Até
que ponto o jornalismo influencia ou valida os significados de uma exposição
artística?
No
último dia 08 de dezembro, o jornalista
Tulio Milman escreveu na sua coluna diária de Zero Hora o texto intitulado “Textos
que explicam mostras da Bienal são herméticos demais”.
Disse
ele:
“Esse
fenômeno de falsa erudição, que não nasceu na Bienal e nem é só dela, afasta o
público. A Bienal do Mercosul terminou. Pelo esforço de todos em tempos de
crise, parabéns. Esperei até o fim do evento para comentar um aspecto
incompreensível nesse mundo das artes: os textos que tentam explicar as mostras
e as obras são tão herméticos, mas tão herméticos, que só quem os escreveu
talvez os entenda. Esse fenômeno de falsa erudição, que não nasceu na Bienal e
nem é só dela, afasta o público. Menos arrogância intelectual e mais clareza, é
o que diz o bom senso.Abaixo, o trecho de um texto explicativo grafado em uma
parede da nossa Bienal.
"(...) emerge a ideia de que a produção
artística suscita uma experiência de alteridade na qual as obras não são
tratadas apenas como meros objetos, mas como operações conceituais que instigam
relações entre um todo e as partes, entre a visibilidade e a potência de
significação; bem como com as sensibilidades afetivas que elas podem engendrar
entre o espaço da criação das obras e o horizonte de expectativa criado pela
sua visibilidade".
Pelo
amor de Deus.”
Gaudêncio Fidelis, curador-chefe da Bienal do Mercosul, rebateu o texto no
dia seguinte.
"Fiquei
chocado com a virulência de sua nota na ZH!
Em
primeiro lugar, porque você se acha no direito de chamar a nós, historiadores e
curadores, de ignorantes, diletantes ou seja lá o que for, na medida em que
escrevemos textos que ninguém entende? E ainda por cima subestima a
inteligência do público. Você acha que as pessoas não entendem de arte nem o
que está escrito em um texto. Sua fúria e o ódio pela arte ficam claros em sua
nota. Você não é historiador de arte, não estudou arte, e não gosta de arte evidentemente.
Talvez você esteja movido pelo ódio de algumas pessoas das redes sociais. Não
sei, mas me pareceu por hora um Monteiro Lobato do século 21, só que sem a
inteligência literária do mesmo.
O
ataque à arte tem sido um fenômeno histórico, portanto nada de novo em sua
nota, mas esperávamos mais de um jornalista que passou por uma universidade e
que deveria ter responsabilidade com um veículo de utilidade pública como o
jornal. Sua nota chama todas as mais de 400 mil pessoas que visitaram esta bienal
de ignorantes porque elas foram lá, leram os textos e você pressupõe que não os
entenderam, já que você, como jornalista, supostamente é mais preparado que
todos eles e não os entendeu. Por fim, tem tom de censura porque, pelo
xingamento, está dizendo que devemos escrever textos como você, não como
expressão didática das exposições".
O
que você acha desse tipo de jornalismo que (pelo menos, me dá a entender) tenta nivelar por baixo o
entendimento das pessoas acerca da arte ou de quaisquer outras expressões de
vida? Concorda ou não?
Eu é que diria: pelo amor de Deus, Tulio!
Por Lene Franck