quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Apenas um poema

Um poema para desejar a todos um 2016 repleto de sonhos!


Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
Antonio Gedeão, In Movimento Perpétuo, 1956

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

80 anos sem "Pessoas"

 

O aniversário de 80 anos da morte de Fernando Antonio Nogueira Pessoa foi celebrado no último dia 30 de novembro, com muitas homenagens no mundo inteiro.

No Brasil, houve uma mostra inédita de objetos do escritor: cartas, ensaios, poemas, anotações e desenhos, realizada no Museu do Estado de Pernambuco – MEPE, em Recife; um recital promovido pelo Consulado Geral de Portugal em São Paulo, com a participação do ator português Luis Lima Barreto; matérias especiais produzidas por canais de televisão; conferências e leituras dramáticas em várias cidades brasileiras.

Em Portugal, sempre há honras, exposições, conferências, peças de teatro, leituras dramáticas e homenagens independentemente de datas alusivas à vida do poeta, e em todos os lugares do País.

Ao lado de Luiz Vaz de Camões e de José Saramago, Fernando Pessoa é uma das maiores figuras literárias de Portugal e é considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa no mundo.

“A complexidade e flexibilidade dos trabalhos de Pessoa é tal que deixa nas mãos do leitor o compromisso de encaixar a obra em um determinado gênero, seja filosofia, poesia ou ensaio”, diz o pesquisador colombiano Jorge Uribe (Agência Efe-Portugal).

O estilo literário multifacetado de Fernando Pessoa só alcançou fama mundial, entretanto, após várias décadas de sua morte.

O poeta foi um e vários ao mesmo tempo: "Pessoas" Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares (que compartilha com Vicente Guedes, a condição de semi-heterônimo).

Através desses autores fictícios que tinham personalidade e biografia próprias, Pessoa criou uma relação singular e enigmática com o leitor, que cativa e instiga ao mesmo tempo. Os seus poetas “inventados” têm vida própria e diferentes profissões. Possuem datas de nascimento e de morte, à exceção de Ricardo Reis, que não tem a data de morte especificada, e de Bernardo Soares, que não possui uma personalidade distinta, assemelhando-se muito com a de Fernando Pessoa.

O poeta não foi devidamente reconhecido na sua época. Teve dificuldades para publicar seus versos. Mas deixou  quatro obras em vida: o livro de poesia lírica “Mensagem”, escrito em língua portuguesa, no ano de 1934 e três obras em língua inglesa.  O famoso romance “Livro do Desassossego” escrito como diário, foi descoberto anos após a sua morte, sob o heterônimo de Bernardo Soares.

Milhares de escritos encontram-se depositados em um baú, na Biblioteca Nacional de Portugal. São ensaios, notas, textos políticos, cartas, contos e poemas, que estão sendo agora estudados e divulgados por uma equipe coordenada pela professora Teresa Rita Lopes, com o apoio da Editora Assírio e Alvim.

Neste momento, estou na terra em que o escritor nasceu e viveu (dos 17 aos 47 anos), e sinto intensamente as emoções e contradições das suas múltiplas personalidades, que emergem no universo mágico e oscilante de uma existência onipresente, traduzida em versos, poemas e ensaios.

Hoje, na Livraria Bertrand, considerada a mais antiga de Portugal, tive o privilégio de folhear várias publicações de seus escritos. Autores do mundo inteiro continuam editando e homenageando o grande poeta - único e inigualável em qualquer momento e tempo.

Há por todos os recantos de Lisboa  "Pessoas"!


Por Lene Franck

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Chove. É Dia de Natal


Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 






segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Acídia ou preguiça?

Fragmento de Os Sete Pecados Capitais, representando a Preguiça – de Hieronymus Bosch


Já diz um provérbio português que “não há sábado sem sol, domingo sem missa, nem segunda sem preguiça”.

      Às vezes, esse ditado cai como uma luva. Afinal, quem nunca sentiu vontade de “pular” uma segunda-feira? Quem não se sente lento e devagar no início de semana? Ainda mais, se formos pensar que é a semana do Natal (aí, dá preguiça até de pensar).

Moleza, lentidão, desânimo, falta de energia interior, cansaço físico e intelectual. Todas essas sensações são sinônimos de preguiça. Mas a palavra traz outras correlações e significados: melancolia, inação, acídia,  falta de vontade de “se gastar” ao cumprir um dever e aversão ao trabalho.

