sexta-feira, 9 de junho de 2017

Tolerância zero




Sempre que alguém expõe uma ideia ou ponto de vista sobre algum assunto polêmico nas redes sociais, tende a provocar argumentos contrários, por mais consistentes e razoáveis que sejam. Na maioria das vezes, o indivíduo é insultado e desqualificado publicamente por tentar expor seu modo de pensar e de se posicionar no mundo. É compreensível.

Ideias podem ser vazias, superficiais ou rasas, úteis ou inúteis, capciosas, corretas, bem intencionadas ou desprovidas de lógica e de sentido, consistentes ou simples retóricas. No entanto, sempre refletirão alteridades e uma subjetividade inegável e por isso mesmo, devem ser legitimadas e não categorizadas como menores ou insignificantes, como pretendem alguns.

Nesse sentido, penso que podemos ser intolerantes às tentativas de homogeneização dos discursos e considerar legítimas as múltiplas visões de mundo.

Sobre as políticas e poéticas da diferença, Jorge Larrosa e Carlos Skliar discorrem em ensaios preciosos que nos fazem refletir sobre a conveniência da intolerância nesses tempos em que tudo nos estarrece e nos subestima.

Os autores de “Habitantes de Babel” sustentam que é preciso ser intolerante para reafirmar a necessidade do vínculo social conflitivo, pois os sujeitos devem assumir a responsabilidade ética frente ao social e explicitar o mal estar diante da não realização dos direitos sociais e das políticas públicas fundamentais. Em outras palavras, devemos ser intolerantes a uma cultura de desigualdades materiais que impedem o acesso a oportunidades de vida e ao direito de pensar, falar e sentir como seres distintos.

Refletindo sobre isso, questiono: como ser tolerante com as tentativas de reafirmação da exclusão?

Como posicionar-se em um meio muitas vezes hostil e nem sempre receptivo às ideias dos que se opõem, não importa a que linha de pensamento - se de direita ou de esquerda?

Algumas pessoas, nas redes, preferem não opinar e invalidam o pensamento dos que se posicionam, acusando-os de prepotentes ou reacionários. Há as que domesticam o olhar e se acostumam a pensar e agir conforme os ditames dos discursos oficiais. Há as que dizem que não se deve debater política, religião, sexo ou futebol. Há simplesmente os indiferentes que a tudo aceitam. E há aqueles que não fazem questão de participar, nem de assumir uma postura crítica diante dos problemas do mundo - tipo "deixa a vida me levar, vida leva eu..."

Por outro lado, há pessoas que não temem e percebem a existência de diferenças e de alteridades.

Acredito que o risco de se expor publicamente nas redes sociais ao ponto de suscitar a ira, ressentimentos, insultos e até rompimentos de amizades é o risco necessário, quando se pretende avançar na discussão de assuntos fundamentais que afetam a vida de todos.

É, no entanto, um salto no escuro a provocação vazia, sem as mínimas noções de humanidade, justiça e entendimento sobre as questões que dizem respeito à vida e aos direitos sociais. Aquele que provoca o debate a partir de uma base cognitiva e argumentativa consistente - contextualizada e inteligente, lança inquietações e novos olhares sobre a realidade. O risco é convidar os atores, que não querem participar da cena, a atuarem e assumirem os seus papéis como sujeitos que têm voz, vez e lugar nesse cenário de contestação e de confronto. Atitudes de rebeldia e provocação podem ser interpretadas como atos de arrogância e superioridade?

Penso que não. Os corajosos, os que se atrevem a dizer abertamente o que pensam, são, no meu entender,  pessoas que acreditam na força das ideias e do pensamento autônomo, ou seja, na importância do pensamento desvinculado das coerções sociais institucionalizadas. Esse tipo de atuação independente não se nutre de crenças, nem de promessas vazias. Tem como parâmetro o protagonismo na cena, hoje dominada pela dissimulação e pela manipulação dos fatos.

Temos que reconhecer, também, que, pela omissão, instituímos a autocensura. Passamos a negar a nossa inserção no campo das ideias e do discurso. Através da não participação, reproduzimos os estereótipos do que é certo e do que é errado, do que pode e do que não pode ser dito. Estabelecemos uma não resistência e validamos a tolerância defensiva como norma, que a tudo aceita sem questionamentos.  É cômodo e agradável, Mas é um equívoco.

Na contramão dos tolerantes, acredito que não há imposição de valores, crenças ou ideologias coercitivas suficientes que possam desqualificar o ato do livre pensar. Só quem não subestima a sua capacidade de arguição, discernimento e compreensão dos problemas da realidade pode efetivamente potencializar a mudança.

Por que isso não acontece? Os instrumentos, as oportunidades e os veículos a que temos acesso não  nos foram tirados (ainda) e podem ser utilizados como espaços de inserção e de busca de democratização da voz. 

