sábado, 28 de novembro de 2015

Uber versus táxis (por dentro do conflito)

por Fernanda Franck, Porto Alegre

Vamos esclarecer os fatos, diante de tantos comentários estúpidos que tenho visto nas redes sociais.

Para que serve o Uber? O Uber é um aplicativo que permite ao cidadão chamar um motorista que forneça um serviço semelhante ao serviço de Táxi. Correto? Uma espécie de "carona coletiva privada", eu diria.

No meu ponto de vista, não acho nem um pouco seguro tu entrares num carro com pessoas desconhecidas, para pagar menos. Mas, cada um arrisca o seu pescoço como bem entender. Em segundo lugar, não é um serviço legalizado.

     No entanto, NÃO CONCORDO, em hipótese alguma, com o que ocorreu com o motorista no estacionamento do Carrefour, aqui em Porto Alegre, na última quinta-feira.

A VIOLÊNCIA NUNCA IRÁ LEVAR À NADA, a não ser à degradação do ser humano.

O que ocorre (e na maioria das vezes, inclusive, onde o assunto é “taxista”) é que levam junto e para o lado negativo uma categoria de pessoas que trabalha HONESTAMENTE, TODOS os dias, arriscando suas vidas, porque não se tem segurança alguma para trabalhar! Sim, porque os assaltos aos taxistas estão cada vez mais cruéis. E, aqui em Porto Alegre, não se têm cabines fechadas nos carros de táxi e à prova de tiros, como em outras cidades!

Segurança - eis aí uma questão que não somente afeta os taxistas, mas todas as categorias de trabalho: nas ruas, em tudo que é lugar. Não se tem segurança! A violência cresce cada vez mais - até quando se está numa parada de ônibus escura, tarde da noite. Quando chega teu ônibus, tu pensas: "ufa, agora estou seguro". Dentro dos ônibus, no entanto, não se está seguro! Estão matando a esmo em qualquer lugar!

Meu pai é taxista, já trabalha na área há alguns anos. Tem motoristas que trabalham pra ele, com clientes fidelíssimos. Eles e meu pai trabalham de maneira HONESTA e sempre muito atenciosos com o pessoal que eles atendem. Nunca houve problemas com nenhum passageiro. Não só meu pai. Tenho amigos taxistas, que trabalham com isso porque gostam, o fazem com prazer.

Então, ficar dizendo por aí, a torto e a direito, que taxista “é tudo ladrão”: cuidado com o que vocês dizem, porque não são todos! Há uma minoria que leva pra lama vários trabalhadores que suam a camisa para trazerem o pão de cada dia para dentro de suas casas!


Taxista é sim uma profissão digna de respeito! No mínimo, RESPEITE!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Liberdade de imprensa e constrangimentos



A Constituição Federal em seu art. 220, determina que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerá qualquer restrição. Também consagra, em seu art. 5º, Inc. V, o direito de resposta como direito fundamental, ao lado da liberdade de informação.

Com a nova Lei (13.188), sancionada no último dia 11 de novembro pela Presidência da República, esse direito de resposta passa a ser regulamentado (havia um vácuo normativo na constituição em relação à Lei de Imprensa).

Agora quem se sentir ofendido por reportagem jornalística publicada ou exibida nos meios de comunicação poderá exigir o direito de resposta.

Esse direito será garantido quando uma reportagem atentar, “ainda que por equívoco de informação, contra a honra, a intimidade, a reputação, o conceito, o nome, a marca ou a imagem de pessoa física ou jurídica identificada ou passível de identificação”. 

Mas já há ações na Justiça para derrubar a nova lei. A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) pediu ao STF que declare todo o texto inconstitucional. Pede, de forma alternativa, a anulação de alguns trechos, especialmente os relativos aos trâmites do processo judicial.

Num dos artigos da nova lei, é possível que a pessoa ofendida entre na Justiça mesmo que o veículo tenha feito a retratação ou retificação espontânea. Em outro artigo, concede 24 horas para o órgão apresentar razões ao juiz por não ter publicado a resposta solicitada pela parte ofendida e mais três dias para contestar.

Essencialmente, são esses os pontos atacados pela ABI. Mas há mais ecos e críticas por parte da imprensa à nova lei.
   
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo afirma que “a população, em vez de ser informada, será brindada com uma versão possivelmente inverídica, mas chancelada pelo Judiciário”. 

