sexta-feira, 3 de junho de 2016

Varre, varre, varre vassourinha...





Por Antenor Fischer

“Varre, varre vassourinha, varre a corrupção”, foi o mote usado por Jânio Quadros, candidato do PTN, apoiado pela conservadora UDN, nas eleições para a presidência do Brasil, em 1960. O jingle da campanha possuía apenas uma estrofe, que repetida duas vezes, continha os seguintes versos:

Varre, varre, varre vassourinha!/ Varre, varre a bandalheira!
Que o povo já 'tá cansado/ De sofrer dessa maneira
Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!
Jânio Quadros é a certeza de um Brasil moralizado!
Alerta, meu irmão!/ Vassoura, conterrâneo!
Vamos vencer com Jânio!

Em sua primeira disputa pela prefeitura paulistana, na década de 50, Jânio Quadros conquistara grande popularidade ao usar uma vassoura como símbolo da limpeza que prometia fazer nos órgãos públicos. Com um discurso enérgico e carismático, Quadros arrebatou uma leva de eleitores que acreditavam que a vassoura iria varrer a corrupção da política paulistana. 

Ao lançar sua candidatura à presidência da República, Jânio Quadros continuou utilizando a vassoura como símbolo de sua campanha presidencial, prometendo moralizar o cenário político nacional e “varrer” a corrupção do país. Seria eleito presidente com 5,6 milhões de votos, a maior votação até então obtida no Brasil, o que não apenas demonstrava que o povo brasileiro estava cansado da corrupção, mas indicava a consolidação do regime democrático no país.
No entanto, pra sorte da legião de corruptos da política brasileira, as contradições e a falta de um claro posicionamento político fizeram com que o mandato de Jânio Quadros fosse tomado por situações nebulosas e acabasse antes mesmo que a vassoura viesse a ser usada.
Mas, assim como a corrupção não foi introduzida no Brasil pelos governos da Frente Popular, a corrupção também não começou no governo JK... Quem se der o trabalho de fazer uma viagem, ainda que superficial, pelas páginas de "Brasil: uma biografia", de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling (Cia. das Letras, 2015, 694 p.), irá deparar com passagens como esta, ainda do período colonial:
“No final do mês de agosto de 1666, cinco anos após a Revolta da Cachaça, o governador de Pernambuco, Jerônimo de Mendonça Furtado, acabou preso, em plena luz do dia, no meio da rua de São Bento, em Olinda. (...) O governador foi encarcerado na fortaleza do Brum, no Recife, e em seguida devolvido a Lisboa. A briga foi coisa de graúdos, e a lista de reclamações contra Mendonça Furtado era robusta: acusavam o governador de executar dívidas, sequestrar bens, proteger ostensivamente diversos devedores da Fazenda Real, quebrar imunidades eclesiásticas, prender e soltar pessoas: tudo em troca de propina.

As ruas de Olinda e Recife também acolhiam e difundiam a notícia de que o governador não só costumava embolsar parte da receita devida à Coroa, como cuidava de aumentar o quinhão embolsado, recunhando moedas no próprio palácio.

Desprezado pela população, Mendonça Furtado recebeu a alcunha de Xumbergas, termo ambíguo que tanto significava “alguém que azucrina o próximo” quanto apontava de modo chulo para uma pessoa adepta de excessos: um sujeito embriagado ou um figurão useiro e vezeiro na prática de bolinar.

O Xumbergas fez parte de uma linhagem de governadores locais prepotentes, corruptos e venais que se aproveitavam da investidura régia para enriquecer depressa, em geral de forma ilícita.

Na belíssima oratória de padre Vieira, que os conhecia bem, a cobiça desses governantes era sem remédio, e punha em risco a estabilidade do domínio português na América: “Esta é a causa original das doenças do Brasil: tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares por onde a Justiça se não guarda e o Estado se perde”, bradava Vieira, do púlpito. E concluía: “Perde-se o Brasil (digamo-lo em uma palavra) porque alguns ministros de Sua Majestade não vêm cá buscar nosso bem, vêm cá buscar nossos bens”. 

Outra passagem dá conta de que, nos anos que se seguiram à vinda de D. João VI ao Brasil, a corrupção também corria solta. Foi nessa época que começou a surgir a “nobreza da terra”.

Entre sua vinda, em 1808, até seu retorno a Portugal, em 1821, D. João concedeu nada menos que 235 títulos de nobreza. Isso sem contar a instauração da Ordem da Espada e dos títulos de grã-cruz, comendador e cavaleiro, categorias em que distinguiu quase cinco mil pessoas.

Já nos escalões mais baixos, o número de funcionários aumentava, inflando e emperrando a máquina administrativa, uma vez que muitos cargos foram sendo criados apenas para atender os recém-chegados, que reclamavam sua subsistência. A maior parte dos emigrados – monsenhores, desembargadores, legistas, médicos, empregados da casa real, os homens do serviço privado e protegidos do monarca – comportou-se como uma “chusma de satélites”. “Eram os vadios e parasitas [...] que continuariam no Rio de Janeiro o ofício exercido em Lisboa: comer à custa do Estado e nada fazer para o bem da nação”. A máquina inchava e, para dar conta das novas despesas, geraram-se impostos pelo Brasil todo.
 
Foi em tom de brincadeira séria que a população denunciou a corrupção nessa corte voraz:
 
Quem furta pouco é ladrão/ 
Quem furta muito é barão/
Quem mais furta e esconde/
Passa de barão a visconde.
 
Nessa mesma época, a população escravizada, por seu turno, reagia promovendo fugas, rebeliões e assassinatos, ou partindo para a ironia contra a corrupção dos brancos: 

Sinhô branco também furta/
Nosso preto furta galinha/ Furta saco de feijão/
Sinhô branco quando furta/ Furta prata e patacão/ 
Nosso preto quando furta/ Vai parar na [Casa de] Correção/
Sinhô branco quando furta/
Logo sai sinhô barão. 


Muita lama ainda correria por debaixo da ponte, antes que o Império fosse soterrado. A corrupção havia espalhado suas ramificações, como um cancro, por todos os setores da sociedade. O diagnóstico foi de que a doença não era resultado do comportamento dos políticos e do povo e, sim, da forma de governo. A República, sim, iria nos curar e, mais que isso, nos redimir. Era o que, então, tolamente se acreditava.