Fragmento de Os
Sete Pecados Capitais, representando a Preguiça – de Hieronymus Bosch
Já diz um provérbio português que “não há sábado
sem sol, domingo sem missa, nem segunda sem preguiça”.
Às vezes, esse ditado cai como uma
luva. Afinal, quem nunca sentiu vontade de “pular” uma segunda-feira? Quem não
se sente lento e devagar no início de semana? Ainda mais, se formos pensar que é
a semana do Natal (aí, dá preguiça até de pensar).
Moleza, lentidão, desânimo, falta
de energia interior, cansaço físico e intelectual. Todas essas sensações são
sinônimos de preguiça. Mas a palavra traz outras correlações e significados: melancolia,
inação, acídia, falta de vontade de “se
gastar” ao cumprir um dever e aversão ao trabalho.
Na
visão judaico-cristã, a preguiça está
relacionada ao ócio. Ao perder o Paraíso Terrestre, Adão ouve do Senhor:
“Maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os
dias de tua vida (...), Com o suor de teu rosto comerás teu pão, até que
retornes ao solo, pois dele foste tirado (...)”.
Ao ócio feliz do Paraíso, segue-se o sofrimento do trabalho
como pena imposta pela justiça divina e por isso os filhos de Adão e Eva (isto
é, a humanidade inteira) pecarão novamente se não se submeterem à obrigação de
trabalhar, sintetiza Marilena Chaui, na
introdução ao texto de Paul Lafargue: “O Direito à Preguiça”.
O trabalho, dessa maneira, vai se impondo como maldição e
castigo nos mitos que narram a origem das sociedades humanas. E a preguiça,
como vadiagem.
No
livro “Elogio à Preguiça”, organizado por Adauto Novaes (1º lugar do Prêmio Jabuti, 2013 – categoria
Ciências Humanas) vinte e dois pensadores discutem a preguiça sob os mais variados ângulos, tentando desatar os
nós que ligam o ócio ao pecado.
A ideia geral que perpassa a maioria das
conferências é que no mundo dominado pela tecnociência, nunca se trabalhou
tanto e se pensou tão pouco não apenas sobre as condições do trabalho, mas
principalmente sobre a ausência do trabalho do espírito, entendendo por
espírito “potência de transformação da inteligência”.
Um dos programas que a TVE
apresentou no ano passado, e que compõe a série “Cafés Filosóficos” (acessível
pelo canal youtube) tratou justamente do tema “a preguiça e a melancolia”.
Nessa edição, o filósofo e professor da UNICAMP Oswaldo Giacóia Jr. discorre
sobre os significados da palavra acídia,
considerada a “mãe” da preguiça e da
melancolia. O filósofo menciona
trechos de um livro do estudioso italiano Giorgio Agamben, autor da expressão
“catástrofe antropológica” com a qual define esse pecado capital.
A palavra acídia, diz Giacóia,
é ainda muito utilizada no catecismo e é entendida como fonte geradora de uma
situação de ânimo extremamente perigosa para os homens religiosos. É uma catástrofe
antropológica “porque gera o tédio, o
desinteresse, o fastio e o asco pelo esforço em geral”. É muito mais perigosa
do que a simples desídia, a indolência ou a preguiça.
Preguiça e melancolia são dois
estados de ânimo bem distintos. Fazendo um breve resumo da apresentação do
filósofo: de um lado, temos a inércia, a vagabundagem, a improdutividade -
intoleráveis em uma sociedade mercantil como a nossa. De outro lado, temos a
aversão e a repugnância - estados afetivos extremamente negativos que se colocam
como uma espécie de fastio. Aquele que é acometido por esse tipo de sentimento tem
uma percepção do absurdo da existência, tem uma profunda insatisfação, pois percebe a
falta de sentido das ações humanas. É este estado aversivo que vai gerar algo
diferente da inação e da indolência: a necessidade de uma atividade febril, incessante,
para vencer essa repugnância diante do sentimento esmagador da miséria da vida
humana.
Para justificar a inclusão da
preguiça como um vício capital, São Tomás de Aquino, em sua “Suma Teológica” -
documento que oficializou a lista dos ditos sete pecados originais, no século
13 -, enfatizou que a tristeza é entre todas as paixões da alma, a que mais
causa dano ao corpo.
Hipócrates, no séc. V a.C,
definiu a melancolia como a bílis negra – a patologia dos humores tristes.
Não foram poucos os artistas,
escritores e filósofos que se valeram do afeto positivo (visão aristotélica da melancolia)
para criar obras geniais: Platão, Sócrates, Michelangelo, Goya, Espinosa, Manuel
Bandeira, Bukowski, Drummond, entre tantos outros.
Mário de Andrade dizia "a arte nasceu de um bocejo
sublime...", do ócio dos filósofos gregos.
E Paul Valéry, muito antes, afirmou que “é preciso ser distraído para
viver”, ou seja, é preciso afastar-se do mundo, sem se perder dele.
O escritor inglês Jerome K.
Jerome, autor dos “Pensamentos preguiçosos de um preguiçoso”, mencionado por
Novaes em um artigo publicado no Le Monde Diplomatique (2011), coloca: “o que melhor caracteriza um verdadeiro preguiçoso é
o fato de ele estar sempre intensamente ocupado. De início, é impossível apreciar
a preguiça se não há uma massa de trabalho diante de si. Não é nada
interessante nada fazer quando não se tem nada a fazer! Em revanche, perder seu
tempo é uma verdadeira ocupação, e uma das mais fatigantes. A preguiça, como um
beijo, para ser agradável deve ser roubada”.
Olhando por esse prisma, podemos dizer que perder
tempo exige pensamento e atividade. A ociosidade não se opõe necessariamente ao
trabalho, já que, assim e através dela exercitamos e incitamos a faculdade do
pensamento.
Então, por que não nos deixarmos levar
por um estado de preguiça descompromissada, meio flâneur ou gauche (para ficar na
inspiração dos afetos melancólicos)?
Por
que não mergulharmos na plenitude de uma lassidão criativa, que provoque a
reflexão, olhares ternos e ações solidárias, esmorecendo a ansiedade que precede
as tensões e resoluções individuais de final de ano?
Ah,
nessas horas, a acídia bem que nos faria transcender as diligências penosas da
vida cotidiana, do trabalho e das imposições do tempo, que voa e sempre passa!
por Lene Franck