Alguns jornalistas dizem que empresas e políticos envolvidos em irregularidades poderão, por exemplo, desencadear uma guerra de contra-informação prejudicial ao público.

O editorial da Zero Hora, de domingo (22/11) afirma que a lei abre um precedente perigoso para o constrangimento da imprensa e para a autocensura.  “E se um criminoso sentir-se ofendido ao ver seu nome ou seu crime noticiado?” – questiona o editorial, desconsiderando que uma das premissas básicas do jornalismo investigativo é pautar-se na credibilidade da informação (veracidade dos fatos), em que se pressupõe, seja obtida de fontes seguras e confiáveis e não através de suposições de terceiros, o que ensejaria realmente um direito de resposta ao ofendido. Se o fato é verdadeiro e foi noticiado, certamente não causará constrangimentos à imprensa, independentemente de o envolvido ter ou não direito a uma resposta.

Diz também o editorial que “a suscetibilidade ferida não pode ser motivo para um direito de resposta”. Se os editores entendem que os conceitos contidos na norma, tais como honra,  intimidade,  reputação, imagem, podem ser traduzidos e sintetizados  em palavras como “suscetibilidade”, então realmente a questão está sendo analisada de forma bastante simplista e superficial.

Na ação movida pela ABI, consta que "não é aceitável em uma democracia que jornalistas sejam constrangidos e impedidos de exercerem livremente o ofício de informar”.

No entanto, o dispositivo do direito de resposta está presente na constituição desde 1988. O que a lei vem regulamentar agora são as condições e prazos a serem cumpridos. As condições especificam os âmbitos de decisão (as ações devem ser submetidas a um juiz – portanto, deve passar por uma decisão imediata da Justiça e, após,  ser deliberada por um colegiado de magistrados). Basicamente, são os mesmos itens contestados pela imprensa, de modo geral. Os editorialistas argumentam que a lei desconhece o princípio da ampla defesa e do contraditório ao não oportunizar ao suposto ofensor, em prazos e formas iguais, a comprovação da inexistência de ofensa.

Por outro lado, há também críticas às críticas da imprensa.

Algumas pessoas lembram que “se não há direito de resposta, há total hegemonia da imprensa”. Como não dar direito de resposta se a imprensa não é isenta? Como falar em liberdade de imprensa, se não há respeito aos princípios éticos no meio jornalístico?

É uma discussão longa e complexa. Sobretudo, quando os grandes veículos deixam transparecer seus interesses corporativos, evidenciando também suas linhas de posicionamento político (muitas vezes, assumindo o papel dos partidos políticos).

Dizem os juristas que dentro de uma sociedade pluralista e democrática deve haver o espaço para uma imprensa livre. Mas, no âmbito jurídico, as coisas não são bem assim. Em um Estado Democrático de Direito não se deve admitir a existência de um direito à liberdade de imprensa totalmente destituído de qualquer limitação, uma vez que esse poder ilimitado pode se transformar num poder ditatorial. Diz o professor Jonatas Machado da Universidade de Coimbra que “a autonomia redatorial  e programática, decorrente das liberdades de imprensa e radiodifusão, pode ser restringida pelo direito de resposta, na medida em que ela representa uma limitação à liberdade de expressão de generalidades dos indivíduos, surgindo, assim, o direito de resposta como consequência do aligeiramento da mesma, como um limite a um limite”.

O direito de resposta, assim, deve ser compreendido como um limite necessário à liberdade de imprensa, ainda mais se considerarmos o poder de dominação exercido pelos meios de comunicação no Brasil, onde a mídia tenta impor um padrão de pensamento (um modo de pensar) e de comportamento social, sobrepondo-se ao inexpressivo poder do homem comum, ou seja, há uma evidência clara de desigualdade no confronto entre os meios de comunicação social e o cidadão comum.

Além disso, e citando Grandinetti Castanho de Carvalho¹, desembargador e especialista no assunto, é preciso enfatizar as duas  dimensões visualizadas pela liberdade de imprensa: a individual-subjetiva e a garantia institucional, ”já que não se pode conceber a liberdade de imprensa apenas sob seu aspecto de cunho individual, baseada numa liberdade nos moldes da teoria liberal; deve-se vislumbrar também sua garantia institucional, de propagação da informação de interesse público, imbuída da veracidade dos fatos”.

