Por João Pedro Gil
Não acredito neste
negócio de bem e de mal. Parece coisa de criança. A indústria cultural
norte-americana, especialmente dos Estúdios Disney, promoveu este maniqueísmo no
cinema contemporâneo. Claro, primeiro veio a igreja, com deus e o diabo; a
filosofia, antes das luzes, e a guerra fria. Nós somos do bem e os outros são
do mal. Pensamento positivista. Quem atesta esta razão?
Descartes com seu
dualismo formulou o discurso do método: “penso, logo existo”, verdade tão
correta que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam
capazes de abalá-la como primeiro princípio da filosofia.
A questão é: o corpo
é separado da razão? Não somos uma só matéria? Para Descartes, “a alma, pela qual sou o que sou,
é inteiramente distinta do corpo”. Um corpo separado da mente não seria um
corpo doente? Um sujeito do bem não
teria seu lado mal?
O lado B que pretendo
refletir é social e não individual. É coletivo.
Por exemplo, o que a sociedade vivencia hoje no Brasil, com a política, apresenta o bem contra o mal? Ou não seria o
bom e o mau? Está mais para a ética ou para a moral? É um problema de valores? Vejam os argumentos
e as atitudes. São boas ou ruins para a sociedade?
O que teremos daqui
para a frente é uma definição: sei quem está defendendo uma concepção de
sociedade. E quem não está. E isto é o lado bom. Temos condições de avaliar
quem prefere ditadura e quem é a favorável à democracia. Nem vamos falar de
quem é a favor de ricos e de pobres, de negros ou brancos ou índios ou gltbs, porque
aí é outro artigo. Nos EUA e na UE - sempre nossas medidas – é assim que
funciona. Quem lê determinado jornal sabe de que lado está. Sem dualismos: esquerda x direita. Quem lê New York Times ou
Le Monde, sabe o que vai encontrar. Quem vota, quem lê, quem escuta, quem
procura as informações que correspondam as suas concepções de homem, de mundo e
de sociedade vai atrás do que ou de quem o representa. E isto também vale para a
política. Não é bom saber que a Globo
define isto e aquilo? Que o jornal Zero Hora tem determinada linha editorial? Que
Bolsonaro é nazista?
E os profissionais
podem trabalhar nas empresas sem ter o vínculo com a mesma linha? Claro! Não se
trata de adesão, mas sim, de defender o pão. Os exemplos dos artistas Zé de
Abreu e Jorge Furtado estão aí para demonstrar a tese que os colaboradores não
precisam estar afinados com o discurso da rede. Para a empresa que os contrata,
evidentemente e “de olho na audiência”, não deixa de ser vantajoso ter em seu
quadro artistas que tenham posições divergentes.
Com a arte não
acontece assim. Não há progresso em arte. Que dirá dicotomias. Corpo e mente
separados é para os cartesianos. Os
princípios da arte como criatividade e liberdade não têm lados. Marx
preconizava que para passar do reino da necessidade para o da liberdade é
preciso reduzir o tempo da jornada de trabalho. Sabia que uma sociedade
capitalista não tinha muito a ver com a arte. Pouco escreveu sobre o trabalho
artístico. Entretanto, muitos artistas e intelectuais seguiram suas teorias.
Outros foram mais pragmáticos: resolveram seus problemas de condições materiais
de existência bem antes de seguirem fazendo sua arte.
O lado B (de bom) é que descobrimos quem persegue com a sua arte e a sua política os caminhos
de uma nova “human-idade”.

