terça-feira, 8 de março de 2016

Porque é preciso lembrar o 8 de março!

 

por Lene Franck
    
     

       "O 8 de março deve ser visto como momento de mobilização para a conquista de direitos e para discutir as discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas pelas mulheres, impedindo que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países"¹. Esta opinião, expressa pela professora Maria Célia Orlato Selem, mestre em Estudos Feministas pela Universidade de Brasília e doutora em História Cultural pela Universidade de Campinas (Unicamp), há 5 anos atrás, é reproduzida e multiplicada por milhares de vozes no mundo inteiro e deve ser levada em consideração sempre que se aponta a desnecessidade de celebração de uma data destinada exclusivamente à mulher. 
     
       Posiciono-me favorável à manutenção da data, como rememoração necessária, pois é preciso lembrar sim das lutas que as mulheres travaram ao longo do tempo para serem ouvidas, respeitadas, valorizadas e inseridas em todos os setores e âmbitos da vida social.
     
      A data 08 de março simboliza um conjunto de conquistas, mas também faz menção à luta que ainda precisa ser travada de forma constante e persistente para que se efetive a igualdade de condições entre os gêneros nas práticas da vida cotidiana. Devemos encarar o 8 de março, não como o Dia da Mulher, mas como o Dia da Luta Feminina.

    No mundo inteiro, as mulheres vêm reivindicando melhores condições de vida, de trabalho e o reconhecimento dos seus direitos na sociedade há, pelo menos, dois séculos. Registra a literatura que organizações femininas oriundas de movimentos operários já protestavam em vários países da Europa e nos Estados Unidos, em plena Revolução Industrial  e durante a 1ª Guerra Mundial, fechando fábricas e conclamando o fim do trabalho infantil. 

    Para baratear os salários, as mulheres foram inseridas, pela primeira vez, no mundo da produção pelas indústrias que surgiram na Inglaterra. Cumprindo jornadas exaustivas de 17 horas de trabalho, com salários 60% menores do que o dos homens, as operárias viviam em condições insalubres e eram submetidas a constantes espancamentos e ameças sexuais. Um exemplo da desumanidade praticada no ambiente fabril da época era a tecelagem Tydesley, em Manchester, “onde se trabalhava 14 horas diárias a uma temperatura de 29°, num local úmido, com portas e janelas fechadas e, na parede, um cartaz afixado proibia, entre outras coisas, ir ao banheiro, beber água, abrir janelas ou acender as luzes”².

       Consta que a partir da Revolução Francesa, em 1789, as mulheres começam a atuar de forma mais significativa,  reivindicando não apenas a melhoria das condições de vida e de trabalho, mas também a participação na política, o fim da prostituição, o acesso à educação e a igualdade de direitos entre os sexos.

     A data 8 de março assinala um fato histórico ocorrido na Rússia, em 1917, quando aproximadamente 90 mil operárias manifestam-se contra o Czar Nicolau II, expondo as péssimas condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra - em um protesto conhecido como "Pão e Paz".

     A consagração da data e sua oficialização como Dia Internacional da Mulher, no entanto, só vem a ocorrer em 1921 – apesar de a história apontar várias datas e fatos também relevantes da luta feminina no mundo inteiro. Vale lembrar:

março de 1857 – alguns autores mencionam essa data para se referir a um  fato ocorrido em Nova Iorque, quando uma centena de operárias de uma fábrica de tecidos se mobilizam na primeira greve conduzida somente por mulheres. Elas reivindicam melhores condições de trabalho (a carga horária era de 16 horas), equiparação de salários (recebiam até 1/3 do valor pago aos operários homens) e tratamento digno (as condições de trabalho eram sub-humanas, com agressões físicas e sexuais). Como resultado, todas foram trancafiadas dentro da fábrica e 130 morreram carbonizadas.

maio de 1908 – cerca de 1500 mulheres americanas aderem a uma manifestação a favor da igualdade econômica e política no país. É celebrado o primeiro Dia Nacional da Mulher.

fevereiro de 1909 - o Partido Socialista dos EUA oficializa a data (28/02) com um protesto que reune mais de 3 mil pessoas no centro de Nova York e culmina, em novembro do mesmo ano, em uma longa greve têxtil que fecha quase 500 fábricas americanas.

1910 - durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas na Dinamarca, uma resolução para a criação de uma data anual para a celebração dos direitos da mulher é aprovada por mais de cem representantes de 17 países. O objetivo é honrar as lutas femininas com o objetivo de obter suporte à instituição do sufrágio universal em diversas nações. 

março de 1911 – alguns autores citam essa data para se referir ao incêndio ocorrido em uma fábrica têxtil de Nova York – a
Triangle Shirtwaist Company (outros, afirmam que o ano foi 1857), que mata 125 operárias, delineando a difícil trajetória que as mulheres teriam ao longo do século 20.

     No Brasil, a história não é muito diferente. Mas é somente a partir do início do século XX que a mulheres passam a integrar o mercado de trabalho como operárias, enfermeiras, professoras ou secretárias. As lutas por melhoria da qualidade de vida e das condições de trabalho (que envolviam salários menores e a prática do assédio sexual) são assumidas por grupos anarquistas que emergem no país. A luta feminina passa a ganhar força com o movimento das sufragistas, nas décadas de 1920 e 30, o qual leva o governo Vargas a instituir o voto feminino no Brasil, através da Constituição de 1932.

      A partir dos anos 70 emergem no país organizações que passam a incluir na pauta de discussões a igualdade de gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher.

     Algumas mulheres perguntam: ainda precisamos desse dia? Sim. A Organização das Nações Unidas registra que o salário das mulheres ainda é 27% menor do que o dos homens que ocupam a mesma função. E isso vale para o mundo inteiro.

     “A proporção de mulheres que ficam em casa e cuidam de afazeres domésticos não remunerados é duas vezes e meia maior do que a de homens”³, enfatiza a ONU.

     Um artigo muito interessante, a respeito, e que sugiro, é “As sementes do feminismo no Brasil”, de Constância Lima Duarte, disponível em:



Fontes: