quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Humanismo e felicidade


por Francisco Marshall, historiador, arqueólogo e professor da UFRGS
Ao filho Nicômaco, ao pupilo Eutidemo e a todos nós, Aristóteles ensinou que a finalidade do conhecimento é produzir a felicidade (eudaimonia), resultado de escolhas corretas, que permitam o triunfo da ética sobre o erro. Para isso, o filósofo analisou todos os fenômenos que alcançou, inclusive as constituições de cidades; leu 158 destas, para escrever a Política. Aristóteles estava escaldado pelos erros de seu antecessor, e mestre contestado, Platão, que diante da crise da pólis (Atenas) propôs como remédio um regime autocrático, comandado por rei-filósofo. Embora o estagirita (i.e., nativo de Estágira) não tenha abandonado a esfera pública, deu início a um novo ciclo da filosofia grega, que teve seu apogeu com os filósofos éticos: Epicuro e a busca do prazer pelo convívio amistoso (philía), Zenão e a ética estoica (que formou a parte virtuosa do cristianismo), Diógenes e o caminho cínico (viver como um cão, kinos, à margem do Estado). Desde então, o humanismo não cessa de se perguntar sobre os caminhos para a felicidade, em seus dois cenários: individual e coletivo.
Em era de angústias, cresce a tentação pela busca da felicidade individual, inspirada pela última frase do Cândido (1759), de Voltaire, emitida depois de o protagonista viver mil agruras: “Tudo isto está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim”. Os contemporâneos de Voltaire preferiram outra via, e foram cuidar de um parque público então utilizado como patrimônio privado, o Estado; para a dinastia que dizia que L’état c’est moi e para a humanidade, declararam que o Estado é de todos, e logo ornamentaram didaticamente as ruas de Paris com os cadáveres (alô, Brasília) dos defensores da velha ordem. A Revolução Francesa deu fôlego ao encontro entre utopia humanista e história, perseguido desde o século XIX. Eis a questão: é possível que o Estado ofereça solução para a felicidade coletiva?
Os libertarianos (ou isentários), mutantes atuais, herdeiros (indignos) do liberalismo clássico, creem que não é viável felicidade coletiva, e demonizam esta palavra, tomada como sinônimo de comunismo, Stalin, infantofagia e outros fetiches reacionários. Essa ideologia oportunista finge não saber que é incontornável a dimensão coletiva da existência humana, desde o paleolítico e, nos últimos 5 mil anos, no âmbito do Estado.
Esses pseudo-ingênuos dizem crer em força sobrenatural (mão invisível ou livre mercado) capaz de assegurar o bem, mas sabem que isto é um mito oportuno, que esconde a verdadeira face de uma mobilização egoísta, predatória e de interesse corporativo. Eis porque esta ideologia covarde tantos males produz: não considera o desafio de se superar o que impede a felicidade do maior número de cidadãos, de se combater a iniquidade, de se equalizar as relações sociais visando-se bem maior, a harmonia, capaz de satisfazer a todos: aos carentes, com qualidade de vida, aos abastados, com segurança, e a toda a sociedade, com o florescimento das melhores possibilidades humanas. Cuidemos do jardim e dos parques públicos.
por Francisco Marshall, historiador, arqueólogo e professor da UFRGS
publicado no jornal Zero Hora, edição de 19 e 20/08/2017


domingo, 17 de setembro de 2017

Arte e zumbis




De arte e zumbis

Por: Francisco Marshall


E afinal os mortos-vivos atravessaram o muro, mas isso não é Game of Thrones, é Porto Alegre, Brasil, 2017. Invadiram o Museu e mutilaram o espaço em que a inteligência, o engenho e a serenidade podem assegurar a civilização. É incalculável o preço desse ataque de zumbis e dessa rendição ignominiosa, sintomas dos tempos duríssimos que estamos vivendo, em que crescem mobilizações maníacas nutridas por ignorância, em cruzada moralista antipolítica. O nome deste tipo de barbárie é fascismo, e começa com um megafone agredindo oponentes para culminar com brucutus intimidando visitantes do Museu, com robôs semeando discórdia nas redes, e com destruição objetiva da Arte; emergem das sarjetas odiadores sentenciosos, autoimaginados como limpinhos no mesmo ato em que se constituem como grau máximo da imundície – a burrice cultural e a intolerância agressiva.

