Sempre que alguém expõe uma ideia ou ponto de vista
sobre algum assunto polêmico nas redes sociais, tende a provocar argumentos contrários,
por mais consistentes e razoáveis que
sejam. Na maioria das vezes, o indivíduo é insultado e desqualificado publicamente
por tentar expor seu modo de pensar e de se posicionar no mundo. É compreensível.
Ideias podem ser vazias, superficiais ou rasas, úteis ou inúteis, capciosas, corretas, bem intencionadas ou desprovidas de lógica e de sentido, consistentes ou simples retóricas.
No entanto, sempre refletirão alteridades e uma subjetividade inegável e por
isso mesmo, devem ser legitimadas e não categorizadas como menores ou insignificantes,
como pretendem alguns.
Nesse sentido, penso que podemos ser
intolerantes às tentativas de homogeneização dos discursos e considerar legítimas
as múltiplas visões de mundo.
Sobre as políticas e poéticas da diferença, Jorge
Larrosa e Carlos Skliar discorrem em ensaios preciosos que nos fazem refletir
sobre a conveniência da intolerância nesses tempos em que tudo nos estarrece
e nos subestima.
Os autores de “Habitantes de Babel” sustentam que é
preciso ser intolerante para reafirmar a necessidade do vínculo social
conflitivo, pois os sujeitos devem assumir a responsabilidade ética frente ao
social e explicitar o mal estar diante da não realização dos direitos sociais e
das políticas públicas fundamentais. Em outras palavras, devemos ser
intolerantes a uma cultura de desigualdades materiais que impedem o acesso a
oportunidades de vida e ao direito de pensar, falar e sentir como seres
distintos.
Refletindo sobre isso, questiono: como ser
tolerante com as tentativas de reafirmação da exclusão?
Como posicionar-se em um meio muitas vezes hostil e
nem sempre receptivo às ideias dos que se opõem, não importa a que linha de
pensamento - se de direita ou de esquerda?
Algumas pessoas, nas redes, preferem não opinar e invalidam
o pensamento dos que se posicionam, acusando-os de prepotentes ou reacionários.
Há as que domesticam o olhar e se acostumam a pensar e agir conforme os
ditames dos discursos oficiais. Há as que dizem que não se deve debater
política, religião, sexo ou futebol. Há simplesmente os indiferentes que a tudo aceitam. E há aqueles que não fazem questão de participar, nem de assumir uma postura crítica diante
dos problemas do mundo - tipo "deixa a vida me levar, vida leva eu..."
Por outro lado, há pessoas que não temem e percebem a existência de diferenças e de alteridades.
Acredito que o risco de se expor publicamente nas
redes sociais ao ponto de suscitar a ira, ressentimentos, insultos e até
rompimentos de amizades é o risco necessário, quando se pretende avançar na
discussão de assuntos fundamentais que afetam a vida de todos.
É, no entanto, um salto no escuro a provocação
vazia, sem as mínimas noções de humanidade, justiça e entendimento sobre as
questões que dizem respeito à vida e aos direitos sociais. Aquele que provoca o
debate a partir de uma base cognitiva e argumentativa consistente -
contextualizada e inteligente, lança inquietações e novos olhares sobre a
realidade. O risco é convidar os atores, que não querem participar da cena, a
atuarem e assumirem os seus papéis como sujeitos que têm voz, vez e lugar nesse
cenário de contestação e de confronto. Atitudes de rebeldia e provocação podem
ser interpretadas como atos de arrogância e superioridade?
Penso que não. Os corajosos, os que se atrevem a
dizer abertamente o que pensam, são, no meu entender, pessoas que acreditam na força das ideias e do
pensamento autônomo, ou seja, na importância do pensamento desvinculado das
coerções sociais institucionalizadas. Esse tipo de atuação independente não se
nutre de crenças, nem de promessas vazias. Tem como parâmetro o protagonismo na
cena, hoje dominada pela dissimulação e pela manipulação dos fatos.
Temos que reconhecer, também, que, pela omissão, instituímos
a autocensura. Passamos a negar a nossa inserção no campo das ideias e do
discurso. Através da não participação, reproduzimos os estereótipos do que é
certo e do que é errado, do que pode e do que não pode ser dito. Estabelecemos uma
não resistência e validamos a tolerância defensiva como norma, que a tudo
aceita sem questionamentos. É cômodo e
agradável, Mas é um equívoco.
Na contramão dos tolerantes, acredito que não há
imposição de valores, crenças ou ideologias coercitivas suficientes que possam desqualificar
o ato do livre pensar. Só quem não subestima a sua capacidade de arguição,
discernimento e compreensão dos problemas da realidade pode efetivamente
potencializar a mudança.
Por que isso não acontece? Os instrumentos, as oportunidades
e os veículos a que temos acesso não nos
foram tirados (ainda) e podem ser utilizados como espaços de inserção e de busca
de democratização da voz.
Nada impede a veiculação do livre pensar, como
dizia Millôr. Infelizmente, poucos ousam
“dar a cara a tapa” e os que criticam não conseguem compreender que o vazio não
preenchido pela voz dos excluídos (de forma deliberada ou não) é preenchido
pelas vozes dos postulantes à verdade. Todos sabemos de onde vem. E, com
certeza, não representam as múltiplas “relatividades” que emanam dos que não se
fazem presentes.
Há preconceito e arrogância, sem dúvida, na postura
de certos intelectuais que condenam o uso das redes sociais para a exposição de
opiniões dissonantes. Dizem que todos se postulam intelectuais. Presunção
elitista, não? Será que somente a academia, a imprensa comercial, os
descomprometidos politicamente, podem se arguir ao direito de pensar a
realidade e a interpretá-la como melhor lhe provêm $?
Para finalizar, acredito que o amadurecimento e a
tomada de consciência em relação aos problemas do mundo vêm do debate provocado
pelas diferentes maneiras de pensar, viver e se inserir nas relações e nos meios
de discussão sociais. A linguagem e os recursos discursivos são poderosos
instrumentos de mudança. Argumentos refletem as condições de vida das pessoas,
a maneira como aceitamos ou não as imposições econômicas que nos rotulam e nos
excluem da estrutura de poder.
O pensamento livre de imposições, mesmo que confrontado
com as mais reacionárias visões de mundo e desqualificado pela linguagem
oficial que ainda domina os dispositivos não dialógicos de comunicação é um
poderoso instrumento de elaboração do olhar crítico. Só quem não teme o eco da
voz é capaz de ser intolerante.
por Lene Franck