Na visão judaico-cristã, a preguiça está relacionada ao ócio. Ao perder o Paraíso Terrestre, Adão ouve do Senhor: “Maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida (...), Com o suor de teu rosto comerás teu pão, até que retornes ao solo, pois dele foste tirado (...)”.

Ao ócio feliz do Paraíso, segue-se o sofrimento do trabalho como pena imposta pela justiça divina e por isso os filhos de Adão e Eva (isto é, a humanidade inteira) pecarão novamente se não se submeterem à obrigação de trabalhar,  sintetiza Marilena Chaui, na introdução ao texto de Paul Lafargue: “O Direito à Preguiça”.

O trabalho, dessa maneira, vai se impondo como maldição e castigo nos mitos que narram a origem das sociedades humanas. E a preguiça, como vadiagem.

No livro “Elogio à Preguiça”, organizado por Adauto Novaes (1º lugar do Prêmio Jabuti, 2013 – categoria Ciências Humanas) vinte e dois pensadores discutem a preguiça sob  os mais variados ângulos, tentando desatar os nós que ligam o ócio ao pecado.

A ideia geral que perpassa a maioria das conferências é que no mundo dominado pela tecnociência, nunca se trabalhou tanto e se pensou tão pouco não apenas sobre as condições do trabalho, mas principalmente sobre a ausência do trabalho do espírito, entendendo por espírito “potência de transformação da inteligência”.

Um dos programas que a TVE apresentou no ano passado, e que compõe a série “Cafés Filosóficos” (acessível pelo canal youtube) tratou justamente do tema “a preguiça e a melancolia”. Nessa edição, o filósofo e professor da UNICAMP Oswaldo Giacóia Jr. discorre sobre os significados da palavra acídia, considerada a “mãe” da preguiça e da melancolia. O filósofo menciona trechos de um livro do estudioso italiano Giorgio Agamben, autor da expressão “catástrofe antropológica” com a qual define esse pecado capital.

A palavra acídia, diz Giacóia, é ainda muito utilizada no catecismo e é entendida como fonte geradora de uma situação de ânimo extremamente perigosa para os homens religiosos. É uma catástrofe antropológica  “porque gera o tédio, o desinteresse, o fastio e o asco pelo esforço em geral”. É muito mais perigosa do que a simples desídia, a indolência ou a preguiça.

Preguiça e melancolia são dois estados de ânimo bem distintos. Fazendo um breve resumo da apresentação do filósofo: de um lado, temos a inércia, a vagabundagem, a improdutividade - intoleráveis em uma sociedade mercantil como a nossa. De outro lado, temos a aversão e a repugnância - estados afetivos extremamente negativos que se colocam como uma espécie de fastio. Aquele que é acometido por esse tipo de sentimento tem uma percepção do absurdo da existência,  tem uma profunda insatisfação, pois percebe a falta de sentido das ações humanas. É este estado aversivo que vai gerar algo diferente da inação e da indolência: a necessidade de uma atividade febril, incessante, para vencer essa repugnância diante do sentimento esmagador da miséria da vida humana.

Para justificar a inclusão da preguiça como um vício capital, São Tomás de Aquino, em sua “Suma Teológica” - documento que oficializou a lista dos ditos sete pecados originais, no século 13 -, enfatizou que a tristeza é entre todas as paixões da alma, a que mais causa dano ao corpo. 

Hipócrates, no séc. V a.C, definiu a melancolia como a bílis negra – a patologia dos humores tristes.

Não foram poucos os artistas, escritores e filósofos que se valeram do afeto positivo (visão aristotélica da melancolia) para criar obras geniais: Platão, Sócrates, Michelangelo, Goya, Espinosa, Manuel Bandeira, Bukowski, Drummond, entre tantos outros.

Mário de Andrade dizia "a arte nasceu de um bocejo sublime...", do ócio dos filósofos gregos.

E Paul Valéry, muito antes, afirmou que “é preciso ser distraído para viver”, ou seja, é preciso afastar-se do mundo, sem se perder dele.