A Arte contemporânea não preconiza. Ela representa, reflete e problematiza, toma os signos do mundo e os investe de algo mais; cria, manipula e dramatiza símbolos, provoca deslocamentos que são revelações clamando por expressão sensível. Esta arte corajosa rompe os padrões que por séculos sujeitaram artistas aos caprichos do Estado, das religiões e de magnatas, para nos oferecer imagens do que somos e dos mundos que criamos. Estes artistas não querem nos enrolar com historinhas parnasianas, mas examinar conosco graus relevantes do universo humano, nossa psique complexa, os símbolos e linguagens, as dimensões de poder e de violência das relações sociais, incluindo-se a denúncia das violações que suprimem a realização plena da vida, em sua diversidade, felicidade, liberdade e beleza (ideais liberais). Estes artistas não vêm com discurso fácil, mas te convidam a pensar, e isto nem sempre é automático ou simples. É desta forma que a arte enfrenta horrores e coopera no resgate e purificação do mundo da vida. Nesta missão, é natural que se enfrentem adversidades, a começar pelo idioma, longe da retórica clássica, e logo a resistência de quem não aceita que sejam revelados os graus de insensatez da cultura.

Vejamos o caso atual, a alegação de apologia da pedofilia assacada contra a exposição Queermuseu, curadoria de Gaudêncio Fidelis, censurada por fascistas e gestores imprudentes, que clamam que não se pode expor crianças a esta Arte. Ora, quem são as vítimas da pedofilia? Espera-se que religiosos (que ora atacam) e outros abusadores eduquem as crianças para perceberem e reagirem diante desta agressão hedionda e tristemente recorrente? A exposição resgata(va!) visões de vítimas de abusos, artistas com memórias e imagens, para documentar e problematizar este mal. Nada de glamourização didática, nenhuma justificativa para este horror. Eis, então, que zumbis analfabetos, incapazes de compreender a Arte, destroem um cenário educativo destinado a combater um mal. Quem atacou esta exposição por julgá-la pedofílica e imprópria para crianças alinhou-se ao que há de pior – o ocultamento do mal e a defesa dos criminosos que o praticam. 

Agradeçamos aos artistas, curadores, educadores e museus (memoriais e galerias) de verdade, que não recuam em sua missão de defender a civilização pela Arte.
Artigo publicado na edição de 16, 17/09/2017 – Jornal ZH

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Tolerância zero




Sempre que alguém expõe uma ideia ou ponto de vista sobre algum assunto polêmico nas redes sociais, tende a provocar argumentos contrários, por mais consistentes e razoáveis que sejam. Na maioria das vezes, o indivíduo é insultado e desqualificado publicamente por tentar expor seu modo de pensar e de se posicionar no mundo. É compreensível.

Ideias podem ser vazias, superficiais ou rasas, úteis ou inúteis, capciosas, corretas, bem intencionadas ou desprovidas de lógica e de sentido, consistentes ou simples retóricas. No entanto, sempre refletirão alteridades e uma subjetividade inegável e por isso mesmo, devem ser legitimadas e não categorizadas como menores ou insignificantes, como pretendem alguns.

Nesse sentido, penso que podemos ser intolerantes às tentativas de homogeneização dos discursos e considerar legítimas as múltiplas visões de mundo.

Sobre as políticas e poéticas da diferença, Jorge Larrosa e Carlos Skliar discorrem em ensaios preciosos que nos fazem refletir sobre a conveniência da intolerância nesses tempos em que tudo nos estarrece e nos subestima.

