segunda-feira, 11 de julho de 2022

Algo se move no lodaçal


por FERNANDA TORRES

Em criança, eu costumava ser arrastada pelos meus pais para o Canecão, para assistir aos shows de Chico, Bethânia, Caetano, Gil, Gal e Milton. Pequena demais para entender a situação do país, eu percebia a importância de estar presente, tanto pela insistência paterna quanto pela comoção da turba. Era ato de resistência. Jamais esqueci.
Cinquenta anos depois, numa mesa do Vivo Rio, sou tomada pelo mesmo sentimento de relevância histórica, de potência da arte, frente à brutalidade geral, com "Meu Coco", de Caetano Veloso. A noite me despertou do coma das últimas estações.
"Meu Coco" é contundente, sóbrio, direto, duro, maduro e manemolente. "Meu Coco" é político. O rigor do cenário póstumo de Hélio Eichbauer —cujo esboço foi descoberto por Luiz Henrique Sá no acervo do artista—, somado ao drama da iluminação de Fernando Young emolduram a formação em V dos músicos, com tambores da Bahia e do Rio em confronto com o naipe de teclado e cordas. No centro, a voz, o farol.
O espetáculo traz canções do exílio e do Brasil cu do mundo, para sempre fora da ordem. O "não vou deixar" de uma das composições do último álbum traça o norte do roteiro. A excelência de Caetano em cena, de Kainã do Jêje, Pretinho da Serrinha e Thiago da Serrinha, Lucas Nunes, Hélio e Haroldo de Campos nos lembra de que somos também aquilo, que possuímos poesia, beleza e bossa. Sem samba não pode, ninguém ali ia deixar.
Eu tinha me esquecido da sensação de assistir a um show com público, e cheguei a crer que o hábito se perderia, nesse mundo entocado da peste. As manifestações de rua reduzidas ao alívio cômico dos panelaços, à solidão virtual. Sentada na plateia de "Meu Coco", em meio a outros tantos civis combatentes, senti se firmar o ato de resistência do Canecão da infância.
Algo se move no lodaçal, pensei.
"Portas", de Marisa Monte, marcou meu retorno aos anfiteatros lotados. Mais de 3.000 pessoas encheram o HSBC Arena para cantarem em uníssono os 30 anos de repertório da artista. Marisa voltava para a estrada depois de longa ausência, acompanhada de extraordinária banda, cenário, projeções e figurino de ópera. Cleópatra de "Asterix" em cortejo, ela decretava o fim de um ciclo nefasto.
E muitas das canções de amor da diva, revistas nesses tempos odientos de agora, ganharam sentido diverso. Uma angústia grave, nunca vista, implodiu no salão, ao término do segundo bis. Marisa desapareceu pela coxia, deixando a multidão entregue à própria voz, e a Barra da Tijuca do Vivendas ecoou à capela: "o que a gente fez da nossa vidaaaaaa?". A rotina não nasceu com esse show, mas soou diferente na ocasião.
Algo se move no lodaçal, eu já havia pensado então.
Uma mudança de vento que Renato Terra detectou em "No Entanto, Ela Se Move", no seu blog da Folha. O fim da apatia crônica, depois da surra eleitoral de 2018 e do nocaute da praga de 2019.
Entre os exemplos citados por Terra estão as vitórias da jornalista Patrícia Campos Mello, de Gregorio Duvivier e das deputadas Sâmia Bomfim e Talíria Petrone em ações de injúria e difamação movidas contra Jair, o MBL e Carla Zambelli. Acrescento à lista o afastamento de Pedro Guimarães da presidência da Caixa, a investigação do mercado das bíblias do Ministério da Educação de Milton Ribeiro e o repúdio ao espancamento da procuradora Gabriela de Barros, à conduta da juíza Joana Ribeiro Zimmer e ao assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips.
Para os que procuram os sinais de vida inteligente na Terra, sugiro ouvir Mano a Mano, podcast de Mano Brown que traz, entre tantas pérolas, um papo reto sobre racismo, domesticação, liberalismo e cotas com a filósofa, escritora e ativista Sueli Carneiro.
No horário nobre da novela tem perspectiva ameríndia para milhões, com a mulher onça e o velho sucuri de Pantanal.
Para os que zelam pela família tradicional, é mister conferir o documentário da família Gil, no Prime Video.
Nas letras, Laurentino Gomes lança o último volume de "Escravidão"; Machado de Assis reencarna no Sérgio Rodrigues em "A Vida Futura", e Marcos Nobre disseca a ascensão da extrema direita de Jair em "Limites da Democracia".
Outras bolhas, eu sei, organizam motociatas, difamam as urnas e abrem clubes de tiro. Na melhor das hipóteses, vai ser horrível. Trato, aqui, da ressurreição da bolha à qual pertenço. Depois de quatro anos na UTI, algo se move no lodaçal.

