por Maria
Fernanda Rodrigues,
O Estado de S. Paulo, 06/08/16
O Estado de S. Paulo, 06/08/16
A frouxidão de
nossa era está novamente sob escrutínio do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
Criador do conceito de modernidade líquida, que acusa a fragilidade das
relações atuais, ele se volta às angústias destes “dias de interregno”: quando
os velhos jeitos de agir já não servem, mas os novos não foram inventados.
“Trinta anos de orgia consumista resultaram em um estado de emergência sem
fim”, diz – e indica uma saída: “O que pensávamos ser o futuro está em débito
conosco. Para superar a crise, temos de ‘voltar ao passado’, a um modo de vida
imprudentemente abandonado”
Zygmunt
Bauman presenciou os principais acontecimentos do século 20 e na virada do
milênio criou uma teoria que levaria seu nome para além do campo da sociologia
e o tornaria um escritor best-seller – sobre a liquidez da sociedade, das
relações, do nosso tempo.
Um
dos principais pensadores da modernidade, este polonês prestes a completar 91
anos não perde um debate, e tudo que o inquieta é transformado em livro.
Fecundo
autor, já escreveu cerca de 70 títulos – entre os mais de 30 publicados no
Brasil, todos pela Zahar, estão Modernidade
Líquida, Amor
Líquido e o mais recente A
Riqueza de Poucos Beneficia Todos Nós? Ele está lançando agora Babel –
Entre a Incerteza e a Esperança, mas, nesta entrevista concedida ao
Aliás, já
anuncia uma nova obra para 2017, Retrotopia,
e comenta sobre Strangers
at Our Door, de 2016 e ainda inédito aqui.
Babel fala do interregno – termo usado por
Bauman e pelo jornalista Ezio Mauro, seu interlocutor na obra – em que estamos
vivendo. Um tempo entre o que não existe mais e o que não existe ainda. De
incertezas e instabilidade. Para eles, não há, no momento, movimento político
que ajude a minar o velho mundo e esteja preparado para herdá-lo. Um período em
que testemunhamos uma guinada conservadora geral, a instalação do medo devido a
ameaças terroristas constantes – a ponto de um grupo de espanhóis confundir uma
flashmob com um ataque e entrar em pânico – e as crises diversas – econômica,
política, migratória, e, sobretudo da democracia que, depois de muito esforço
para derrotar ditaduras, ainda precisa lutar diariamente por sua supremacia e
para provar sua legitimidade, como apontam os autores. A seguir, trechos da
entrevista de Bauman, professor emérito das universidades de Varsóvia e de
Leeds.
Quando o sr. criou
o conceito de modernidade líquida, vivíamos tempos melhores ou piores? O
conceito ainda se aplica hoje ou já caminhamos para um outro tempo? Que
interregno é esse que estamos vivendo e o que acontece depois?
Como medir a relativa excelência do nosso estilo de vida? Em que
aspectos, por quais critérios? E quem são os “nós” cuja vida queremos analisar?
Entre os diferentes setores da sociedade nem o ritmo e nem as direções tomadas
são coordenadas (pense no fabuloso crescimento da renda e da riqueza dos 1% que
estão no topo da hierarquia social frente à estagnação ou mesmo piora do nível
de vida dos restantes 99%, e a outrora confiante classe média se juntando ao
‘proletariado’ ortodoxo para formar uma nova categoria, do ‘precariado’ –
notória pela posição social frágil e suas perspectivas indefinidas). No geral,
podemos dizer que 15 anos depois da publicação de Modernidade
Líquida, a nova era, ainda incipiente e pouco percebida em meio a
30 anos de orgia consumista, de gastar dinheiro não ganho e de viver o pouco
tempo que resta em novos bairros já moribundos está chegando à sua total
fruição: estamos vivendo à sombra de suas consequências. E isso significa
incerteza existencial, medo do futuro, uma perpétua ansiedade e uma sensação de
urgência sem fim, com a primeira geração do pós-guerra sentindo a queda do
nível de bem-estar social conseguido por seus pais e, na vida pública, a perda
total de confiança na capacidade dos governos cumprirem suas promessas e o
dever de proteger os direitos dos cidadãos e atender aos seus interesses. O fim
desta confiança engendra, por outro lado, um ambiente em que ‘ninguém assume o
controle’, em que os assuntos do estado e seus sujeitos estão em queda livre, e
prever com alguma certeza que caminho seguir, sem falar em controlar o curso
dos acontecimentos, transcende a capacidade humana individual e coletiva. O
‘interregno’ significa que velhas maneiras de agir não dão mais resultado,
contudo, as novas ainda precisam ser encontradas ou inventadas. Ou: tudo pode
acontecer, mas nada pode ser feito e visto com certeza.
De
repente, parece que o mundo virou de ponta-cabeça: ameaças terroristas,
crises econômicas, sociais e migratórias – e uma guinada conservadora está
em curso. Como chegamos até aqui? Isso foi uma surpresa?
A
probabilidade dos fenômenos que você mencionou foi sugerida – na verdade,
inferida – pelos sintomas que se acumulam da cada vez mais ampla separação,
beirando o divórcio, do poder (ou seja, a capacidade de realizar as coisas) e
da política (a capacidade de decidir quais coisas necessitam ser feitas). Essas
duas condições indispensáveis para uma ação efetiva até mais ou menos 50 anos
atrás caminhavam de mãos dadas no Estado-nação, mas se separaram e seguiram
destinos diferentes: enquanto o poder em grande medida ficou ‘globalizado’ – e
se tornou ‘extraterritorial’, livre de controles, direção e orientação por
instituições políticas – a política permaneceu como antes, local, confinada ao
território do Estado e impotente diante da influência importante dos poderes
que não se submetem a controles e que são os que importam na escala global.
Hoje, os poderes emancipados do monitoramento e da supervisão política
enfrentam políticos pé no chão e sofrendo o contínuo, e até agora incurável,
déficit de poder. Vivemos uma crise institucional permanente. Os instrumentos
de ação coletiva herdados dos nossos ancestrais e cujo fim foi servir à causa
da independência de estados territorialmente soberanos não são mais adequados
nesta situação de interdependência mundial criada pela globalização do poder.
A atual crise da
democracia, e, portanto, a crise das instituições democráticas, como o sr.
coloca, são importantes tópicos de ‘Babel’. O senhor diz que os governos
democráticos são instáveis porque tudo está fora de controle, e que a
democracia não é autossuficiente. Qual é a real ameaça que enfrentamos? E qual
é a origem desta crise?
Uma
advertência: ‘crise de democracia’ é uma abreviação, uma noção limitada. Em
países com constituições democráticas, a crise de um Estado-nação
territorialmente confinado é culpa (afirmação fácil, mas não muito competente)
de seus órgãos e características definidos constitucionalmente, com a divisão
de poderes, liberdade de expressão, equilíbrio de poderes, direitos das
minorias, para citar alguns. Mas se a democracia está ‘em crise’ é porque o
Estado-nação territorialmente soberano (concebido em 1648 pelo Tratado de
Westfalia e cuja fórmula é cuius regio eius religio – os súditos obedecem ao
governante) está em crise, incapaz de atacar e enfrentar, sem falar em
solucionar, problemas gerados pela nova interdependência da humanidade.
Houvesse um governo autoritário ou ditatorial substituindo um regime
democrático, os órgãos políticos resultantes não estariam livres da fragilidade
dos órgãos de governos democráticos que ele substituiu e pela qual a democracia
hoje é acusada. Quero acrescentar que o veredicto atribuído a Winston Churchill
(“democracia é o pior dos sistemas políticos, à exceção de todos os outros”)
continua verdadeiro até hoje. Para não dar confusão, acho que é aconselhável
evitar atribuir responsabilidades pela impotência observada hoje dos Estados
territorialmente soberanos e, em vez disso, analisar a incongruência
fundamental do nosso tempo ansiando por uma revisão radical das ideias e uma
reformulação das formas de coabitação da humanidade na Terra. Segundo Ulrich
Beck, essa incongruência deriva do fato de que nós todos, gostemos ou não, já
estamos inseridos numa situação cosmopolita, mas não nos preparamos seriamente
para a tarefa extremamente urgente de desenvolver e assimilar a consciência
cosmopolita.
No Brasil existe um
grupo pedindo a volta dos militares ao poder e outro dizendo que o processo de
impeachment contra a presidente Dilma Rousseff é golpe político. Na Turquia, os
militares tentaram tomar o poder. De onde vem essa vontade de “ordem”? O quão
prejudicial isso pode ser para o atual estado das coisas? Enquanto isso, Trump
conquista legitimamente mais e mais eleitores. O que sua vitória pode
representar para o mundo? E o que sua ascensão nos diz sobre os EUA de
hoje?