Os autores de “Habitantes de Babel” sustentam que é preciso ser intolerante para reafirmar a necessidade do vínculo social conflitivo, pois os sujeitos devem assumir a responsabilidade ética frente ao social e explicitar o mal estar diante da não realização dos direitos sociais e das políticas públicas fundamentais. Em outras palavras, devemos ser intolerantes a uma cultura de desigualdades materiais que impedem o acesso a oportunidades de vida e ao direito de pensar, falar e sentir como seres distintos.

Refletindo sobre isso, questiono: como ser tolerante com as tentativas de reafirmação da exclusão?

Como posicionar-se em um meio muitas vezes hostil e nem sempre receptivo às ideias dos que se opõem, não importa a que linha de pensamento - se de direita ou de esquerda?

Algumas pessoas, nas redes, preferem não opinar e invalidam o pensamento dos que se posicionam, acusando-os de prepotentes ou reacionários. Há as que domesticam o olhar e se acostumam a pensar e agir conforme os ditames dos discursos oficiais. Há as que dizem que não se deve debater política, religião, sexo ou futebol. Há simplesmente os indiferentes que a tudo aceitam. E há aqueles que não fazem questão de participar, nem de assumir uma postura crítica diante dos problemas do mundo - tipo "deixa a vida me levar, vida leva eu..."

Por outro lado, há pessoas que não temem e percebem a existência de diferenças e de alteridades.

Acredito que o risco de se expor publicamente nas redes sociais ao ponto de suscitar a ira, ressentimentos, insultos e até rompimentos de amizades é o risco necessário, quando se pretende avançar na discussão de assuntos fundamentais que afetam a vida de todos.

É, no entanto, um salto no escuro a provocação vazia, sem as mínimas noções de humanidade, justiça e entendimento sobre as questões que dizem respeito à vida e aos direitos sociais. Aquele que provoca o debate a partir de uma base cognitiva e argumentativa consistente - contextualizada e inteligente, lança inquietações e novos olhares sobre a realidade. O risco é convidar os atores, que não querem participar da cena, a atuarem e assumirem os seus papéis como sujeitos que têm voz, vez e lugar nesse cenário de contestação e de confronto. Atitudes de rebeldia e provocação podem ser interpretadas como atos de arrogância e superioridade?

Penso que não. Os corajosos, os que se atrevem a dizer abertamente o que pensam, são, no meu entender,  pessoas que acreditam na força das ideias e do pensamento autônomo, ou seja, na importância do pensamento desvinculado das coerções sociais institucionalizadas. Esse tipo de atuação independente não se nutre de crenças, nem de promessas vazias. Tem como parâmetro o protagonismo na cena, hoje dominada pela dissimulação e pela manipulação dos fatos.

Temos que reconhecer, também, que, pela omissão, instituímos a autocensura. Passamos a negar a nossa inserção no campo das ideias e do discurso. Através da não participação, reproduzimos os estereótipos do que é certo e do que é errado, do que pode e do que não pode ser dito. Estabelecemos uma não resistência e validamos a tolerância defensiva como norma, que a tudo aceita sem questionamentos.  É cômodo e agradável, Mas é um equívoco.

Na contramão dos tolerantes, acredito que não há imposição de valores, crenças ou ideologias coercitivas suficientes que possam desqualificar o ato do livre pensar. Só quem não subestima a sua capacidade de arguição, discernimento e compreensão dos problemas da realidade pode efetivamente potencializar a mudança.

Por que isso não acontece? Os instrumentos, as oportunidades e os veículos a que temos acesso não  nos foram tirados (ainda) e podem ser utilizados como espaços de inserção e de busca de democratização da voz. 