O escritor inglês Jerome K. Jerome, autor dos “Pensamentos preguiçosos de um preguiçoso”, mencionado por Novaes em um artigo publicado no Le Monde Diplomatique (2011), coloca: “o que melhor caracteriza um verdadeiro preguiçoso é o fato de ele estar sempre intensamente ocupado. De início, é impossível apreciar a preguiça se não há uma massa de trabalho diante de si. Não é nada interessante nada fazer quando não se tem nada a fazer! Em revanche, perder seu tempo é uma verdadeira ocupação, e uma das mais fatigantes. A preguiça, como um beijo, para ser agradável deve ser roubada”.

Olhando por esse prisma, podemos dizer que perder tempo exige pensamento e atividade. A ociosidade não se opõe necessariamente ao trabalho, já que, assim e através dela exercitamos e incitamos a faculdade do pensamento.

Então, por que não nos deixarmos levar por um estado de preguiça descompromissada, meio flâneur ou gauche (para ficar na inspiração dos afetos melancólicos)?

Por que não mergulharmos na plenitude de uma lassidão criativa, que provoque a reflexão, olhares ternos e ações solidárias, esmorecendo a ansiedade que precede as tensões e resoluções individuais de final de ano?

Ah, nessas horas, a acídia bem que nos faria transcender as diligências penosas da vida cotidiana, do trabalho e das imposições do tempo, que voa e sempre passa!

por Lene Franck

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Ainda existe gente assim, quem diria? (por Antonio Hohlfeldt)




Quero compartilhar a crítica publicada no Jornal do Comércio (edição de 04, 05 e 06 de dezembro), Caderno Viver (pág. 2) sobre a obra Antologia da Literatura Dramática do Rio Grande do Sul, de Antenor Fischer (foto).

Nesse sentido, tomo a liberdade de reproduzi-la.

Há umas (poucas) pessoas que possuem a vocação da pesquisa. Outras, ainda, possuem a inspiração da dedicação à comunidade: não se preocupam com lucros monetários advindos de seu trabalho. Contentam-se com o fato de poderem realizar um trabalho de pesquisa e contribuírem, assim, com o conhecimento humano, em especial, de sua e para a sua comunidade. 

Assim é Antenor Fischer. Conheci-o há alguns anos, quando ele estava escrevendo os verbetes do Dicionário de autores da literatura dramática do Rio Grande do Sul. O que foi uma façanha. Com paciência de Jó, ele vasculhou arquivos, coleções, livros, jornais ao longo de anos. Na verdade, o dicionário, de certo modo, anunciava os demais produtos de seus esforços. Um volume denominado A literatura dramática do Rio Grande do Sul, do século XIX - Subsídios para uma história, que constituiu sua dissertação de mestrado. Depois, foi a vez de A literatura dramática do Rio Grande do Sul – De 1900 a 1950, que constituiu sua tese de doutorado. Estes dois trabalhos foram realizados sob a supervisão do Irmão Elvo Clemente (já falecido), no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pucrs. No mesmo programa, mas sob a orientação de Maria Eunice Moreira, Antenor Fischer produziu uma Antologia da literatura dramática do Rio Grande do Sul – Século XIX, num primeiro projeto de pós-doutorado. Por fim, o dicionário, sob a orientação de Luís Augusto Fischer (parente, mas sem nepotismo...), foi o resultado de outro estágio pós-doutoral, desta vez, na Ufrgs. Ou seja, de 2003 a 2015, Antenor Fischer debruçou-se decidida e pioneiramente na organização de dados dispersos a respeito da dramaturgia sul-rio-grandense.

O primeiro produto concreto resultou no dicionário. Mas ninguém queria publicá-lo!!!! Então, Fischer criou uma editora própria, a Fischer Press, e imprimiu o volume, com 350 páginas. Não satisfeito, resolveu publicar a antologia e, mais uma vez, sem apoio, imprimiu nove volumes, muito bonitos, absolutamente pioneiros, para divulgar este material praticamente inédito, ao menos, nesta organização que ele lhe deu. São oito volumes temáticos: Autores primordiais e textos fundadores; A desonra como machina fatalis; O jesuitismo na alça de mira; O divórcio em cena; O drama abolicionista; O ideal republicano; a mulher como autora (só este volume valeria toda uma tese...); e A comédia. Um nono volume, com capa diferenciada (ao invés do preto dos demais, um amarelo bem alegre e leve, literalmente primaveril) reúne os estudos temáticos que se encontram distribuídos nos demais volumes. Ou seja, quem quiser ter apenas um dos volumes, com a parte teórica, pode ficar apenas com este volume especial.

