Meios e dispositivos digitais tornaram-se
determinantes e imprescindíveis no atual momento da vida brasileira. Nunca se
utilizou tanto as redes, em todos os seus níveis e extensões. Todos têm direito
à voz e a um lugar na tribuna. E isso é bom: instrutivo e divertido.
Mas é bom também lembrar que nem
todos os meios têm o mesmo poder e influência sobre o comportamento das pessoas.
Como dizia Mc Luhan: “o meio é a mensagem”. E ele estava certo. Então, há que
se distinguir meios de outros meios não tão salutares assim.
Grupos minoritários não fazem
questão de saber o que as pessoas estão pensando e criticam o uso das redes
sociais. São contra os dispositivos, que para Foucault, representariam as teias
que se traçam entre os discursos, proposições, organizações, falas, decisões e
leis regulamentares.
Humberto Eco foi um crítico dessas articulações.
Antes de morrer, o escritor condenou o uso exagerado das redes sociais como meios
para emitir juízos de valor, alegando que hoje todo mundo se acha no direito de
opinar e discursar “como se todos fossem prêmios Nobel de literatura”. Um tanto
prepotente, não? Bem que ele poderia ter dado contribuição mais humilde ao
final de sua vida.
Antonio Gramsci, filósofo e
jornalista italiano, falecido em 1937, por outro lado, dizia que todos podem
ter voz, pois todos nós somos intelectuais, apesar de nem todos sermos
eruditos. Somos intelectuais, dizia ele, porque fazemos parte de organizações
sociais ou, como denominava, dos aparelhos hegemônicos de poder: escolas,
partidos, sindicatos, organizações profissionais, meios de comunicação etc.
Podemos,
portanto, pensar, emitir juízos de valor e disseminar princípios coletivamente
construídos. Se quisermos ir além, podemos atuar como agentes capazes de
realizar mudanças. Para isso, temos que ter claro o nosso papel e o nosso lugar
no mundo. Se compreendermos e ocuparmos uma determinada posição (como educadores
ou articuladores) no conjunto das relações materiais/sociais que nos situam como
seres sociais e pudermos interferir e atuar diretamente sobre essas relações, então
podemos ser considerados intelectuais orgânicos.
Mas mesmo que não tenhamos essa
pretensão, o que nos impede de argumentar e de promover articulações em busca do
consenso? Não é o que fazemos quando reagimos favoravelmente ou não a um post
ou comentário no face? Fazemos alianças, discordamos, neutralizamos ou formamos
opiniões, reforçando a ideia do acordo comum ou da dialética nas relações
ideológicas.
Esse direcionamento ético-político que
busca um poder “consensualizado” era o que preconizava Habermas. Para atingir
este consenso é necessária uma condição ideal de fala, ou seja, que todos os interlocutores
aceitem as argumentações, o agir comunicativo.
A diversidade de pensamento e a
utilização dos meios de disseminação da voz (seja para expor conhecimentos, emitir
opiniões, esclarecer ou divulgar informações), são imprescindíveis - não para homogeneizar
ou doutrinar o pensamento, mas para volatizar formas de hegemonia opressoras,
de cunho dominador, como a que a grande imprensa exercita e tenta impor aos incautos
ou pacatos cidadãos. Esse é um poder de coerção cruel e inescrupuloso porque intui
que os que menos instrumentos têm para discernir entre o real e o fato
construído são os que devem e podem ser facilmente dominados.
Através das redes e dos meios
impressos, analógicos ou digitais, temos um contato maior com o mundo e com as
diferentes formas de pensar os diferentes contextos e realidades.
Percebemos as artimanhas do poder
político e midiático. Passamos a ter uma maior clareza dos interesses que regem
os produtos e conteúdos produzidos pelos que detêm os meios de comunicação. Observamos
o caráter pernicioso e pretensioso de alguns editoriais e os interesses de
classe que se escondem por trás das notícias (editadas ao gosto da ideologia
ali presente).
No JN do último dia 31, por
exemplo, a fala do Presidente da Comissão de Ética denunciando as articulações
de Eduardo Cunha para alterar a representatividade dos partidos dentro da
Comissão, foi neutralizada e colocada em segundo plano pelas imagens escolhidas. A montagem priorizou
a visão do plenário em detrimento da fala do Presidente. Tratava-se de um importante
posicionamento que poderia (ou poderá) definir os rumos das investigações que
pesam sobre Cunha. Mas o foco foi bem outro.
O espaço dado à Janaína Paschoal, uma
das juristas que encaminhou o pedido de impeachment à Comissão Especial, na
Câmara dos Deputados, foi deliberadamente estendido. Assim também ocorreu com o
tempo concedido à fala do jurista Miguel Reale Junior, o qual evidentemente
tratou de criminalizar as pedaladas fiscais. O dito e o não dito no discurso (o
dispositivo) foi engrandecido graças aos
bondosos minutos que recebeu da emissora (as imagens foram incansavelmente reproduzidas
nos demais noticiários do canal). Ou seja, a Globo prioriza as vozes que reproduzem
a sua voz.
Exemplos não faltam.
A Band, da mesma forma, no jornal
do dia 04/04, fez uma edição esdrúxula e mal acabada da defesa apresentada pela
Advocacia Geral da República na comissão da Câmara que examina o processo de impeachment movido
contra a Presidente. A emissora destacou apenas as posições dos adversários e
dos autores da denúncia. A fala do ministro foi totalmente desqualificada.
Paradoxalmente, me vejo inclinada a
acompanhar diferentes versões jornalísticas impressas e televisivas que rolam
por aí, para discernir o texto dito do
não dito nas entrelinhas dos noticiários. É preciso tecer as linhas dessa rede
para desmembrar seus elementos e elucidar os discursos ocultos. Sem perder o fio da meada, claro!
por Lene Franck
