quarta-feira, 23 de maio de 2018

Senhores da razão





De uns tempos pra cá, o ódio de classe só tem aumentado o abismo  que existe entre o conhecimento e a ignorância neste país.

Alguns intelectuais estão irritados porque os “tolos da aldeia” (termo usado por Umberto Eco para designar as pessoas que antes da internet discutiam somente numa mesa de bar) estão querendo competir com eles, os doutos do saber.  

Antes de morrer, Eco deixou um recado aos que usam as redes para opinar, afirmando que em um boteco, todos podem falar o que lhes vêm à cabeça, e isso não prejudica a coletividade. Disse ele que hoje “as mídias deram voz aos imbecis” e “qualquer tolo de aldeia pode ser o portador de uma suposta verdade planetária”. E outros intelectuais seguem a fala e a profetizam como fundamento da verdade.

Podemos até concordar. Há idiotas de todos os tipos:  letrados, iletrados,  espertos, ingênuos, os que são da direita, os que são da esquerda, e por aí vai.

Mas, pessoas sensatas e minimamente informadas se expõem e se manifestam nas redes sociais para, de fato, motivarem os que ainda estão dormindo, para poder dizer: alô, tá na hora de acordar, gente!

Não são tolos os que pretendem despertar a consciência crítica daqueles que não querem saber de política (por medo, ignorância ou indiferença) nem se importam com os problemas que estão afetando a sociedade, como a corrupção, os abusos de poder, a deficiência nos serviços públicos (entre tantos outros que temos no Brasil), problemas esses que precisam ser urgentemente enfrentados e combatidos pela coletividade. É normal e necessário que se expressem nos meios que podem produzir movimentos de  resistência e de mudança, como protestos e manifestações de rua, por exemplo.

Pessoas minimamente esclarecidas expõem sua inconformidade diante da estupidez humana e da falta de humanidade que se fazem presentes nas discussões das redes sociais.

Pessoas que conseguem minimamente discernir entre o real e o ilusório, reagem à prepotência, ao engodo e à arrogância  evidenciados nos discursos dos grupos considerados superiores nos embates que se travam nos meios digitais.

Pessoas, de modo geral, constroem o pensamento a partir de referências, de condições de existência, experiências e oportunidades. A voz, portanto, mesmo que estigmatizada por uma estrutura que a torna desigual e menor perante outras, é um importante instrumento de luta contra as desigualdades, as imposições ideológicas e os retrocessos de toda ordem. A ágora agora é a internet. Para o bem ou para o mal. E temos de usá-la.

Mas os doutos do saber, os novos intelectuais da direita,  deram para reclamar dos "imbecis" que, em vez de cuidarem de suas vidas, dos seus negócios e das suas famílias, estão aí, emitindo “opiniões imprescindíveis”. Eles dizem que “estão cheios do vale-tudo cultural nas redes sociais”.

Mário Corso (em sua coluna na ZH, pág, 62, 06/05/17) é um intelectual (será jornalista também?) que não quer dividir sua sapiência com ninguém. Diz que todos se acham no direito de elaborar receitas de salvação do mundo, todos são "gênios", ironiza ele. 

Luiz Felipe Pondé (nos diversos vídeos veiculados no youtube) reclama da grande acessibilidade que as mídias dão a vozes que antes não tinham relevância alguma.

São duas posturas elitistas, a meu ver. Pondé não gosta desse "mimimi" e diz que se fosse elite estaria encerrado dentro de uma universidade, fazendo tramoias para produzir textos irrelevantes que ninguém lê.

O filósofo não se considera parte da elite, mas rotula como “achismo” e “crença ingênua” tudo o que o tolo diz (ele prefere usar a palavra grega doxa – para dar sentido ao termo). Assim, ele consegue ridicularizar e anular a fala do outro. 

A ideia é desqualificar os argumentos que não se encaixam nos discursos que só os doutos do saber podem promover como verdadeiros e válidos (na ditadura militar, isso se chamava censura).

Além disso, tenta-se passar uma visão de que não teremos garantia alguma de não sermos coagidos por imbecilidades, tanto por aqueles que detêm conhecimentos quanto por aqueles que não têm repertório algum.    

Mas, se a tarefa dos intelectuais é promover o esclarecimento,  o processo de emancipação do sujeito, pelo  uso da razão, do conhecimento, por que não usam esses espaços para isso? Por que não utilizam a retórica dos discursos filosóficos, que dominam tão bem, para tentar desamarrar as correntes da ignorância que prendem os tolos ao chão, à ilusão e ao atraso? Por que não propõem formas possíveis de percepção e racionalidade para que os pobres tolos tenham a oportunidade de pensar o mundo de maneira sensata, adequada e coerente?

Enquanto formos tratados apenas como idiotas não haverá dispositivos capazes de inibir o avanço dos verdadeiros oportunistas. Esses sim, os iluminados: os únicos senhores da razão e do conhecimento.

Eles acham que podem exercer o papel da Inquisição em pleno séc. XXI.

por Lene Franck