Como toda esta iniciativa é extremamente dispendiosa (digitação, diagramação, edição, impressão etc.), Antenor Fischer fez cerca de 20 coleções apenas, para distribuir a bibliotecas e alguns pesquisadores. Mas colocou todo o seu trabalho à disposição dos interessados, através da internet. Ou seja, qualquer curioso, interessado ou pesquisador passa a ter acesso a este acervo extraordinário, reunido ao longo de anos, numa só obra, introduzida, grupalmente, por estes estudos que, por si só, já mereceriam o entusiasmo de quem estuda o tema.

Neste meio tempo, ainda encontrou disposição para escrever e publicar (também por conta própria) Em busca do sentido perdido – O Caminho de Santiago, projeto que talvez explique sua força e sua perseverança para os demais projetos.

Agora, estão faltando os estudos sobre a literatura dramática sul-rio-grandense do século XIX e do século XX, em sua primeira metade. Se o Brasil fosse um País sério e o Rio Grande do Sul valorizasse sua cultura, a gente levantaria um monumento a Antenor Fischer para tentar aproximar-se do monumento que ele nos lega. Talvez ele não queira. Mas talvez ele se alegrasse se o IEL ou a Secretaria Municipal de Cultura ajudassem a financiar esses dois volumes restantes. Com a palavra, Roque Jacoby e Victor Hugo.


sábado, 12 de dezembro de 2015

Crítica da crítica de arte

Até que ponto o jornalismo influencia ou valida os significados de uma exposição artística?

No último dia 08 de  dezembro, o jornalista Tulio Milman escreveu na sua coluna diária de Zero Hora o texto intitulado “Textos que explicam mostras da Bienal são herméticos demais”.

Disse ele:

“Esse fenômeno de falsa erudição, que não nasceu na Bienal e nem é só dela, afasta o público. A Bienal do Mercosul terminou. Pelo esforço de todos em tempos de crise, parabéns. Esperei até o fim do evento para comentar um aspecto incompreensível nesse mundo das artes: os textos que tentam explicar as mostras e as obras são tão herméticos, mas tão herméticos, que só quem os escreveu talvez os entenda. Esse fenômeno de falsa erudição, que não nasceu na Bienal e nem é só dela, afasta o público. Menos arrogância intelectual e mais clareza, é o que diz o bom senso.Abaixo, o trecho de um texto explicativo grafado em uma parede da nossa Bienal.

"(...) emerge a ideia de que a produção artística suscita uma experiência de alteridade na qual as obras não são tratadas apenas como meros objetos, mas como operações conceituais que instigam relações entre um todo e as partes, entre a visibilidade e a potência de significação; bem como com as sensibilidades afetivas que elas podem engendrar entre o espaço da criação das obras e o horizonte de expectativa criado pela sua visibilidade".

Pelo amor de Deus.”

Gaudêncio Fidelis, curador-chefe da Bienal do Mercosul, rebateu o texto no dia seguinte.

"Fiquei chocado com a virulência de sua nota na ZH!

Em primeiro lugar, porque você se acha no direito de chamar a nós, historiadores e curadores, de ignorantes, diletantes ou seja lá o que for, na medida em que escrevemos textos que ninguém entende? E ainda por cima subestima a inteligência do público. Você acha que as pessoas não entendem de arte nem o que está escrito em um texto. Sua fúria e o ódio pela arte ficam claros em sua nota. Você não é historiador de arte, não estudou arte, e não gosta de arte evidentemente. Talvez você esteja movido pelo ódio de algumas pessoas das redes sociais. Não sei, mas me pareceu por hora um Monteiro Lobato do século 21, só que sem a inteligência literária do mesmo.

O ataque à arte tem sido um fenômeno histórico, portanto nada de novo em sua nota, mas esperávamos mais de um jornalista que passou por uma universidade e que deveria ter responsabilidade com um veículo de utilidade pública como o jornal. Sua nota chama todas as mais de 400 mil pessoas que visitaram esta bienal de ignorantes porque elas foram lá, leram os textos e você pressupõe que não os entenderam, já que você, como jornalista, supostamente é mais preparado que todos eles e não os entendeu. Por fim, tem tom de censura porque, pelo xingamento, está dizendo que devemos escrever textos como você, não como expressão didática das exposições".