Nada impede a veiculação do livre pensar, como dizia Millôr. Infelizmente, poucos ousam “dar a cara a tapa” e os que criticam não conseguem compreender que o vazio não preenchido pela voz dos excluídos (de forma deliberada ou não) é preenchido pelas vozes dos postulantes à verdade. Todos sabemos de onde vem. E, com certeza, não representam as múltiplas “relatividades” que emanam dos que não se fazem presentes.

Há preconceito e arrogância, sem dúvida, na postura de certos intelectuais que condenam o uso das redes sociais para a exposição de opiniões dissonantes. Dizem que todos se postulam intelectuais. Presunção elitista, não? Será que somente a academia, a imprensa comercial, os descomprometidos politicamente, podem se arguir ao direito de pensar a realidade e a interpretá-la como melhor lhe provêm $?

Para finalizar, acredito que o amadurecimento e a tomada de consciência em relação aos problemas do mundo vêm do debate provocado pelas diferentes maneiras de pensar, viver e se inserir nas relações e nos meios de discussão sociais. A linguagem e os recursos discursivos são poderosos instrumentos de mudança. Argumentos refletem as condições de vida das pessoas, a maneira como aceitamos ou não as imposições econômicas que nos rotulam e nos excluem da estrutura de poder.

O pensamento livre de imposições, mesmo que confrontado com as mais reacionárias visões de mundo e desqualificado pela linguagem oficial que ainda domina os dispositivos não dialógicos de comunicação é um poderoso instrumento de elaboração do olhar crítico. Só quem não teme o eco da voz é capaz de ser intolerante.


por Lene Franck



domingo, 4 de junho de 2017

Quem seremos nós

Quem seremos nós depois do neoliberalismo é a pergunta que pode nos ajudar nesse momento  


Por Márcia Tiburi

Precisamos falar sobre neoliberalismo





Neoliberalismo é um termo antipático mais pronunciado por quem o critica enquanto economia política, do que por quem possa, conscientemente ou não, concordar com sua ideologia. Não falamos sobre neoliberalismo por se tratar de um assunto difícil do ponto de vista teórico, mas porque muitos preferem mesmo repetir a opinião que não compromete.
Sabemos no entanto que, se uma palavra nos perturba, é nela que temos que investir os esforços da nossa inteligência. Nesse sentido, é preciso enfrentar um problema semiológico-político: vivemos atualmente sob o signo impronunciado do neoliberalismo. De fato, um silêncio paira sobre nós para nos livrar da coisa à qual ela se refere.
E do que estamos falando? De uma experiência vivida pessoal e coletivamente que implica o nosso futuro como sociedade. Quem seremos nós depois do neoliberalismo é a pergunta que pode nos ajudar nesse momento.
Se o neoliberalismo é a luta de classes dos ricos contra os pobres, podemos ter certeza de que, com o advento do neoliberalismo, seremos mais pobres. O neoliberalismo precisa acabar com a luta pela igualdade social e de classes, já que não se beneficia com ela em sentido algum.
Pensando no que seremos no futuro, se hoje vivemos sem direitos fundamentais assegurados, saúde e moradia, educação e trabalho, a tendência projetada pelo neoliberalismo é que as hordas de alienados, que hoje aplaudem aquilo mesmo que os destrói, estarão de tal como infelizes que aprofundaremos a barbárie entre nós em todos os níveis. Em uma sociedade para poucos, com o acirramento da desigualdade, a violência se intensificará até a barbárie. Como o neoliberalismo é a vida reduzida ao mercado, ele mesmo providenciará as armas e lucrará com isso.
O neoliberalismo é a economia política que faz retornar a luta de todos contra todos em nome do capital. Projeta-se uma sociedade de muitos perdedores sociais e econômicos e alguns poucos vencedores articulados com primores de ideologia disfarçadas de mérito e competência, promessa dos mais eminentes de seus teóricos.
Privatizar e desregulamentar economias para entregá-las ao setor privado, é parte do programa acionado pelo dispositivo ideológico que usa cada corporação, que usa cada indivíduo como parte do seu plano. Minimizar o Estado para a maioria da população e reservá-lo às elites econômicas, é a parte nuclear do seu método.
O próprio neoliberalismo inventou que falar dele soa antipático. Na varredura que o capital faz pelo mundo afora, até mesmo o Rio Grande do Sul, que parecia um lugar tão distante e protegido por seus aguerridos cidadãos cuja fama é de coragem política e senso de cidadania, está sendo levado pelo vento. Precisamos falar sobre neoliberalismo para soprar essa desgraça para longe de nós. 

* Professora da Unirio e autora de “Como conversar com um fascista” e “Ridículo Político”
artigo publicado em ZH, edição de 3 e 4 de junho de 2017