Fernanda Torres
Atriz e roteirista, autora de “Fim” e “A Glória e Seu Cortejo de Horrores”.
Folha de São Paulo, 06.07.22

terça-feira, 28 de junho de 2022


Rita Von Hunty

Por JULIAN RODRIGUES*


Guilherme Terreri acerta ao apontar limitações da candidatura petista, mas erra ao sinalizar que não votará em Lula

Meu primeiro contato com essa figura estupenda – uma drag queen marxista! – foi ao assistir aquele vídeo no qual Dona Rita explica em cinco minutos, sim parcos cinco minutinhos – e com fino humor – o conceito de consciência de classe. Ali fomos apresentados à singela boneca Roxellicksen, que apesar de custar apenas R$ 1,99, acredita ser uma Barbie. Tal vídeo tem um milhão oitenta e um mil seiscentas e trinta e duas visualizações (https://www.youtube.com/watch?v=lmT7H09jR18&t=38s). É genial, simplesmente.

Humor e ironia, mais marxismo, cultura LGBT, arte, aulas densas e acessíveis. Didatismo com rigor teórico. Abordando uma plêiade de assuntos complexos, Gulherme traz sempre um mix de diversão, teoria, conhecimento, política, cultura.

Com talento incomum e repertório amplíssimo, a professora drag queen faz crítica cultural, fala de literatura, politica, dá destaque ao feminismo – em uma perspectiva claramente de esquerda. Guilherme Terreri é graduado em artes cênicas pela UniRio e em letras pela USP. Intelectual jovem e rigoroso, baita educador e artista. Seu sucesso no youtube lhe abriu várias portas – inclusive na grande mídia. A personagem Rita virou estrela de programas televisivos (Drag Me as a QueenAcademia de Drags).

A mim me admira como Terreri maneja sua persona artística, a vocação educadora e a militância política. Não abre mão de falar para muita gente, recusando guetos – o que alguns chamam de raquear o sistema. Rita/Guilherme tem alcançado um delicado equilíbrio: militância socialista, integridade artístico-teórica e inserção na mídia.

Terreri, moço lindo e carismático, que ainda não completou 30 aninhos já ocupa lugar importante em nosso cenário político-cultural. Tem contribuído – criativa e consistentemente – para a formação de ativistas de esquerda, principalmente jovens, mulheres, LGBTI.

Registrando minha identificação e admiração – não posso deixar de dialogar abertamente com Guilherme/Rita. Penso que ele errou ao avaliar o cenário eleitoral e dizer que não votará em Lula.

Sou militante e dirigente do PT. Compartilho com Guilherme/Rita as críticas aos limites da candidatura e do programa que vem se desenhando na campanha Lula-2022. É urgente um governo de esquerda. Com plataforma democrático-popular – comprometido com reformas profundas (reforma agrária, reforma urbana, dos meios de comunicação, reforma política, reforma do Estado, investimento público para gerar emprego).

Não bastará tão somente desfazer as maldades do neofascismo e do neoliberalismo. Não será suficiente vencer Bolsonaro nas urnas – o que também não vai ser fácil. Um novo governo Lula tem de reconstruir sim – mas também transformar radicalmente o país. Avançar na direção de transformações estruturais– apontar para o país um horizonte novo.