Nada impede a veiculação do livre pensar, como dizia Millôr. Infelizmente, poucos ousam “dar a cara a tapa” e os que criticam não conseguem compreender que o vazio não preenchido pela voz dos excluídos (de forma deliberada ou não) é preenchido pelas vozes dos postulantes à verdade. Todos sabemos de onde vem. E, com certeza, não representam as múltiplas “relatividades” que emanam dos que não se fazem presentes.

Há preconceito e arrogância, sem dúvida, na postura de certos intelectuais que condenam o uso das redes sociais para a exposição de opiniões dissonantes. Dizem que todos se postulam intelectuais. Presunção elitista, não? Será que somente a academia, a imprensa comercial, os descomprometidos politicamente, podem se arguir ao direito de pensar a realidade e a interpretá-la como melhor lhe provêm $?

Para finalizar, acredito que o amadurecimento e a tomada de consciência em relação aos problemas do mundo vêm do debate provocado pelas diferentes maneiras de pensar, viver e se inserir nas relações e nos meios de discussão sociais. A linguagem e os recursos discursivos são poderosos instrumentos de mudança. Argumentos refletem as condições de vida das pessoas, a maneira como aceitamos ou não as imposições econômicas que nos rotulam e nos excluem da estrutura de poder.

O pensamento livre de imposições, mesmo que confrontado com as mais reacionárias visões de mundo e desqualificado pela linguagem oficial que ainda domina os dispositivos não dialógicos de comunicação é um poderoso instrumento de elaboração do olhar crítico. Só quem não teme o eco da voz é capaz de ser intolerante.


por Lene Franck



domingo, 4 de junho de 2017

Quem seremos nós

Quem seremos nós depois do neoliberalismo é a pergunta que pode nos ajudar nesse momento  


Por Márcia Tiburi

Precisamos falar sobre neoliberalismo





Neoliberalismo é um termo antipático mais pronunciado por quem o critica enquanto economia política, do que por quem possa, conscientemente ou não, concordar com sua ideologia. Não falamos sobre neoliberalismo por se tratar de um assunto difícil do ponto de vista teórico, mas porque muitos preferem mesmo repetir a opinião que não compromete.
Sabemos no entanto que, se uma palavra nos perturba, é nela que temos que investir os esforços da nossa inteligência. Nesse sentido, é preciso enfrentar um problema semiológico-político: vivemos atualmente sob o signo impronunciado do neoliberalismo. De fato, um silêncio paira sobre nós para nos livrar da coisa à qual ela se refere.
E do que estamos falando? De uma experiência vivida pessoal e coletivamente que implica o nosso futuro como sociedade. Quem seremos nós depois do neoliberalismo é a pergunta que pode nos ajudar nesse momento.
Se o neoliberalismo é a luta de classes dos ricos contra os pobres, podemos ter certeza de que, com o advento do neoliberalismo, seremos mais pobres. O neoliberalismo precisa acabar com a luta pela igualdade social e de classes, já que não se beneficia com ela em sentido algum.
Pensando no que seremos no futuro, se hoje vivemos sem direitos fundamentais assegurados, saúde e moradia, educação e trabalho, a tendência projetada pelo neoliberalismo é que as hordas de alienados, que hoje aplaudem aquilo mesmo que os destrói, estarão de tal como infelizes que aprofundaremos a barbárie entre nós em todos os níveis. Em uma sociedade para poucos, com o acirramento da desigualdade, a violência se intensificará até a barbárie. Como o neoliberalismo é a vida reduzida ao mercado, ele mesmo providenciará as armas e lucrará com isso.
O neoliberalismo é a economia política que faz retornar a luta de todos contra todos em nome do capital. Projeta-se uma sociedade de muitos perdedores sociais e econômicos e alguns poucos vencedores articulados com primores de ideologia disfarçadas de mérito e competência, promessa dos mais eminentes de seus teóricos.
Privatizar e desregulamentar economias para entregá-las ao setor privado, é parte do programa acionado pelo dispositivo ideológico que usa cada corporação, que usa cada indivíduo como parte do seu plano. Minimizar o Estado para a maioria da população e reservá-lo às elites econômicas, é a parte nuclear do seu método.
O próprio neoliberalismo inventou que falar dele soa antipático. Na varredura que o capital faz pelo mundo afora, até mesmo o Rio Grande do Sul, que parecia um lugar tão distante e protegido por seus aguerridos cidadãos cuja fama é de coragem política e senso de cidadania, está sendo levado pelo vento. Precisamos falar sobre neoliberalismo para soprar essa desgraça para longe de nós. 

