segunda-feira, 28 de novembro de 2016

El comandante!



A propósito da morte de Fidel Castro, reproduzo texto da jornalista Lúcia Helena Issa. Tive a oportunidade de conhecer Cuba por ocasião do Congresso Internacional de Pedagogia, em 1990. Apesar dos embargos que a ilha sofreu a partir da Revolução Cubana e das restrições que lhe foram impostas, a população (que não emigrou para Miami) ainda acredita nos ideais socialistas e chora a morte do seu grande líder. 

“Morei em CUBA durante alguns meses quando estava terminando a faculdade de jornalismo, para descobrir o que sentiam, com o que sonhavam e como viviam os cubanos e para escrever a minha dissertação que acabaria se transformando em um livro premiado pelo governo federal. Uma imensa tristeza toma conta de minha alma ao saber da morte do Comandante FIDEL CASTRO. Tenho visto hoje, como esperado, a ira, a agressividade assustadora e a pobreza espiritual, caminhando rapidamente pelas redes sociais ao lado de seus pais, o desconhecimento, o medo e a ignorância. 

Vc sabe quem foi o ditador de direita Fulgêncio Batista, a quem Fidel derrubou com a ajuda de milhares de jovens cubanos? Vc sabe quem foi Fidel ? Vc sabia que Fidel nasceu em uma família rica de Cuba e descobriu ao crescer que grande parte das crianças da ilha estavam morrendo de desnutrição? Vc sabia que , segundo a ONU, antes da Revolução de Fidel, a maior parte das terras da ilha estava em poder dos americanos, que pagavam 50 centavos de peso por 12 horas de trabalho de um cubano? E que de 1, 5% das terras pertencia aos escravagistas e latifundiários da ilha? Vc sabia que, um ano antes de a Revolução triunfar em Cuba, 60% dos cubanos vivia em bohios, uma favela ainda mais pobre e triste do que qualquer favela que vc tenha visto? Vc sabia que antes de Fidel, 43% dos adultos eram analfabetos, e 47 % das crianças não ia a escola, e hoje o analfabetismo foi praticamente erradicado na ilha? Vc sabia que 30 % da capital, Havana, antes do triunfo de Che e Fidel , não recebia eletricidade, pois eram os americanos que decidam quem merecia ter eletricidade e quem não merecia? Vc sabia que a soma das apostas nos cassinos cubanos diariamente era de 266,000 dólares, mas nada desse dinheiro ia para escolas ou hospitais mas apenas para um grupo de mafiosos cubanos? Vc sabia o ditador Batista afirmava que o jogo era ilegal na ilha, porque assim uma parte do dinheiro, 32.000 dólares , que em 1958 era uma quantia infinitamente maior que hj, ia para seus policiais corruptos e para ele mesmo, enquanto ele dizia para o mundo que o jogo era ilegal em Cuba? Vc sabia que Batista investia apenas em cassinos e prostituição? Vc sabia que Cuba teve, depois de Che Guevara como ministro e médico, índices tao baixos de mortalidade infantil quanto os da Suiça? VC sabia que, mesmo com o embargo comercial criminoso dos EUA contra cuba, durante muitos anos, a ilha teve o melhor sistema de saúde do continente, conseguindo erradicar muitas doenças , atendendo 100"% de sua gente, e ainda atendendo milhares de pacientes italianos e brasileiros, que iam para a ilha para tentar curar doenças de pele, vitiligo, etc, e para ter mais qualidade de vida? Vc sabia que Fidel sofreu mais de 20 tentativas de assassinato dos EUA ? Vc sabia que nos meses em que morei em Havana, jamais vi uma criança de rua ou uma criança faminta? O jovem Fidel foi um grande homem. O Fidel que conhecemos depois talvez tenha se tornado duro demais e tenha cometido muitos erros, sim, como todos cometemos. 

Mas vc se perguntou por que o NEW YORK TIMES o chamou de um ‘revolucionário que desafiou os EUA’. Vc se perguntou por que tantos jornais italianos o homenagearam hj? Vc se perguntou por que muitos franceses choraram por ele? Ou por que o Papa Francisco, assim como eu, falou de sua imensa tristeza hoje e lamentou a morte de Fidel?? Ou por que Mandela era seu amigo pessoal? Tente buscar respostas, leia, pesquise, não deixe a ira cegar vc. Reflita. 