Na verdade, temos que transcender a ideia de que a liberdade de imprensa é uma prerrogativa dos jornalistas ou dos donos dos veículos de comunicação – essa é a visão de uma liberdade restritiva, de cunho liberal. A liberdade de imprensa é um bem de todos, jornalistas ou não, e só vem enriquecer o debate e ampliar o grau de discernimento e julgamento das pessoas em torno de fatos que realmente interessam e afetam a realidade.

Por Lene Franck

(1(1)    CARVALHO, L.G. Grandinetti Castanho de. Liberdade de informação e o direito difuso à informação verdadeira. Rio de Janeiro: Renovar, 2003, p.120-121.



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Inimigos ou instrumentos?

Ariel Gil II , de Lisboa, Portugal

Desculpem a qualidade da imagem, mas achei curioso/interessante tirar uma foto deste papel que vi dentro de um bar hoje, aqui em Lisboa.
Você pode analisar de diversas formas, mas ambas as que eu analisei corroboram com algumas coisas que eu penso. Importante lembrar que sou apartidário e busco minha ideologia própria, sem olhar para movimentos de esquerda e de direita. Então, cito dois pensamentos meus, que vocês podem concordar ou não:
1 - Os "instrumentos" podem ser grupos que formam a maioria das pessoas (ou não) de uma classe social, região, religião, etnia ou compreendidos em diferentes carreiras profissionais - todos tem seus interesses próprios e querem menos impostos também (o que as diferencia, pois há menos, ou mais, impostos dependendo dos seus bens físicos e financeiros).
2 - As maiores armas de um político que faz sucesso, hoje, no Brasil são os seus "inimigos", porque eles (os políticos) sabem como provocar reações de quem não pensa como eles - buscando argumentos graves contra as ideologias de diferentes religiões, opções sexuais, ou classes sociais/carreiras profissionais; e consequentemente, dando mais visibilidade ainda (pra não dizer "publicidade") para estes políticos.
3 - Você já parou pra pensar na influência que isso pode causar à favor do preconceito e da incitação ao ódio, dentro de uma sociedade como a nossa?  E que ainda não possui ferramentas suficientes que lhe permitam, por exemplo, ter um ensino público de extrema qualidade, não dando a oportunidade para muitos jovens saberem discernir a ciência da religião?
Onde eu quis chegar com tudo isso?
Demonstrar minha opinião sobre a maioria dos políticos que vejo em todo o sistema brasileiro, sem esquecer que independente de onde você viver, interesses empresariais estarão presentes.
PS: Curto Nietzsche, mas é foda saber que o nome dele, para muitos, poderia ser interpretado textualmente como uma risada.


