terça-feira, 5 de abril de 2016

Redes, meios e dispositivos




Meios e dispositivos digitais tornaram-se determinantes e imprescindíveis no atual momento da vida brasileira. Nunca se utilizou tanto as redes, em todos os seus níveis e extensões. Todos têm direito à voz e a um lugar na tribuna. E isso é bom: instrutivo e divertido.  

Mas é bom também lembrar que nem todos os meios têm o mesmo poder e influência sobre o comportamento das pessoas. Como dizia Mc Luhan: “o meio é a mensagem”. E ele estava certo. Então, há que se distinguir meios de outros meios não tão salutares assim.

Grupos minoritários não fazem questão de saber o que as pessoas estão pensando e criticam o uso das redes sociais. São contra os dispositivos, que para Foucault, representariam as teias que se traçam entre os discursos, proposições, organizações, falas, decisões e leis regulamentares.

Humberto Eco foi um crítico dessas articulações. Antes de morrer, o escritor condenou o uso exagerado das redes sociais como meios para emitir juízos de valor, alegando que hoje todo mundo se acha no direito de opinar e discursar “como se todos fossem prêmios Nobel de literatura”. Um tanto prepotente, não? Bem que ele poderia ter dado contribuição mais humilde ao final de sua vida.

Antonio Gramsci, filósofo e jornalista italiano, falecido em 1937, por outro lado, dizia que todos podem ter voz, pois todos nós somos intelectuais, apesar de nem todos sermos eruditos. Somos intelectuais, dizia ele, porque fazemos parte de organizações sociais ou, como denominava, dos aparelhos hegemônicos de poder: escolas, partidos, sindicatos, organizações profissionais, meios de comunicação etc.

Podemos, portanto, pensar, emitir juízos de valor e disseminar princípios coletivamente construídos. Se quisermos ir além, podemos atuar como agentes capazes de realizar mudanças. Para isso, temos que ter claro o nosso papel e o nosso lugar no mundo. Se compreendermos e ocuparmos uma determinada posição (como educadores ou articuladores) no conjunto das relações materiais/sociais que nos situam como seres sociais e pudermos interferir e atuar diretamente sobre essas relações, então podemos ser considerados intelectuais orgânicos.

Mas mesmo que não tenhamos essa pretensão, o que nos impede de argumentar e de promover articulações em busca do consenso? Não é o que fazemos quando reagimos favoravelmente ou não a um post ou comentário no face? Fazemos alianças, discordamos, neutralizamos ou formamos opiniões, reforçando a ideia do acordo comum ou da dialética nas relações ideológicas.

Esse direcionamento ético-político que busca um poder “consensualizado” era o que preconizava Habermas. Para atingir este consenso é necessária uma condição ideal de fala, ou seja, que todos os interlocutores aceitem as argumentações, o agir comunicativo.

A diversidade de pensamento e a utilização dos meios de disseminação da voz (seja para expor conhecimentos, emitir opiniões, esclarecer ou divulgar informações), são imprescindíveis - não para homogeneizar ou doutrinar o pensamento, mas para volatizar formas de hegemonia opressoras, de cunho dominador, como a que a grande imprensa exercita e tenta impor aos incautos ou pacatos cidadãos. Esse é um poder de coerção cruel e inescrupuloso porque intui que os que menos instrumentos têm para discernir entre o real e o fato construído são os que devem e podem ser facilmente dominados.

Através das redes e dos meios impressos, analógicos ou digitais, temos um contato maior com o mundo e com as diferentes formas de pensar os diferentes contextos e realidades.

Percebemos as artimanhas do poder político e midiático. Passamos a ter uma maior clareza dos interesses que regem os produtos e conteúdos produzidos pelos que detêm os meios de comunicação. Observamos o caráter pernicioso e pretensioso de alguns editoriais e os interesses de classe que se escondem por trás das notícias (editadas ao gosto da ideologia ali presente).

No JN do último dia 31, por exemplo, a fala do Presidente da Comissão de Ética denunciando as articulações de Eduardo Cunha para alterar a representatividade dos partidos dentro da Comissão, foi neutralizada e colocada em segundo plano  pelas imagens escolhidas. A montagem priorizou a visão do plenário em detrimento da fala do Presidente. Tratava-se de um importante posicionamento que poderia (ou poderá) definir os rumos das investigações que pesam sobre Cunha. Mas o foco foi bem outro.

O espaço dado à Janaína Paschoal, uma das juristas que encaminhou o pedido de impeachment à Comissão Especial, na Câmara dos Deputados, foi deliberadamente estendido. Assim também ocorreu com o tempo concedido à fala do jurista Miguel Reale Junior, o qual evidentemente tratou de criminalizar as pedaladas fiscais. O dito e o não dito no discurso (o dispositivo)  foi engrandecido graças aos bondosos minutos que recebeu da emissora (as imagens foram incansavelmente reproduzidas nos demais noticiários do canal). Ou seja, a Globo prioriza as vozes que reproduzem a sua voz.

Exemplos não faltam.

A Band, da mesma forma, no jornal do dia 04/04, fez uma edição esdrúxula e mal acabada da defesa apresentada pela Advocacia Geral da República na comissão da Câmara  que examina o processo de impeachment movido contra a Presidente. A emissora destacou apenas as posições dos adversários e dos autores da denúncia. A fala do ministro foi totalmente desqualificada.

Paradoxalmente, me vejo inclinada a acompanhar diferentes versões jornalísticas impressas e televisivas que rolam por aí,  para discernir o texto dito do não dito nas entrelinhas dos noticiários. É preciso tecer as linhas dessa rede para desmembrar seus elementos e elucidar os discursos ocultos. Sem perder o fio da meada, claro!

por Lene Franck