Durante essa semana, publicarei uma parte do texto que escrevi para um livro na Itália sobre Fidel e do texto que escrevi, a pedido de minha amiga Marília Carvalho Guimarães, para um livro sobre Fidel. Nesse momento, deixo aqui minha dor, minha imensa tristeza pela morte do Comandante Fidel, pelo momento que o mundo vive, pelas injustiças do mundo, pelos refugiados, pelas guerras, pelo assassinato de Che Guevara, cuja filha conheci em Cuba, pela imensa desigualdade no Brasil e por todas as nossas perdas. A menina que vive em mim, Comandante Fidel, sonhava com Cuba e conheceu o seu legado em Havana. A menina que vive em mim ainda sonha com um mundo mais justo".

Por Lúcia Helena Issa, jornalista.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

E não dizemos nada




A situação política e econômica no País nos leva a vários questionamentos e alusões. Estamos vivendo um momento de ceticismo e desencanto com a política brasileira e com os valores que lhe dão sustentação - valores que têm sido gradual e sistematicamente arrancados da nossa democracia representativa. O poema abaixo, falsamente atribuído ao poeta Vladimir Maiakósvski (1893-1930), ilustra muito bem esse momento e essa sensação de fragilidade e de perda que estamos vivenciando de forma subliminar, crescente e passiva no âmbito de "quase" todos os cenários e contextos da sociedade brasileira. 
Embora creditado, na epígrafe de um dos livros do escritor Roberto Freire, a Maiakóvski e, posteriormente, a Gabriel García Márquez, Bertolt Brecht e, até mesmo, a Wilhelm Reich, a verdadeira autoria do poema é do escritor brasileiro, pouco conhecido, Eduardo Alves da Costa (78 anos, autor de Tango, com violino) . O poema (mais precisamente, os versos que se tornaram populares) estampou as camisetas amarelas da campanha pelas "Diretas Já" nos anos 80 e viralizou nas correntes de e-mails veiculadas nos anos 90. 

Vale a pena lê-lo na íntegra!

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI 
(escrito em 1968 - época de resistência ao regime militar)

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Clima de terror


Valter Nagelstein e a educação extirpada

por Fernando Nicolazzi  

(jornal sul21, em 17/10/16)



“Extirpar” é um verbo que remete a vários significados. Se abrirmos o Houaiss, lemos que ele se refere à ação de arrancar pela raiz, operar a extirpação de um cisto ou um cancro, promover a destruição ou eliminação de alguém ou alguma coisa, extinguir, destruir algo. Não importa qual destes significados seja assumido: todos, sem exceção, remetem a uma ação violenta. Pois é justamente esta violência que pretende o vereador Valter Nagelstein (PMDB/RS), com seu PL 124/2016, protocolado na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Segundo suas próprias palavras, escritas com tom pouco amigável em uma breve troca de mensagens que mantive com ele por uma rede social, com tal projeto “nós vamos extirpar os doutrinadores do ensino”.

O fato ocorreu após o vereador ter participado de um democrático debate sobre o programa Escola sem Partido e seus correlatos projetos de lei que estão em discussão nos âmbitos federal, estadual e municipal, do qual eu também fui participante na condição de membro da comunidade escolar. O evento ocorreu no Colégio João XXIII, em Porto Alegre, na última quinta-feira 13 de outubro, contando ainda com a participação do advogado José Antonio Rosa, defensor do programa, e da professora Elisabete Búrigo, representante da Frente Gaúcha Escola sem Mordaça, que se opõe aos projetos.

O programa Escola sem Partido, criado em 2004 pelo procurador do Estado de São Paulo, Miguel Nagib, e transformado em anteprojeto de lei em 2014, a pedido da família Bolsonaro, no Rio de Janeiro, se encarado com outros projetos de lei que fazem parte do chamado “Pacote Escola sem Partido”, tem por consequência primordial cercear a liberdade de atuação de professores e professoras, causando sérios danos à prática educacional. Levando em consideração o PL 193/2016, de autoria do senador Magno Malta (PR/ES), bem como os PL 867/2015 e 1859/2015, ambos protocolados pelo Deputado Federal Izalci (PSDB/DF), o importante e incontornável tema das relações de gênero e da orientação sexual estaria proibido de ser discutido em ambiente escolar. Ou seja, a discussão sobre se cabe à mulher apenas o papel social de ser “bela, recatada e do lar” ou atividades de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis não poderiam ser realizadas pelas escolas.