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Desejo e consumo



Numa época em que as pessoas começam a se preocupar com as compras de final de ano, e com tudo o que vem embutido nesse pacote (ritualístico/cíclico/imperativo) que despende tempo, dinheiro e paciência, mas que se impõe como “necessário” para atender às expectativas de felicidade que os desejos fazem brotar, pergunto: qual é a relação que o consumo tem com o prazer e a felicidade?
Por que essa paixão/propulsão pelo consumo se tornou tão importante para o ser humano?
Os sociólogos dizem que a partir das transformações que a cultura sofreu em função da crise das instituições (que eram organizadas como pirâmides burocráticas “racionalizadas”, conforme Max Weber, sustentando a sociedade capitalista no início do século XX), e com o aumento das desigualdades econômicas daí advindas, começam a surgir um conjunto de desafios às subjetividades humanas.
Um desses desafios, de acordo com o historiador e sociólogo norte-americano Richard Sennet (2006), diz respeito ao tempo. Quando as mudanças acontecem de forma muito rápida e intensa, o indivíduo se vê obrigado a improvisar a narrativa de sua própria vida, a reorganizar-se constantemente, já que não há tempo para fazer planejamentos de longo prazo.
Outro desafio diz respeito ao talento que passa a ser exigido nas novas organizações de trabalho. A meritocracia começa a mudar a estrutura de poder dentro das instituições,  priorizando o reconhecimento de capacidades potenciais e não mais as experiências passadas.
Ligado a isso, vem o terceiro desafio que é relacionado ao descarte do passado. É preciso “presentificar” a experiência, potencializar a capacidade e o talento. Para viver no mundo atual, no qual o novo é muito valorizado, é preciso abandonar as experiências já vividas, aponta o historiador.
Essas exigências que decorrem das modificações culturais desencadeadas pelas novas estruturas institucionais (pós-fordistas), passam a compor e moldar o capitalismo contemporâneo.
Empresas começam a incorporar o valor estético e emocional aos seus produtos, muito mais do que o valor funcional. Cria-se uma “paixão consumptiva”, diz o autor de “A cultura do novo capitalismo”, que vai se desencadeando à medida em que as pessoas vão comprando produtos: “muito mais do que produtos, elas estão comprando o prazer e o poder”.
O marketing, a publicidade e os meios de comunicação se encarregam de acionar o ”motor da moda” e da “obsolescência planejada”, moldando os desejos dos consumidores. O desapego surge como convite à substituição de objetos que mesmo em condições de uso, devem ser trocados por outros produtos, muito mais novos e atuais.
Zygmund Bauman, sociólogo polonês que discorre sobre a sociedade de consumo em suas obras, enfatiza a questão da obsolescência induzida pela indústria cultural.  Diz ele que “as coisas mudaram tanto que o dilema sobre o qual se cogita hoje em dia é se é necessário consumir para viver ou se o homem vive para poder consumir” (1999). O que interessa, nesse contexto calculado, é a sensação do novo. O que importa na sociedade atual são os desejos dos consumidores, principalmente os desejos ainda não percebidos, pois é através deles que os sujeitos buscam as novidades.
Em suma, o desejo pelo novo é mais forte do que a satisfação de se ter o objeto pretendido.
Baudrillard, outro sociólogo (francês) que se dedicou ao estudo dos impactos da comunicação e das mídias na sociedade e na cultura contemporâneas, relaciona a questão do consumo às associações imaginárias e simbólicas que fazemos para tornar as mercadorias mais atraentes. O que interessa, para o consumidor, “é o significado e o que este pode vir a ter no relacionamento entre as pessoas”.
Nessa mesma linha de pensamento, o filósofo Gilles Lipovetsky, que esteve recentemente em Porto Alegre para participar do 13º Seminário Internacional de Comunicação, na PUCRS, argumenta que “o capitalismo é uma máquina desejante que está em pleno funcionamento: há sempre um novo filme, um best-seler recém-lançado, uma nova viagem a ser programada”. 
Hoje ganha importância a dimensão das experiências individuais de consumo, relacionada às novas tecnologias (celulares, internet, mídias, televisão) que permitem, segundo o ensaísta francês, consumos à la carte. É o consumo emocional, voltado essencialmente ao prazer.
Antes, as pessoas compravam para serem valorizadas em seu ambiente social ou profissional: era um consumo de status. Hoje, quem escuta musica pelo iPod, por exemplo, pratica um consumo hedonístico, para uso individual. 
Relacionar o consumo ao prazer não se torna uma tarefa fácil se considerarmos as condições econômicas, sociais e estruturais existentes no capitalismo hoje praticado e que reduzem e dificultam o acesso aos bens de consumo para  grande parte da população. Há contradições e desigualdades.
Além de tudo, o poder do mercado é avassalador: está sempre se reestruturando e se remodelando para relançar o desejo, sob as mais variadas formas e modelos. E, com o desejo, sobrevêm as patologias sociais (depressão, ansiedade, estresse, insatisfação, solidão).
Por que nunca estamos satisfeitos? Por que temos a necessidade de estar sempre consumindo algum produto novo?
Em parte, porque não vivemos mais em uma sociedade baseada na tradição. Nesse universo, não há lugar para a repetição. Por outro lado, a necessidade de mudança se tornou excitante e nos dá uma sensação de prazer, diz Lipovetsky:  “os indivíduos buscam reverter suas insatisfações e tristezas por meio dessa busca por novidades e essa necessidade se tornou fundamental.”
Todos nós procuramos a felicidade e quando não a encontramos, buscamos preenchê-la com substitutivos que estejam ao nosso alcance. São esses pequenos prazeres trazidos pelo consumo que nos animam e agitam momentaneamente, mas nem sempre preenchem uma necessidade maior de realização e de procura intensa pela satisfação.
Acreditar que objetos de consumo poderão substituir a satisfação profunda e perene que devemos buscar em todos os aspectos de nossas vidas pode ser um grande equívoco.
Esse assunto dá muito pano pra manga!