* Professora da Unirio e autora de “Como conversar com um fascista” e “Ridículo Político”
artigo publicado em ZH, edição de 3 e 4 de junho de 2017




domingo, 9 de abril de 2017

A nova cara da direita bem nascida

po Moisés Mendes



Duas faces da direita que vem aí, com projetos para 2018 e para mais adiante: a direita desbocada e fascista de Bolsonaro e a cheirosa, dissimulada, do bom mocismo de Luciano Huck. Que direita deve ser mais temida?
Bolsonaro pode ser jogado para fora da estrada com um empurrão. É um fanfarrão que a direita atiça para que faça o serviço sujo de bater nas esquerdas, nos negros, gays e índios.
Huck é o sujeito que o Ministério Público Federal (aquele que não caça apenas petistas) tenta enquadrar como destruidor da natureza, por ter se apropriado de uma ilha do Rio e degradado sua paisagem.
Já foi condenado e recorreu ao Superior Tribunal de Justiça. É provável que escape, como escapam quase sempre todos os que (desde que não sejam sem-terra) se adonam de espaços públicos e destroem praias e rios.
E Huck tem fama. Anda pelo mundo a apresentar-se como bom moço, pensando na possibilidade de um dia vir a ser candidato à presidência. Essa semana, foi aplaudido de pé por estudantes de Harvard e do MIT. Americanos? Não, brasileiros.
São os brasileiros pós-golpe. A nossa elite que vai estudar fora agora se sensibiliza com a conversa de um apresentador de TV. Ele é o exemplo de empreendedorismo. Mas no que Luciano Huck empreende? Na exploração comercial das misérias alheias?
Se os Estados Unidos tiveram o seu apresentador presidente, por que não podemos ter o nosso? Ainda mais um bem nascido. A receita de Huck é esta, nas palavras usadas por ele: ética e altruísmo.
É de se temer muito mais um Luciano Huck, como ameaça concreta, do que um Bolsonaro, apenas um instrumento a serviço de uma empreitada (e não só da direita extremada).
Bolsonaro é a direita de boca suja. Huck, que pode ser a terceira via tucana, é a direita benemerente, altruísta, que faz rifa com os sonhos dos pobres, desde que com bons patrocínios.
Alguém pode perguntar: mas antes do Huck não há o Dória? Talvez. Antes do Dória, quem existia era o Alckmin. Antes do Alckmin, o Aécio. Não há mais Alckmin, nem Aécio, nem Serra. É a vez da direita com berço.
·       bloghttp://www.blogdomoisesmendes.com.br