Além de cercear a prática docente, o Pacote pretende criminalizar o trabalho dos professores e professoras. É o que objetiva o PL 1411/2015, do deputado federal Rogério Marinho (PSDB/RN), que “tipifica o crime de assédio ideológico”, prevendo a pena de 3 meses a um ano, tempo que pode ser aumentado em 1/3 caso o agente do crime seja um professor. O tempo de detenção pode ainda ser aumentada em 1/2 se “da prática criminosa resultar reprovação” ou “diminuição de nota”. Não é preciso muito esforço para imaginar o clima de denuncismo e de terror, digno dos mais repulsivos regimes totalitários, que estes projetos pretendem impor à educação brasileira.

Pois é justamente dentro deste Pacote que se insere a proposta legislativa do vereador Valter Nagelstein. Embora em sua fala se note a tentativa pouco convincente de se descolar deste movimento, qualquer pessoa que leia seu projeto com o mínimo de atenção, analisando os termos utilizados e as propostas nele contidas (como a fixação na escola de um cartaz contendo os “deveres” dos professores, algo idealizado por Miguel Nagib), é capaz de concluir que seu PL 124/2016 está completamente inserido nesta mesma vaga conservadora, que mistura fundamentalismo religioso, discriminação sexual e deturpação do texto constitucional.

Nagelstein abandonou o debate no Colégio João XXIII antes que todos os participantes pudessem concluir suas falas. Não respeitou a plateia ou seus debatedores, recusando-se a ouvir as palavras finais daqueles que se opunham às suas ideias. Os efeitos disso podem ser vistos em diversos relatos deixados nas redes sociais por quem presenciou o evento. O mais grave, contudo, foi o fato dele próprio ter se manifestado de maneira extremamente desrespeitosa em relação à escola após o debate. O vereador acusou o projeto pedagógico da instituição de promover uma “política educacional que evidência (sic) a aplicação dos preceitos de marxismo cultural intenso e fervoroso”. Seria tarefa vã e despropositada solicitar a ele que comprovasse sua afirmação. Já pensaram no tédio que deve ser ouvi-lo explanando sua visão sobre o “marxismo-cultural”? Da mesma forma, seria inócuo pedir a ele que corroborasse empiricamente sua ilação de que tudo foi um “espetáculo” arranjado entre pais e organizadores. Nem com a ajuda de toda a claque que estava presente ao debate ele conseguiria tal feito (havia, inclusive, um sujeito com megafone na mão… dentro do auditório!).

De todo modo, sua posição oferece a todos que defendem uma educação plural, democrática, pautada nos princípios da justiça social e do respeito às diferenças, uma perspectiva importante. Invariavelmente, todos os projetos de lei ligados ao Escola sem Partido falham ao tentar definir o significado de “doutrinação político-partidária”. E o risco reside justamente neste ponto, pois ao não se ter clareza do que significa realmente uma doutrinação política, qualquer pessoa, mesmo sem ser truculenta, autoritária e desrespeitosa, pode alegar que um debate democrático, onde foi assegurada a liberdade de manifestação de diferentes posições (desde as mais esdrúxulas, até as mais consistentes), foi uma atividade “doutrinadora”. Pior, de uma suposta “doutrinação marxista-cultural”, seja lá o que isso quer dizer! O perigo destes projetos não é para a nenhum partido político em específico, mas para a própria existência da democracia na nossa sociedade. Ela seria, junto com a própria educação, extirpada.

Stálin, Hitler e Mussolini foram governantes que procuraram extirpar seus opositores ideológicos. O escritor russo Varlam Chalámov cumpriu pena em Kolimá, na Sibéria; o professor de história francês Pierre Vidal Naquet teve seus pais mortos em Auschwitz; o italiano Arnaldo Momigliano, um dos maiores eruditos do século XX, exilou-se na Inglaterra fugindo do fascismo. Na pátria do liberalismo, a Klu Klux Klan também se esforçou para extirpar indivíduos que considerava inferiores tão somente devido à cor de suas peles. Neste mesmo país capitalista, George W. Bush inventou um falso problema (a existência de armas de destruição em massa no Iraque) para extirpar terroristas no Oriente Médio e fomentar o ódio contra o Islamismo. No Brasil, outro propagador do Escola sem Partido, o deputado federal Jair Bolsonaro, é réu no STF por incitar o estupro e também responde no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados por apologia à tortura. Seria cansativo enumerar tudo aquilo que, por simples discordância, Bolsonaro pretende extirpar. Ou seja, não importa a ideologia, o partido político ou o modelo econômico que se defende, se de esquerda, direita ou com o verniz enganoso do liberalismo bom-mocinho de nossas elites: a violência não escolhe lado e afeta a todos.