A propósito, o livro que Lipovetsky vai lançar em breve na França e que deve chegar aqui no próximo ano, com o sugestivo título “Da leveza”, fala da necessidade de se buscar uma paz interior, uma leveza na vida, para fugirmos do ritmo frenético do dia-a-dia e das demandas do consumo. Diz ele:  “estamos cansados de tantas novidades”. Nesse sentido, observa que o cultivo de práticas em busca de uma vida mais zen, como o ioga, a meditação, as formas de religiosidade, massagens e relaxamento, são comportamentos que parecem opostos ao consumismo. Mas não completamente. Enfatiza que na verdade, são maneiras encontradas para repor as forças: as pessoas retomam seus ritmos de vida e voltam a se inserir no sistema. E conclui: “não vamos deixar de consumir e de desejar novidades todo tempo”.


Por Lene Franck



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O que dizer dos dramas e tragédias


Qual fato tem mais importância no ranking de dramas e tragédias atualmente vivenciados no mundo?
Destaco dois textos que fazem menção a isso, no momento em que algumas pessoas buscam hierarquizar os fatos pelo grau de  importância/interferência que têm em suas vidas: “Bombas versus lama” e “A inveja é uma mérde”, ambos publicados no blog msdiario.com, de Fábio Marchi.
Provocativos, os textos denunciam de forma propositadamente cruel a inépcia da população brasileira em reconhecer as suas limitações (no sentido de que há uma parcela significativa de pessoas que tem a propensão a relativizar tudo e a comparar realidades distintas).
“Morrer sufocado pela lama”, pergunta ele, “é pior que ser peneirado por explosivos de homens-bomba ou levar balas de AK-47 nos miolos?”. O que você diria a respeito?
Inicialmente, temos que ter em mente que ações humanas não podem ser comparadas. O professor da PUC/SP e filósofo Mário Sérgio Cortella, analisando os dramas recentes em Mariana (MG) e em Paris, reforça: são dois dramas incomparáveis, mas ambos atingem a cada um de nós.
Poderiam ter sido evitados. Mas são dramas porque decorrem da ação humana.
Por outro lado, tragédias, como a seca, por exemplo, que atinge de forma gradativa a população pobre do sertão nordestino (que não consome os produtos que são anunciados através da grande mídia), não interessa aos meios de comunicação, ressalta Marchi.
Tragédias se referem ao que acontece sem que o ser humano decida, sem que ele tenha responsabilidade sobre o ocorrido. Muitas vezes, são inevitáveis. Mesmo assim, é possível comparar?
O rompimento da barragem em Mariana, assim como o fuzilamento de homens na Síria, o massacre em Paris, e agora o ataque em Mali, são dramas, pois decorrem da ação direta do homem.
É claro que não podemos, em nome do terrorismo, esquecer aquilo que nos atinge, mas olhar o que nos atinge de maneira alguma tem que nos cegar quanto àquilo que está do lado de fora, porque se hoje é em Paris, pode ser aqui amanhã. Se houve negligência em Mariana, pode haver em qualquer outro lugar do mundo no dia seguinte, ressalta o professor Cortella.     
Sim, é verdade.
Quando algumas pessoas teimam em comparar dramas distintos, temos a perda da noção de humanidade, pois tudo aquilo que interessa a “um” ser humano, deveria a priori interessar a “outros” seres humanos também. E, neste momento, acredito que a maioria das pessoas tem a impressão de que essa noção de fraternidade encontra-se fragmentada, diluída no pensamento imediatista e raso que vemos comumente projetado nas redes sociais.
A tendência que temos a transferir responsabilidades, a relativizar a dor e o sofrimento alheios, a diminuir os efeitos de tragédias ou dramas que não nos afetam diretamente, a não exigir o cumprimento das leis, a banalizar a violência, enfim, reforça a ideia já estereotipada do brasileiro acomodado e inerte diante das questões vitais que nos atingem.
Infelizmente, Fábio Marchi tem razão em apontar o dedo para nós brasileiros, que deixamos de exigir seriedade no trato das questões públicas, no cumprimento dos contratos e das parcerias de empresas privadas com o Governo Federal, e, sobretudo, no campo político, onde proliferam interesses pessoais muito mais do que os interesses coletivos. 
E, aqui, sem partidarismos e de forma bastante superficial e resumida, sintetizo a minha opinião sobre o atual cenário político brasileiro: un dégoût (nojo) - para não dizer outra coisa.


Por Lene Franck