O problema não é o número crescente, em vários países, de
pretendentes a regimes autoritários, mas do ainda mais rápido crescimento de
seus devotados apoiadores. Não é uma questão sobre os que querem o poder (eles
sempre serão muitos, já que a demanda popular por eles é abundante), mas sobre
a ampliação da demanda pelos serviços que eles falsamente prometem que
constitui indiscutivelmente o mais perigoso dos desafios futuros que
enfrentaremos. Aproveito para citar, neste aspecto, um fragmento do meu recente
livro Strangers
At Our Doors: “Numa flagrante violação da intenção e das promessas
modernas de substituir as incertezas do destino por uma ordem coerente das
coisas, sem ambiguidades, orientada por princípios morais de justiça e
responsabilidade – assegurando assim uma correspondência estrita entre as
aflições dos humanos e suas opções comportamentais –, os humanos hoje veem-se
expostos a uma sociedade repleta de riscos, mas vazia de certezas e garantias.
A primeira causa é a transcendental ‘individualização’, codinome dos que
representam para a imaginada insistência da ‘sociedade’ em subsidiar a tarefa
de resolver os problemas gerados pela incerteza existencial com recursos
eminentemente inadequados exigidos dos próprios indivíduos. (...) Como
Byung-Chul Han sugere, nossa ‘sociedade de desempenho’ se especializou numa
mudança no campo da manufatura e no expurgo de ‘depressivos e desajustados’.
Eles são simultaneamente vítimas e cúmplices do seu fracasso e da depressão que
ao mesmo tempo é causa e consequência. (...) Com os poderes do alto lavando as
mãos e rejeitando seu dever de tornar a vida das pessoas suportável, as
incertezas da existência humana são privatizadas, a responsabilidade para
enfrentá-las tem de ser arcada pelo frágil indivíduo, enquanto as opressões e
calamidades existenciais são descartadas como tarefas tipo ‘faça você mesmo’ a
serem executadas pelo indivíduo que padece. (...) Para o indivíduo que se vê
abandonado e desalojado com a retirada do Estado, a ‘individualização’
pressagia uma nova precariedade da condição existencial: uma situação ruim que
se torna cada vez pior.” Agora este é um contexto psicossocial em que a ânsia
de um homem forte (ou mulher) que proponha ‘me deem o poder absoluto e eu o
libertarei das tormentas de riscos que você não consegue enfrentar e das
decisões que não consegue tomar’, só se expande.
Onde estão nossas
utopias? Estamos perdendo nossa capacidade de sonhar?
Acho
que uma mudança transcendental é provável. Ao sonharmos com uma sociedade mais
acolhedora e uma vida decente e significativa, avançamos gradativamente da
utopia (lugar ainda inexistente, mas à espera no futuro) para o que chamo de
‘retrotopia’ (‘volta ao passado’, ao modo de vida que foi exageradamente, irrefletidamente
e imprudentemente abandonado). Trato disso no meu novo livro,
<CF742>Retrotopia</CF>, a ser publicado pela Polity Books em 2017.
Podemos concluir que passado e futuro estão nesse quadro intercambiando suas
respectivas virtudes e vícios. Agora é o futuro que parece ter chegado ao tempo
de ser ridicularizado, sendo primeiro condenado pela falta de confiança e
dificuldade de manejar e que está em débito. E agora o passado é o credor – um
crédito merecido porque neste caso a escolha ainda é livre e o investimento é
na esperança na qual ainda se acredita.
O senhor é otimista
com relação ao futuro próximo do mundo? A esperança é mesmo imortal, como o
senhor afirma em ‘Babel’?
Procuro
seguir o preceito de Antonio Gramsci: ser pessimista a curto prazo e otimista a
longo prazo. Afinal, esta não é a primeira crise na história da humanidade. De
alguma maneira, as pessoas encontraram meios para superá-las no passado. Eles
podem (e é essa capacidade que nos torna humanos) repetir a façanha mais uma
vez. A única preocupação é: quantas pessoas pagarão com suas vidas
desperdiçadas e oportunidades perdidas até que isto ocorra?