Ao afirmar publicamente que pretende extirpar aqueles que considera, sem o mínimo fundamento empírico, como “doutrinadores do ensino”, Nagelstein não deixa dúvidas sobre sua incapacidade para lidar com o pluralismo de ideias e com a liberdade de consciência que, nunca é demais lembrar, são assegurados constitucionalmente. O pior, todavia, é que ao assim fazê-lo, o vereador lamentavelmente ecoa o que há de mais trágico e traumático na história da humanidade: a injustificável violência contra o outro.

Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/valter-nagelstein-e-a-educacao-extirpada-por-fernando-nicolazzi/

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Brasil, uma novela ruim

Foto: Raquel Marin


Não houve uma batalha política, mas sim a aposta na mudança de um estado das coisas que atingia ou podia atingir grandes interesses econômicos e que, de forma lamentável, contou com o apoio explosivo de várias de suas vítimas

por Leonardo Padura, Jornal El País

As telenovelas brasileiras sempre se guiam por um código dramático e ético: embora os heróis passem por terríveis dificuldades e recebam os mais duros golpes, ao final a justiça e a verdade sempre saem vitoriosas. É por isso que elas são telenovelas, e fazem sucesso nas mais diferentes culturas. Mas a realidade, como sabemos, costuma avançar por meio de outros mecanismos, mesmo quando se trata da realidade brasileira.


Devo confessar que, quando quase todo mundo, ao analisar racionalmente o desenvolvimento do processo de destituição da presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, antevia o seu resultado, eu mantinha, romanticamente, alguma esperança em uma mudança da sentença anunciada. Talvez por uma deformação profissional, eu confundia a realidade com o código das telenovelas. 

Agora que o famoso impeachment se  concretizou e Dilma foi tirada do seu cargo, o ocorrido me parece tão política e humanamente instrutivo que, apesar de tudo o que já se escreveu a respeito, atrevo-me a enfiar a minha colher, contrariando até mesmo o meu costume de não dar opinião sobre realidades cujos meandros mais profundos eu não domino, já que não participo do seu dia a dia. Por isso, atrevo-me, aqui, a expor algumas ideias que me atormentam e que têm me tirado o sono.

Não é segredo para ninguém que a corrupção é um mal quase endêmico nas sociedades latino-americanas (embora não apenas nelas). E o fato de se julgar um presidente por ter participado de atos desse tipo me parece uma decisão exemplar. No caso específico de Rousseff, porém, até onde pude ler e compreender, o seu pecado não se encaixa nessa categoria, e sim naquilo que poderia ser classificado como um mau uso dos fundos públicos, não com objetivos de ganho pessoal, como é hábito, mas para manter em funcionamento algumas políticas adotadas pelo seu Governo e que ela considerou prioritárias.

A primeira coisa que parece curiosa, nessa lógica, é que uma quantidade significativa dos juízes que decidiram o destino da ex-presidenta enfrenta processos por corrupção pura e simples; são alvo de investigações em curso que, se levadas a cabo e julgadas com a mesma contundência com que se apreciou a administração de Rousseff — e é assim que deveria ser, em se tratando de justiça —, poderiam leva-los até mesmo à prisão. Se não todos, pelo menos alguns deles. Nem que fosse para se continuar a dar o bom exemplo.

Também não é segredo, ao longo de todos esses meses em que tanto se falou da crise política brasileira, o fato de terem ocorrido erros políticos e estratégicos por parte da ex-mandatária, os quais estiveram por trás das fricções e rupturas que atingiram a coalizão interpartidária que a sustentava. Mas equívocos desse gênero acontecem todos os dias nos gabinetes governamentais do mundo inteiro, e as crises conseguem ser solucionadas com o debate político, e não com o julgamento e a condenação aplicados no caso de Rousseff.

Tamanho empenho para tirar do poder a ex-presidente e, com ela, o Partido dos Trabalhadores, ao qual Dilma pertence, deve esconder, portanto, outras razões menos claras e visíveis. Pois as toneladas de mesquinharias e de ódio acumulados nas altas esferas da política brasileira têm motivações mais obscuras: a vingança e o empenho para frustrar um projeto político, ou, como ouvi dizerem, “um projeto de país”.