O que você acha desse tipo de jornalismo que (pelo menos, me dá a entender) tenta nivelar por baixo o entendimento das pessoas acerca da arte ou de quaisquer outras expressões de vida? Concorda ou não?

Eu é que diria: pelo amor de Deus, Tulio!


Por Lene Franck

 



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Manifesto em defesa das instituições democráticas


Intelectuais lançaram nesta semana manifesto público em defesa das instituições democráticas. O documento foi assinado por nomes como Chico Buarque, Emir Sader, Frei Betto, Paulo Betti, Fernando Morais, Chico César e Jorge Mattoso.

Segue a íntegra do documento:


Manifesto em defesa das instituições democráticas

O Brasil vive um momento histórico em que a legalidade e as instituições democráticas são testadas, o que exige opinião e atitude firme de todos e todas que têm compromisso com a democracia.
Desde as eleições de 2014, vivemos um grande acirramento político que permeia as mais diversas relações humanas e sociais. Essa situação ganhou novos ingredientes a partir da eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados e, de forma especial, após este ser denunciado pelo Ministério Público Federal por seu envolvimento em atos de corrupção, possuindo contas bancárias no exterior e ocultando patrimônio pessoal.
Absolutamente acuado pelas denúncias, pelas fartas provas do seu envolvimento em atos ilícitos e enfrentando manifestações em todo Brasil contra a agenda conservadora e retrógrada do ponto de vista de direitos que lidera, Cunha, que já não tem mais nenhuma legitimidade para presidir a Câmara, decidiu enfrentar o Estado Democrático de Direito. A aceitação de um pedido de impedimento da Presidenta da República no momento em que avança o processo de cassação do deputado é uma atitude revanchista que atenta contra a legalidade e desvia o foco das atenções e das investigações.
Neste sentido, viemos a público repudiar a tentativa de golpe imposta por Eduardo Cunha, por não haver elementos que fundamentem esta atitude, a não ser pelo desespero de quem não consegue explicar o seu comprovado envolvimento com esquemas espúrios de corrupção. Não se trata neste momento de aprovar ou reprovar a administração nem a forma como a Presidenta da República governa, mas defender a legalidade e a legitimidade das instituições do nosso país.
Por outro lado, defendemos o cumprimento do Regimento da Câmara dos Deputados e da Constituição Federal, ambos instrumentos com fartos elementos que justificam a cassação do mandato de Eduardo Cunha. Caso contrário, toda a classe política e as instituições brasileiras estarão desmoralizadas, por manter no exercício do poder um tirano que utiliza seu cargo de forma irresponsável para manutenção dos seus interesses pessoais. Apelamos às e aos parlamentares, ao Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal, autoridades cuidadoras da sanidade da política e da salvaguarda da ordem democrática num Estado de Direito, sem a qual mergulharíamos num caos com consequências políticas imprevisíveis. O Brasil clama pela atuação corajosa e decidida de Vossas Excelências.
Não aceitamos rompimento democrático! Não aceitamos o golpe! Não aceitamos Cunha na presidência da Câmara dos Deputados!