terça-feira, 28 de março de 2017

Panelas do Kim

A DESILUSÃO MANDOU RECADO NESTE DOMINGO
por Tereza Cruvinel*
Há um sentido muito claro no fracasso das manifestações convocadas para este domingo, 25, por MBL, Vem Pra Rua e outros movimentos que fizeram grandes atos no ano passado a favor do impeachment: amplos setores da classe média desiludiram-se com o golpe que apoiaram e entenderam o sentido retrógrado do governo Temer. Também da elite econômica vieram mensagens de decepção. Algumas foram expressas ao próprio Temer num encontro com representantes do PIB na noite de sexta-feira.
O comparecimento aos atos chamados pela direita variou de 200 a 300 pessoas nas principais capitais, inclusive no Rio e em São Paulo. Embora isso não signifique que estes setores arrependidos estejam dispostos a engrossar o “Fora Temer”, a comparação do fracasso de hoje com o êxito dos protestos contra Temer e suas reformas, realizados no último dia 15, por iniciativa das centrais sindicais e movimentos sociais, aponta para um indiscutível mudança na conjuntura das ruas. Mais de um milhão de pessoas participaram dos atos em todo o país, indicando que a rejeição ao governo que resultou do golpe hoje predomina sobre a pauta difusa da direita: apoio às reformas, apoio a Lava Jato, ao fim do foro especial, contra o voto em lista e o financiamento público de campanhas e contra o estatuto do desarmamento.
A inflexão está em curso, no povo e na elite, embora isso não garanta uma saída política para a encalacrada brasileira. Acabou-se a ilusão com o golpe. Temer prometeu crescimento e veio mais recessão e desemprego. Prometeu o combate à corrupção e a cada dia mais um ministro de seu governo aparece nas delações. A população já compreendeu que suas reformas são um esbulho dos direitos sociais e trabalhistas. O MBL e seus semelhantes não ousaram defender apoio ao governo, está claro, mas a defesa da Lava Jato também não se revelou mobilizadora. Os vazamentos, os abusos e mesmo a desastrosa Operação Carne Fraca (embora não integre a Lava Jato foi visto como parte do combate à corrupção) abalaram o antigo entusiasmo pela cruzada do juiz Sergio Moro, PF e MPF. A população continua contra a corrupção mas parece cansada desta crise política interminável. Kim Kataguiri amargou sua frustração culpando pelo fiasco um festival de música e um jogo de futebol na capital paulista. Mas o fracasso não foi só lá, foi em todo o Brasil.
Outras bandeiras propostas para os atos que fracassaram hoje também não despertaram interesse. Por exemplo, “contra o voto em lista fechada”. O grosso da população ainda não entendeu direito o que seria esta mudança na forma de votar. A esquerda, que sempre a defendeu, devia aproveitar o momento, explorar a contradição que leva os conservadores a aceitá-la e sair logo em sua defesa. Ainda que alguns corruptos estejam aceitando o voto em lista, que sempre combateram, apenas para tentar se reeleger, este sistema é mais construtivo para a democracia, num pais onde o dinheiro compra mandatos.
Também foi reveladora, neste domingo, a declaração do atual presidente da Andrade Gutierrez, Ricardo Sena. Depois de confessar que tinha uma “birra homérica” de Dilma, assim define sua relação com o governo Temer “Sou da turma dos decepcionados”. Hoje existem, portanto, os decepcionados da rua e os decepcionados da elite. Em busca de socorro do grande empresariado, Temer reuniu-se com uma penca deles na sexta-feira à noite em São Paulo. Ouviu críticas ao fato de não ter censurado a Polícia Federal e seu ministro da Justiça pelo desastre da Carne Fraca, ouviu reclamações quanto ao recuo na reforma previdenciária, da qual excluiu os funcionários estaduais e municipais, ouviu cobranças sobre a conduta do BNDES e outros reclamos mais. O PIB também cansou e se decepcionou.
Mas nada disso nos garante, ainda, uma saída política. Se ela não aparecer, Temer vai até 2018, com um custo muito mais elevado para o país. O assanhamento político do ministro Gilmar Mendes ascende em algumas imaginações a suspeita de que o TSE poderá acolher o parecer do relator Hermann Benjamin pela cassação da chapa Dilma/Temer. Vale dizer, pelo afastamento de Temer. Mas isso nos levaria à eleição indireta, quem sabe com Gilmar candidato, o que não seria uma saída, mas uma procrastinação da crise.
A saída virá se os que não saíram às ruas hoje se juntarem com os que saíram no dia 15, produzindo um grande movimento pelas eleições diretas antecipadas. Quanto mais cedo, menor será o custo.