Uma quantidade significativa daqueles que julgaram a ex-presidenta enfrenta processos por corrupção

A radicalização dos partidos e dos senadores contra Rousseff trouxe consigo o mau cheiro de uma revanche, destinada a desmontar uma política social que, nos anos de governo do PT, definiu para si um objetivo fundamental: melhorar a vida dos brasileiros em geral e dos mais pobres e marginalizados em particular. Sem dúvida, Lula e Dilma cometeram erros em suas gestões, e sob seus mandatos houve casos de corrupção, nos quais, ao menos até o momento, não se provou a sua participação. Mas os dois presidentes, e também não há dúvida sobre isso, trabalharam em favor daquele grande objetivo econômico e social. No mínimo o estimularam muito mais do que quase todos — ou do que todos — os presidentes anteriores desse país. E os dados mostram isso.

Como é possível, então, que tantos brasileiros, muitos mais do que aquilo que se poderia chamar de oligarquia ou dos inimigos reunidos nos partidos contrários a essa política, tenham participado do solapamento do prestígio de Rousseff e, nesse sentido, viabilizado a sua condenação?

No caso dos primeiros, os motivos são claros. Mas no que se refere ao restante dos brasileiros que se opunham ou criticavam a gestão de Dilma, as coisas se complicam, pois não apenas a classe média, mas também muitos trabalhadores, inclusive moradores de favelas, participaram dessa demolição. Poder-se-ia dizer que a crise econômica e a capacidade reduzida de lidar com ela influíram na percepção desse setor da população, mas existem outros dois elementos que me parecem mais instrutivos: em primeiro lugar, a facilidade com que os meios de comunicação e a propaganda conseguem manipular o pensamento das massas; em segundo, a sempre presente ingratidão humana, impulsionada, neste caso, pelas ambições pessoais nem sempre realizadas.

Inúmeras vezes se argumentou que a destituição da presidenta aconteceu nos marcos do sistema legal e respeitando-se a Constituição. E as duas afirmações podem, até devem estar corretas. Mas também não deixa de ser correto afirmar que os ritos processuais e a Constituição foram grosseiramente manipulados para se operar uma vingança. Se inicialmente o rosto de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara e detonador do impeachment, e agora o de Michel Temer, elevado à dignidade da posição presidencial, foram identificados como os protagonistas do processo, todos nós sabemos que os dois apenas cumpriram um papel que os ultrapassa e em que são utilizados para dar conta do real objetivo: mudar o rumo político e social do país.

O que se travou no Brasil, assim, não foi uma disputa partidária, nem mesmo política: foi uma aposta na mudança de um estado de coisas que atingia ou podia atingir grandes interesses econômicos e que, de maneira lamentável, contou com o apoio explosivo de muitas das vítimas desses interesses econômicos. Agora, enquanto a História avança e começa a reunir argumentos para realizar seus julgamentos definitivos, o Brasil e sua democracia vivem momentos obscuros. O fato de que os ritos legais e a Constituição tenham sido os instrumentos usados para levar a cabo aquilo que muitas pessoas no mundo consideram um golpe de Estado parlamentar é uma certeza dolorida. Mas também uma lição de como podem ser frágeis alguns instrumentos do contrato social e do papel que as massas, quando acionadas, podem desempenhar — como a própria História já mostrou em várias oportunidades.

Rousseff e seu projeto são condenados enquanto Trump e seu anti-projeto nos espreitam

No final, além do dolorido sentimento de frustração, muitos de nós comprovaremos mais uma vez que é mais fácil escrever um final feliz para uma telenovela do que para a realidade de um mundo em que se condena Dilma Rousseff e o seu projeto enquanto Donald Trump e o seu anti-projeto nos espreitam. Isso, para mencionar apenas um exemplo dentre outras tantas realidades assustadoras que nos cercam.

Leonardo Padura é escritor.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Descompassos



Para aliviar um pouco as tensões dos últimos dias, aí vai um vídeo caseiro produzido recentemente, sem grandes pretensões. 
Espero que gostem!

