Ainda bem que este
blog foi criado sem grandes pretensões (de periodicidade x, conteúdo y e
resultado z). Os usuários que o acessam não
me cobram textos e, com certeza, percebem que o compromisso aqui assumido é o
de registrar opiniões
(não apenas as minhas mas as que julgo convenientes - no momento oportuno) sobre
fatos correntes que pedem um espaço
maior de discussão (sempre levando em consideração a pertinência do tema, os diferentes
enfoques e abordagens individuais que se propõem a analisar e contextualizar o
assunto proposto).
Para além da exposição minimalista dos "selos" que Mark
Zuckeberg propõe: o dedão de ok e as novas
reações de “amei”, “haha”, “uau”, “triste” e “grr” que podemos postar agora no
face, proponho falar, neste real início de ano, de amenidades – para não soar sisuda. Aliás, como seria esse
emoji?
Pensando nisso, reproduzo o texto de uma menina de 16 anos, que se posiciona sobre a questão que viralizou nas redes sociais e polemizou no Colégio Anchieta de Porto Alegre nos primeiros dias do ano letivo: o uso do short na Escola.
Por Raquel Lang
Ao invés de ensinar que a minha decência e o meu valor
dependem do comprimento do meu short ou do tamanho do meu decote, ensine aos
homens que eu sou a única responsável pela definição da minha decência e do meu
valor. Ensine aos homens o respeito, desconstrua o pensamento de que a roupa de
uma mulher decreta se ela é ou não merecedora de respeito.
Pois bem, é preciso antes de tudo parabenizar as
meninas que criaram tudo isso e que estão lutando por algo que é nosso por
direito. Não devemos deixar que ninguém nos diga o que vestir, muito menos deixar
de usar short porque “distrai” um homem. Nós sabemos que muitas vezes iremos
nos incomodar com comentários ridículos e nojentos, independente da roupa que
estivermos usando. Sim, isso mesmo, independente da roupa. Isso acontece porque
na nossa cultura, infelizmente ainda muito machista, alguns homens se acham no
direito de objetificar e sexualizar o corpo de uma mulher para se superiorizar
diante de nós. O problema principal é que, nas escolas, esse tipo de caráter
deve ser desconstruído, ensinando que o homem deve respeitar o corpo da mulher,
pois afinal, todos devemos ser respeitados.
Que atire a primeira pedra a mulher que anda nas ruas
todos os dias e nunca ouviu um comentário imbecil ou sentiu um olhar invasivo
em cima de seu corpo. Tenho 16 anos e não consigo lembrar da primeira vez que
senti esse tipo de desrespeito. O que posso afirmar, é que com 12 anos já
passava por essas situações. Aos treze, ia e voltava a pé para nadar, andava
cerca de 2km até o clube onde praticava a atividade. Fiz isso por um ano e
meio. Me sentia desconfortável no mínimo cinco vezes por dia, inclusive no
inverno, mesmo de moletom e toda tapada.
Perdi a conta de quantas vezes tive vontade de sair
correndo, vomitar, ou até mesmo de parar e discutir com os seres repugnantes que
me incomodavam. Até hoje passo por isso e sei que não sou a única. Virou rotina
para mim e para muitas mulheres. É tão comum que mal comentamos umas com as
outras, mas sabemos que não estamos sozinhas. Sempre que posso, quando sei que
estou segura, retruco de volta, pois não podemos nos calar. Jamais. Tudo isso
só serviu para me incentivar cada vez mais a lutar contra todos esses
pensamentos e costumes machistas ainda existentes na nossa sociedade. Espero
que todas as mulheres que passam por isso, também lutem a nosso favor.
O Brasil é um país machista, de fato. Não são todos os
homens que entram nesse conceito, mas a taxa de violência praticada por eles
contra mulheres no país é altíssima, por isso, peço a todos que comecem a
pensar um pouco mais sobre esse assunto, pois isso começa desde cedo, na base
da educação. E não, não é “mimimi” ou “vitimismo”. São fatos. Portanto, cortem
aquela piadinha desrespeitosa, aquele comentário nojento, cortem as pessoas que
querem objetificar e sexualizar a mulher e dizer que precisamos nos
“valorizar”. Não é a nossa roupa ou com quantos homens nos relacionamos que os
outros poderão dizer se somos ou não decentes. E ninguém vai “se dar ao
respeito” porque ele já é nosso. Todos merecem respeito e todos devem saber
respeitar. Aqueles que não sabem, terão que aprender.
Por fim, mais uma vez parabéns às meninas envolvidas
no manifesto mencionado inicialmente, vai ter shortinho sim! Saibam que não
estão sozinhas nessa e em todas as outras lutas que estão por vir! Tudo isso
trouxe à tona muitas polêmicas e tabus que vão além do shortinho. Rolaram
muitos comentários que transparecem mentes fechadas e pouca gente disposta a
ouvir o que nós temos para dizer. Mesmo assim, por mais que apareçam inúmeros
pronunciamentos ignorantes e machistas, não podemos ficar no comodismo,
esperando que as coisas mudem sozinhas. Não somos obrigadas a aturar certas
coisas e muito menos a permanecer caladas. Portanto, para os machistas de
plantão, vai ter shortinho sim, vai ter discussão sim, vai ter textão sim, e
aos poucos, nós vamos conseguindo o respeito que está faltando por aí com esse
barulho maravilhoso.
Revista
YOLO (Opinião).
