quarta-feira, 2 de março de 2016

Polêmica do short



Ainda bem que este blog foi criado sem grandes pretensões (de periodicidade x, conteúdo y e resultado z).  Os usuários que o acessam não me cobram textos e, com certeza, percebem que o compromisso aqui assumido é o de registrar  opiniões (não apenas as minhas mas as que julgo  convenientes - no momento oportuno) sobre fatos correntes que pedem um espaço maior de discussão (sempre levando em consideração a pertinência do tema, os diferentes enfoques e abordagens individuais que se propõem a analisar e contextualizar o assunto proposto). 

Para além da exposição minimalista dos "selos" que Mark Zuckeberg  propõe: o dedão de ok e as novas reações de “amei”, “haha”, “uau”, “triste” e “grr” que podemos postar agora no face, proponho falar, neste real início de ano, de amenidades  – para não soar sisuda. Aliás, como seria esse emoji?

Pensando nisso, reproduzo o texto de uma menina de 16 anos, que se posiciona sobre a questão que viralizou nas redes sociais e polemizou no Colégio Anchieta de Porto Alegre nos primeiros dias do ano letivo: o uso do short na Escola.



Por Raquel Lang

Ao invés de ensinar que a minha decência e o meu valor dependem do comprimento do meu short ou do tamanho do meu decote, ensine aos homens que eu sou a única responsável pela definição da minha decência e do meu valor. Ensine aos homens o respeito, desconstrua o pensamento de que a roupa de uma mulher decreta se ela é ou não merecedora de respeito.

Pois bem, é preciso antes de tudo parabenizar as meninas que criaram tudo isso e que estão lutando por algo que é nosso por direito. Não devemos deixar que ninguém nos diga o que vestir, muito menos deixar de usar short porque “distrai” um homem. Nós sabemos que muitas vezes iremos nos incomodar com comentários ridículos e nojentos, independente da roupa que estivermos usando. Sim, isso mesmo, independente da roupa. Isso acontece porque na nossa cultura, infelizmente ainda muito machista, alguns homens se acham no direito de objetificar e sexualizar o corpo de uma mulher para se superiorizar diante de nós. O problema principal é que, nas escolas, esse tipo de caráter deve ser desconstruído, ensinando que o homem deve respeitar o corpo da mulher, pois afinal, todos devemos ser respeitados.

Que atire a primeira pedra a mulher que anda nas ruas todos os dias e nunca ouviu um comentário imbecil ou sentiu um olhar invasivo em cima de seu corpo. Tenho 16 anos e não consigo lembrar da primeira vez que senti esse tipo de desrespeito. O que posso afirmar, é que com 12 anos já passava por essas situações. Aos treze, ia e voltava a pé para nadar, andava cerca de 2km até o clube onde praticava a atividade. Fiz isso por um ano e meio. Me sentia desconfortável no mínimo cinco vezes por dia, inclusive no inverno, mesmo de moletom e toda tapada.

Perdi a conta de quantas vezes tive vontade de sair correndo, vomitar, ou até mesmo de parar e discutir com os seres repugnantes que me incomodavam. Até hoje passo por isso e sei que não sou a única. Virou rotina para mim e para muitas mulheres. É tão comum que mal comentamos umas com as outras, mas sabemos que não estamos sozinhas. Sempre que posso, quando sei que estou segura, retruco de volta, pois não podemos nos calar. Jamais. Tudo isso só serviu para me incentivar cada vez mais a lutar contra todos esses pensamentos e costumes machistas ainda existentes na nossa sociedade. Espero que todas as mulheres que passam por isso, também lutem a nosso favor.

O Brasil é um país machista, de fato. Não são todos os homens que entram nesse conceito, mas a taxa de violência praticada por eles contra mulheres no país é altíssima, por isso, peço a todos que comecem a pensar um pouco mais sobre esse assunto, pois isso começa desde cedo, na base da educação. E não, não é “mimimi” ou “vitimismo”. São fatos. Portanto, cortem aquela piadinha desrespeitosa, aquele comentário nojento, cortem as pessoas que querem objetificar e sexualizar a mulher e dizer que precisamos nos “valorizar”. Não é a nossa roupa ou com quantos homens nos relacionamos que os outros poderão dizer se somos ou não decentes. E ninguém vai “se dar ao respeito” porque ele já é nosso. Todos merecem respeito e todos devem saber respeitar. Aqueles que não sabem, terão que aprender.



Por fim, mais uma vez parabéns às meninas envolvidas no manifesto mencionado inicialmente, vai ter shortinho sim! Saibam que não estão sozinhas nessa e em todas as outras lutas que estão por vir! Tudo isso trouxe à tona muitas polêmicas e tabus que vão além do shortinho. Rolaram muitos comentários que transparecem mentes fechadas e pouca gente disposta a ouvir o que nós temos para dizer. Mesmo assim, por mais que apareçam inúmeros pronunciamentos ignorantes e machistas, não podemos ficar no comodismo, esperando que as coisas mudem sozinhas. Não somos obrigadas a aturar certas coisas e muito menos a permanecer caladas. Portanto, para os machistas de plantão, vai ter shortinho sim, vai ter discussão sim, vai ter textão sim, e aos poucos, nós vamos conseguindo o respeito que está faltando por aí com esse barulho maravilhoso.

Revista YOLO  (Opinião).