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Ainda sobre os jogos e o conjunto da obra

                                  


Por Ariel Gil  

Imagine a seguinte cena: você passa semanas inteiras estudando para uma prova e descobre que no dia do exame seu colega, que não pesquisou e nem estudou nada, cola tudo e tira nota igual a sua, considerando-se o mais inteligente e esperto da turma.

A decisão sobre qual País seria a sede dos Jogos Olímpicos 2016 foi anunciada dia 2 de outubro de 2009. Foi um marco histórico para o Brasil. Sediar um evento deste porte era mérito de quem realmente tinha dado oportunidades para a população. 

Com lágrimas, a notícia foi recebida pelo presidente do País na época: Lula.

De 2002 à 2013, muitas coisas mudaram com ele e Dilma no poder.

Os dados abaixo fazem parte do conjunto da obra e, ao contrário das argumentações tecnicamente forjadas que foram utilizadas de forma escancarada política pelos defensores do golpe, não podem ser manipulados. Aí estão, para que não esqueçamos:

1. Produto Interno Bruto:
2002 – R$ 1,48 trilhões
2013 – R$ 4,84 trilhões

2. PIB per capita:
2002 – R$ 7,6 mil
2013 – R$ 24,1 mil

3. Dívida líquida do setor público:
2002 – 60% do PIB
2013 – 34% do PIB

4. Lucro do BNDES:
2002 – R$ 550 milhões
2013 – R$ 8,15 bilhões

5. Lucro do Banco do Brasil:
2002 – R$ 2 bilhões
2013 – R$ 15,8 bilhões

6. Lucro da Caixa Econômica Federal:
2002 – R$ 1,1 bilhões
2013 – R$ 6,7 bilhões

7. Produção de veículos:
2002 – 1,8 milhões
2013 – 3,7 milhões

8. Safra Agrícola:
2002 – 97 milhões de toneladas
2013 – 188 milhões de toneladas

9. Investimento Estrangeiro Direto:
2002 – 16,6 bilhões de dólares
2013 – 64 bilhões de dólares

10. Reservas Internacionais:
2002 – 37 bilhões de dólares
2013 – 375,8 bilhões de dólares

11. Índice Bovespa:
2002 – 11.268 pontos
2013 – 51.507 pontos

12. Empregos Gerados:
Governo FHC – 627 mil/ano
Governos Lula e Dilma – 1,79 milhões/ano

13. Taxa de Desemprego:
2002 – 12,2%
2013 – 5,4%

14. Valor de Mercado da Petrobras:
2002 – R$ 15,5 bilhões
2014 – R$ 104,9 bilhões

15. Lucro médio da Petrobras:
Governo FHC – R$ 4,2 bilhões/ano
Governos Lula e Dilma – R$ 25,6 bilhões/ano

16. Falências Requeridas em Média/ano:
Governo FHC – 25.587
Governos Lula e Dilma – 5.795

17. Salário Mínimo:
2002 – R$ 200 (1,42 cestas básicas)
2014 – R$ 724 (2,24 cestas básicas)

18. Dívida Externa em Relação às Reservas:
2002 – 557%
2014 – 81%

19. Posição entre as Economias do Mundo:
2002 - 13ª
2014 - 7ª

20. PROUNI – 1,2 milhões de bolsas

21. Salário Mínimo Convertido em Dólares:
2002 – 86,21
2014 – 305,00

22. Passagens Aéreas Vendidas:
2002 – 33 milhões
2013 – 100 milhões

23. Exportações:
2002 – 60,3 bilhões de dólares
2013 – 242 bilhões de dólares

24. Inflação Anual Média:
Governo FHC – 9,1%
Governos Lula e Dilma – 5,8%

25. PRONATEC – 6 Milhões de pessoas

26. Taxa Selic:
2002 – 18,9%
2012 – 8,5%

27. FIES – 1,3 milhões de pessoas com financiamento universitário

28. Minha Casa Minha Vida – 1,5 milhões de famílias beneficiadas

29. Luz Para Todos – 9,5 milhões de pessoas beneficiadas

30. Capacidade Energética:
2001 - 74.800 MW
2013 - 122.900 MW

31. Criação de 6.427 creches

32. Ciência Sem Fronteiras – 100 mil beneficiados

33. Mais Médicos (Aproximadamente 14 mil novos profissionais): 50 milhões de beneficiados

34. Brasil Sem Miséria – Retirou 22 milhões da extrema pobreza

35. Criação de Universidades Federais:
Governos Lula e Dilma - 18
Governo FHC - zero

36. Criação de Escolas Técnicas:
Governos Lula e Dilma - 214
Governo FHC - 11
De 1500 até 1994 - 140

37. Desigualdade Social:
Governo FHC - Queda de 2,2%
Governo PT - Queda de 11,4%

38. Produtividade:
Governo FHC - Aumento de 0,3%
Governos Lula e Dilma - Aumento de 13,2%

39. Taxa de Pobreza:
2002 - 34%
2012 - 15%

40. Taxa de Extrema Pobreza:
2003 - 15%
2012 - 5,2%

41. Índice de Desenvolvimento Humano:
2000 - 0,669