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Pequenas e grandes omissões



Ninguém desconhece que a corrupção no Brasil é tão antiga quanto a própria história do País. Desde que aqui chegaram os primeiros colonizadores, com a ideia de saquear para lucrar, essa prática tem moldado a nossa cultura.
Vivemos, de forma sistemática, uma cultura extrativista, que mais retira do que produz. Aliado a isso, vem predominando na sociedade brasileira um sentimento de perda e de impotência diante do descaso com que as questões mais emergentes e prioritárias da população têm sido tratadas nas instâncias de poder, o que reforça a ideia que o mais interessante, para determinados grupos políticos (com evidentes propósitos econômicos) é manter sob  controle uma prática cultural predatória no país. A política, dessa maneira, vem assumindo historicamente e de forma gradativa, um sentido pífio e instrumentalizado, pela imposição de alianças que se impõem (por um lado, e se opõem, por outro)  à governabilidade, e pela ascensão de uma outra classe que se materializa e se fortalece através de práticas de corrupção.
Os primeiros registros de falcatruas no período colonial aconteceram quando propinas foram aceitas para afrouxar o controle sobre o contrabando de mercadorias. Funcionários públicos, mais tarde, passaram a favorecer e lucrar com o tráfico ilegal de escravos. Na República, todo o tipo de corrupção foi praticado: da compra de votos à subversão de contratos de obras públicas.
Isso para não falarmos dos casos de corrupção registrados no período militar. Quem viveu naquela época deve lembrar as denúncias contra o delegado Fleury, envolvido com o tráfico de drogas e extermínios; deve lembrar também das manobras políticas de Maluf para obter empréstimos junto ao BNDE, para salvar a empresa da família. Havia o cartel do jogo do bicho bancado por militares da Polícia do Exército, que intermediava o contrabando ilegal de produtos de todo o tipo. O que dizer do SNI, que nomeava  governadores de estado, entre outros mandatários, na época do governo Médici. Muitas extorsões e subornos foram praticados para garantir a obtenção de contratos milionários junto a empresas multinacionais que entraram no país de forma totalmente irregular.
E os casos de corrupção abafados pelo governo FHC: compra de votos de deputados para votarem a favor da emenda que permitiu a reeleição, desvios de dinheiro na SUDENE, compra de lugar na fila para pagamento de precatórios do DNER, extinção da Comissão Especial de Investigação (órgão que apurava as denúncias de corrupção no governo), o pagamento de propinas para privatização do sistema Telebrás e da Vale do Rio Doce?
Não se pode deixar de falar sobre esse assunto sem voltar ao passado. Há que se mencionar o impeachment do Collor por conta da roubalheira e os anões do orçamento. Também não se pode negligenciar o episódio conhecido como “mensalão”, que trouxe à tona os intrincados acordos  feitos com dinheiro público em troca de apoio político.  E, mais recentemente, os  casos envolvendo propinas, subornos e adulterações de contratos da Petrobrás com empreiteiras, que estão escancarados em todas as mídias do país e do exterior.  
A corrupção, hoje, e não era para menos, aparece como preocupação maior dos brasileiros. É o que aponta a última pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha e divulgada no último domingo (29).
Pela primeira vez, os brasileiros entrevistados dizem que esse problema está superando os demais problemas existentes no país, tais como saúde, desemprego, educação, segurança e economia.
O sistema de saúde, por exemplo, assim como a segurança, é ineficiente e ineficaz. A burocracia, apesar de alguns avanços, ainda dificulta a vida dos brasileiros. As políticas públicas na área da educação não atingiram o grau de maturidade que desejamos para minimamente respeitar princípios éticos, tão fundamentais para a construção de uma sociedade civilizada. É desnecessário enumerar os demais problemas que atingem a população brasileira. São claros e notórios.
O fato de evidenciarmos a pouca solidez institucional, alicerçada por práticas de acomodação de interesses políticos diversos e muitas vezes conflitantes dentro das administrações públicas, fortalece a percepção da corrupção de modo generalizado. Se as instituições são deficientes e não funcionam do jeito que deveriam, criam-se mecanismos para o improviso, para a “armação” e o conluio. Criam-se brechas para o famoso “jeitinho brasileiro”. E é grande a probabilidade de o cidadão comum ter que recorrer a meios não muito lícitos para obter, por exemplo, um atendimento prioritário no serviço público. Bastam ver os inúmeros casos de pessoas que pagam para não entrar em filas de cirurgias no Sistema Único de Saúde.
Temos a propensão a achar que aqui nada funciona e que lá fora tudo é melhor. Ao mesmo tempo, toleramos as pequenas contravenções cotidianas e os entraves ao cumprimento dos direitos e deveres constitucionalmente previstos.
É preciso, sem dúvida, abandonar o sentimento de inferioridade e perguntar: será que o povo brasileiro tem consciência de que as instituições devem ser produtos de interesses socialmente construídos e reconhecidos? Nós valorizamos as instituições? Nós exigimos e nos submetemos às normas de convívio social? Nós exigimos o cumprimento das leis? Cobramos as promessas de campanha dos legisladores?
Quando, por exemplo, flagramos alguém jogando lixo na calçada, somos capazes de interpelar? Ao saber que o colega não cumpre o horário de trabalho de forma integral, denunciamos? Ao constatar que um servidor da administração pública em regime de dedicação exclusiva acumula dois empregos (excetuando os permitidos em lei), fazemos a denúncia? Ao não exigirmos a nota fiscal, estamos agindo corretamente?
Os dispositivos colocados a serviço do cidadão pelo Estado  atuam como instrumentos de promoção da vida e da dignidade humanas? Ou nós não contribuímos para a afirmação do Estado?