Assim como Rita/Guilherme, também sou crítico à aliança do PT com Geraldo Alckmin e aos acenos que Lula faz às classes dominantes (supostamente democráticas). Uns tais setores do andar de cima que não sabemos direito nem quais são e muito menos se aceitarão de fato um governo progressista.

Por outro lado, não dá ignorar o tamanhão do desafio. Derrotar o neofascismo é urgência, máxima prioridade, uma batalha duríssima. O melhor caminho para fazer avançar mais o programa passa por disputar por dentro dos partidos e da campanha. Ou seja, incidir interna e publicamente nos rumos dessa caminhada, mas sempre a partir de uma adesão orgânica: Lula-2022.

A movimentação pró-Lula tem tudo para se transformar em uma onda gigante, massiva. Um amplo movimento civilizatório, democrático, diverso, popular, nacionalmente enraizado – campanha política e cultural, capaz de convencer, seduzir e movimentar milhões Brasil afora.

Praticamente todos setores progressistas da sociedade brasileira (partidária e social) estão desde já engajados na campanha Lula-Presidente – exceto, ao que parece, PCB e PSTU. O PSTU lançará a candidatura presidencial de Vera Lúcia (que teve parcos 55 mil votos em 2018 e não se elegeria nem deputada federal). O PCB apresenta como candidata Sofia Manzano (quem?).

Com todo respeito a ambas companheiras, é triste pensar no papel que estão a desempenhar e na votação ridícula que alcançarão. Tenho sinceras dificuldades em compreender o sentido dessa tática supostamente de autoconstrução – que de fato nada constrói, só isola estigmatiza PSTU e PCB.

Voltando. O sábio Tio Ben ensinou ao jovem Peter Parker, futuro Homem Aranha: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Guilherme/Rita é gigante. Tem poder e muita responsabilidade. O alcance imenso de sua voz não combina, portanto, com flertes a setores sectários – ou com acenos simpáticos para vanguardinhas auto-proclamatórias.

Gui Terreri: nunca te vi, sempre te amei. Sou teu fã e continuarei sendo. Vamos conversar sobre estratégia/tática/programa/partido, luta social e luta partidária, limites da democracia burguesa, 2022, o que fazer nos próximos anos, a urgência de eleger Lula?. Como melhor fazer os tensionamentos à esquerda – e sobre literatura, vida e arte?

O destaque que o PIG – Partido da Imprensa Golpista – deu à posição “anti-Lula” da Rita/Guilherme é gritante evidência tanto do tamanho do erro quanto da dimensão da Rita. Dessa vez nossa diva, nosso intelectual orgânico não acertou.

Queremos mais, merecemos mais. Guilherme tem toda razão. Avançaremos muito pouco se o governo Lula for manietado, se tiver horizontes rebaixados, se não mobilizar os movimentos sociais para enfrentar os neoliberais e neofascistas.

Qual o melhor caminho para fortalecer a estratégia, a tática e o programa socialista no Brasil? Como edificar um polo de esquerda, revolucionário com estrutura, militância e inserção nas massas? Quais as alianças, qual o programa, qual a melhor tática? Como derrotar o neofascismo, articulando luta social e luta institucional? É um baita debate, Guilherme. Votar no PCB não ajuda em nada, cá entre nós.

Modestamente, proponho à Guilherme Terreri, certo pragmatismo, pensando mesmo em autodefesa. Como gays militantes de esquerda somos alvos prioritários das hordas bolsonaristas. Vamos nos jogar na campanha Lula, disputar “por dentro”? E injetar mais marxismo, mais feminismo, mais cultura, mais direitos humanos, mais diversidade sexual, mais, mais, mais. ..

Bora lular logo Dona Rita. Beijos com admiração.

*Julian Rodrigues é professor e jornalista. Ativista LGBTI e de Direitos Humanos; foi coordenador de políticas LGBT da prefeitura de São Paulo (governo Haddad).

Fonte: A terra é redonda eppur si muove

Contextos: Opinião





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