2005 - 0,699
2012 - 0,730

42. Mortalidade Infantil:
2002 - 25,3 em 1000 nascidos vivos
2012 - 12,9 em 1000 nascidos vivos

43. Gastos Públicos em Saúde:
2002 - R$ 28 bilhões
2013 - R$ 106 bilhões

44. Gastos Públicos em Educação:
2002 - R$ 17 bilhões
2013 - R$ 94 bilhões

45. Estudantes no Ensino Superior:
2003 - 583.800
2012 - 1.087.400

46. Risco Brasil (IPEA):
2002 - 1.446
2013 - 224

47. Operações da Polícia Federal:
Governo FHC - 48
Governo PT - 1.273 (15 mil presos)

48. Varas da Justiça Federal:
2003 - 100
2010 - 513

49. 38 milhões de pessoas ascenderam à Nova Classe Média (Classe C)

50. 42 milhões de pessoas saíram da miséria.

Seria Michel Temer o grande responsável pelo sucesso dos Jogos Olímpicos?

FONTES:
47/48 - http://www.dpf.gov.br/agencia/estatisticas
39/40 - http://www.washingtonpost.com/
42 - OMS, Unicef, Banco Mundial e ONU
37 - índice de GINI: www.ipeadata.gov.br
45 - Ministério da Educação
13 - IBGE
26 - Banco Mundial

http://jornalggn.com.br/blog/iv-avatar/fhc-vs-lula-dilma-um-quadro-comparativo

domingo, 14 de agosto de 2016

Se Os Tubarões Fossem Homens



João Pedro Gil, visitando o Berliner Ensemble,
em Berlim (foto de 2014)




Há exatos 60 anos, morria em Berlim, um dos mais criativos e engajados dramaturgos de todos os tempos: Bertold Brecht!

        Autor de uma vasta bibliografia, que inclui peças de teatro, poemas, livros de ensaios e teoria crítica, Brecht nos deixou um grande legado.

        Este texto, que reproduzo aqui, não poderia ser mais atual.





Se os tubarões fossem homens, perguntou ao Sr. K. a filha da sua senhoria, eles seriam mais amáveis com os peixinhos? Certamente, disse ele. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca, e por exemplo se um peixinho ferisse a barbatana, então lhe fariam imediatamente um curativo, para que ele não lhes morresse antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente, haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar para as goelas dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura.
Os peixinhos saberiam que esse futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um dentre eles mostrasse tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros.
Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, eles iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia o título de herói. Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente.
Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões. Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disse se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si.
Alguns deles se tornariam funcionários, seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isto seria agradável para os tubarões, pois eles teriam, com maior frequência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores, detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas etc. Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens”. (BRECHT, apud WONSOVICZ, 2005, p. 38).  

Eugen Bertholt Friedrich Brecht 
(Augsburg, 10 de fevereiro de 1898  Berlim Leste, 15 de agosto de 1956)
Destacado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX. Seus trabalhos artísticos e teóricos influenciaram profundamente o teatro contemporâneo, tornando-o mundialmente conhecido a partir das apresentações de sua companhia - o Berliner Ensemble, realizadas em Paris durante os anos 1954 e 1955.
Ao final dos anos 1920 Brecht torna-se marxista, vivendo o intenso período das mobilizações da República de Weimar, desenvolvendo o seu teatro épico.
Sua praxis é uma síntese dos experimentos teatrais de Erwin Piscator e Vsevolod Emilevitch Meyerhold, do conceito de estranhamento do formalista russo Viktor Chklovski, do teatro chinês e do teatro experimental da Rússia soviética, entre os anos 1917-1926.
Seu trabalho como artista concentrou-se na crítica artística ao desenvolvimento das relações humanas no sistema capitalista.