sábado, 12 de dezembro de 2015

Crítica da crítica de arte

Até que ponto o jornalismo influencia ou valida os significados de uma exposição artística?

No último dia 08 de  dezembro, o jornalista Tulio Milman escreveu na sua coluna diária de Zero Hora o texto intitulado “Textos que explicam mostras da Bienal são herméticos demais”.

Disse ele:

“Esse fenômeno de falsa erudição, que não nasceu na Bienal e nem é só dela, afasta o público. A Bienal do Mercosul terminou. Pelo esforço de todos em tempos de crise, parabéns. Esperei até o fim do evento para comentar um aspecto incompreensível nesse mundo das artes: os textos que tentam explicar as mostras e as obras são tão herméticos, mas tão herméticos, que só quem os escreveu talvez os entenda. Esse fenômeno de falsa erudição, que não nasceu na Bienal e nem é só dela, afasta o público. Menos arrogância intelectual e mais clareza, é o que diz o bom senso.Abaixo, o trecho de um texto explicativo grafado em uma parede da nossa Bienal.

"(...) emerge a ideia de que a produção artística suscita uma experiência de alteridade na qual as obras não são tratadas apenas como meros objetos, mas como operações conceituais que instigam relações entre um todo e as partes, entre a visibilidade e a potência de significação; bem como com as sensibilidades afetivas que elas podem engendrar entre o espaço da criação das obras e o horizonte de expectativa criado pela sua visibilidade".

Pelo amor de Deus.”

Gaudêncio Fidelis, curador-chefe da Bienal do Mercosul, rebateu o texto no dia seguinte.

"Fiquei chocado com a virulência de sua nota na ZH!

Em primeiro lugar, porque você se acha no direito de chamar a nós, historiadores e curadores, de ignorantes, diletantes ou seja lá o que for, na medida em que escrevemos textos que ninguém entende? E ainda por cima subestima a inteligência do público. Você acha que as pessoas não entendem de arte nem o que está escrito em um texto. Sua fúria e o ódio pela arte ficam claros em sua nota. Você não é historiador de arte, não estudou arte, e não gosta de arte evidentemente. Talvez você esteja movido pelo ódio de algumas pessoas das redes sociais. Não sei, mas me pareceu por hora um Monteiro Lobato do século 21, só que sem a inteligência literária do mesmo.

O ataque à arte tem sido um fenômeno histórico, portanto nada de novo em sua nota, mas esperávamos mais de um jornalista que passou por uma universidade e que deveria ter responsabilidade com um veículo de utilidade pública como o jornal. Sua nota chama todas as mais de 400 mil pessoas que visitaram esta bienal de ignorantes porque elas foram lá, leram os textos e você pressupõe que não os entenderam, já que você, como jornalista, supostamente é mais preparado que todos eles e não os entendeu. Por fim, tem tom de censura porque, pelo xingamento, está dizendo que devemos escrever textos como você, não como expressão didática das exposições".

O que você acha desse tipo de jornalismo que (pelo menos, me dá a entender) tenta nivelar por baixo o entendimento das pessoas acerca da arte ou de quaisquer outras expressões de vida? Concorda ou não?

Eu é que diria: pelo amor de Deus, Tulio!


Por Lene Franck

 



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Manifesto em defesa das instituições democráticas


Intelectuais lançaram nesta semana manifesto público em defesa das instituições democráticas. O documento foi assinado por nomes como Chico Buarque, Emir Sader, Frei Betto, Paulo Betti, Fernando Morais, Chico César e Jorge Mattoso.

Segue a íntegra do documento:


Manifesto em defesa das instituições democráticas

O Brasil vive um momento histórico em que a legalidade e as instituições democráticas são testadas, o que exige opinião e atitude firme de todos e todas que têm compromisso com a democracia.
Desde as eleições de 2014, vivemos um grande acirramento político que permeia as mais diversas relações humanas e sociais. Essa situação ganhou novos ingredientes a partir da eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados e, de forma especial, após este ser denunciado pelo Ministério Público Federal por seu envolvimento em atos de corrupção, possuindo contas bancárias no exterior e ocultando patrimônio pessoal.
Absolutamente acuado pelas denúncias, pelas fartas provas do seu envolvimento em atos ilícitos e enfrentando manifestações em todo Brasil contra a agenda conservadora e retrógrada do ponto de vista de direitos que lidera, Cunha, que já não tem mais nenhuma legitimidade para presidir a Câmara, decidiu enfrentar o Estado Democrático de Direito. A aceitação de um pedido de impedimento da Presidenta da República no momento em que avança o processo de cassação do deputado é uma atitude revanchista que atenta contra a legalidade e desvia o foco das atenções e das investigações.
Neste sentido, viemos a público repudiar a tentativa de golpe imposta por Eduardo Cunha, por não haver elementos que fundamentem esta atitude, a não ser pelo desespero de quem não consegue explicar o seu comprovado envolvimento com esquemas espúrios de corrupção. Não se trata neste momento de aprovar ou reprovar a administração nem a forma como a Presidenta da República governa, mas defender a legalidade e a legitimidade das instituições do nosso país.
Por outro lado, defendemos o cumprimento do Regimento da Câmara dos Deputados e da Constituição Federal, ambos instrumentos com fartos elementos que justificam a cassação do mandato de Eduardo Cunha. Caso contrário, toda a classe política e as instituições brasileiras estarão desmoralizadas, por manter no exercício do poder um tirano que utiliza seu cargo de forma irresponsável para manutenção dos seus interesses pessoais. Apelamos às e aos parlamentares, ao Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal, autoridades cuidadoras da sanidade da política e da salvaguarda da ordem democrática num Estado de Direito, sem a qual mergulharíamos num caos com consequências políticas imprevisíveis. O Brasil clama pela atuação corajosa e decidida de Vossas Excelências.
Não aceitamos rompimento democrático! Não aceitamos o golpe! Não aceitamos Cunha na presidência da Câmara dos Deputados!