Por Lene Franck





segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A Lei

 (música de Nei Lisboa)

Vagando em trapos da verdade
Pelas sombras do poder
Rondando guetos da cidade
Pra servir e proteger
Alguma cara liberdade
Que ninguém sabe dizer
Onde é que está?
Onde é que foi parar?

Louvando cores da bandeira
O quanto queira se render
A lei aponta para a ordem
Pronta a desobedecer
Atrás das grades de onde mora
Dentro ou fora, hey, a lei
Onde é que está?
Onde é que foi parar?
A lei é cega
Cega que tão bem
Enxerga quando lhe convém
A lei não quer ver
Serve a quem melhor lhe paga
Para o mal e o bem
E sobe a seu altar                                 
Para ser só
Letra morta que se apaga
Com um tiro a queima-roupa
A lei é clara pra quem
Não professe a sua religião
E a lei declara a quem se esquece
Curra ou lincha sem perdão
É a lei da selva para as bichas
E o fim da escravidão
Onde é que está?
Onde é que foi parar?

Quer escutar a música? Acesse a página Vídeos e Imagens  

sábado, 28 de novembro de 2015

Uber versus táxis (por dentro do conflito)

por Fernanda Franck, Porto Alegre

Vamos esclarecer os fatos, diante de tantos comentários estúpidos que tenho visto nas redes sociais.

Para que serve o Uber? O Uber é um aplicativo que permite ao cidadão chamar um motorista que forneça um serviço semelhante ao serviço de Táxi. Correto? Uma espécie de "carona coletiva privada", eu diria.

No meu ponto de vista, não acho nem um pouco seguro tu entrares num carro com pessoas desconhecidas, para pagar menos. Mas, cada um arrisca o seu pescoço como bem entender. Em segundo lugar, não é um serviço legalizado.

     No entanto, NÃO CONCORDO, em hipótese alguma, com o que ocorreu com o motorista no estacionamento do Carrefour, aqui em Porto Alegre, na última quinta-feira.

A VIOLÊNCIA NUNCA IRÁ LEVAR À NADA, a não ser à degradação do ser humano.

O que ocorre (e na maioria das vezes, inclusive, onde o assunto é “taxista”) é que levam junto e para o lado negativo uma categoria de pessoas que trabalha HONESTAMENTE, TODOS os dias, arriscando suas vidas, porque não se tem segurança alguma para trabalhar! Sim, porque os assaltos aos taxistas estão cada vez mais cruéis. E, aqui em Porto Alegre, não se têm cabines fechadas nos carros de táxi e à prova de tiros, como em outras cidades!

Segurança - eis aí uma questão que não somente afeta os taxistas, mas todas as categorias de trabalho: nas ruas, em tudo que é lugar. Não se tem segurança! A violência cresce cada vez mais - até quando se está numa parada de ônibus escura, tarde da noite. Quando chega teu ônibus, tu pensas: "ufa, agora estou seguro". Dentro dos ônibus, no entanto, não se está seguro! Estão matando a esmo em qualquer lugar!

Meu pai é taxista, já trabalha na área há alguns anos. Tem motoristas que trabalham pra ele, com clientes fidelíssimos. Eles e meu pai trabalham de maneira HONESTA e sempre muito atenciosos com o pessoal que eles atendem. Nunca houve problemas com nenhum passageiro. Não só meu pai. Tenho amigos taxistas, que trabalham com isso porque gostam, o fazem com prazer.

Então, ficar dizendo por aí, a torto e a direito, que taxista “é tudo ladrão”: cuidado com o que vocês dizem, porque não são todos! Há uma minoria que leva pra lama vários trabalhadores que suam a camisa para trazerem o pão de cada dia para dentro de suas casas!


Taxista é sim uma profissão digna de respeito! No mínimo, RESPEITE!