*jornalista política, www.brasil247.com


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A sentença


Por Marcos Rolim 
Como se sabe, o senhor Michel Temer indicou para a vaga de Teori Zavascki, no Supremo Tribunal Federal, o seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. O fato de o indicado ter posições alinhadas política e ideologicamente com o governo não me parece ser o problema. Nos Estados Unidos, por exemplo, presidentes democratas e republicanos se revezam na indicação de magistrados liberais e conservadores para a Suprema Corte. Entendo que o fundamental não pode ser medido por esta régua e que os critérios decisivos para uma indicação a qualquer Tribunal devam ser outros.
O primeiro critério deveria ser o das qualidades morais; o segundo, a competência técnica. Um ministro do STF se posiciona sobre temas que afetam a vida de milhões de pessoas, decide sobre interesses de grupos muito poderosos e pode mesmo alterar a história do País. As responsabilidades pressupostas são tamanhas que se deve exigir dos indicados que estejam entre os mais capazes e que sejam exemplos de virtude. Os que integram os Tribunais devem possuir, mais do que todos os outros, condutas irretocáveis e histórias de vida admiráveis. Ninguém constrói esse patrimônio sem a necessária independência, sem ter oferecido suficientes demonstrações de altivez e coragem cívica. Por essa razão, vassalos e covardes jamais poderiam ser juízes, muito menos ministros do STF. O mesmo vale para os incompetentes, os ignorantes e os desazados.
Em nenhum lugar como em um Tribunal a independência é tão necessária. Sem ela, a própria República naufraga, posto que a última palavra não pode ser facciosa ou conspurcada pelo interesse. Um magistrado que se vergasse à "opinião pública" ou ao clamor dos incautos; que alterasse sua posição para agradar aos gregos ou aos troianos; que não interpretasse a lei tendo em conta o interesse público, mas seus próprios interesses; que, por temer a repercussão política de suas decisões, conformasse seu juízo às expectativas majoritárias, se transformaria, de fato, em um perigoso bandido.

Alexandre de Moraes escreveu em sua tese de doutorado que "É vedado (para o cargo de ministro do STF) o acesso daqueles que estiverem no exercício ou tiveram exercido cargo de confiança no Poder Executivo". A posição deveria ser suficiente para que ele mesmo se excluísse. Ocorre que a palavra do ministro não vale um vintém. Sua própria tese, se descobriu, contém passagens inteiras plagiadas de Francisco Rubio Lorente, ex-presidente do Conselho de Estado espanhol, falecido em 2016. Após o massacre no presídio de Roraima, Moraes afirmou que o governo do Estado não havia solicitado ajuda na área. Logo após, veio a público o ofício assinado pela governadora Suely Campos, enviado ao Ministério um mês antes da tragédia, pedindo apoio urgente para ações no sistema prisional. A passagem de Moraes pelo Ministério da Justiça não produziu uma só iniciativa apreciável e sua saída se dá em um dos momentos mais graves da segurança pública, com a crise aguda do Espírito Santo ameaçando se alastrar. Sobraram, entretanto, declarações imbecis. Apenas para lembrar, o "ministro xerox" é o mesmo que afirmou que iria erradicar a maconha da América e que o Brasil gastava "muito em pesquisa e pouco em armamento".
Alexandre de Moraes tem 49 anos e seu período no STF poderá se prolongar por 26 anos. O mal praticado pelos interessados em barrar a Lava a Jato ("e conter essa sangria") se transformará, então, em uma longa e impiedosa sentença contra o Brasil. Para assegurar que tudo transcorra bem, tomou posse na presidência da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, encarregada de sabatinar o indicado, Edison Lobão (PMDB-MA), um dos investigados pela Lava Jato. Ao que tudo indica, os gangsters seguem operando com desembaraço. Agora, com mais compreensão do público, claro.
* artigo publicado na edição de 11/02/17, do jornal ZH