida. E isso, pra mim, é uma tragédia!

A política tem sido uma ferramenta clássica da ganância e da cobiça desde os primórdios da civilização. Os propósitos continuam sendo os mais mesquinhos possíveis, movidos pela vontade de potência nietzscheana - uma vontade que se mostra como sede de fazer-se mais forte, pelo desejo de constranger os mais fracos, pelo prazer de manipular e submeter os considerados inferiores ou incapazes no jogo das forças sociais.

Está aí, mostrando os caminhos e descaminhos para se chegar lá, no topo da pirâmide. Valores e moralidades vão para o brejo. Comprometimento ético, respeito à justiça, à legalidade e à probidade ficam subjugadas a uma vontade de potência não coletiva, a um desejo pessoal e de cunho material, corporativista, sustentada por políticos avarentos, avaros e agarrados a um poder tosco, diluído e enfraquecido por uma ganância sem fim - sistemática. 

É o que estamos assistindo neste momento, no cenário da política brasileira, onde a tese da avareza parece se sobrepôr aos interesses coletivos, aos direitos e conquistas sociais e aos ditames democráticos.

É como dizem mesmo: a vida imita a arte. Então, ao toque do terceiro sinal, que entrem os bufões!


Por Lene Franck