(selfie de Elaine Strapasson Faccin)
(Por que voltei às
ruas)
João Pedro Gil
Cresci apoiando Lula
(e ouvindo Nei Lisboa). Falo culturalmente. Cultura aqui tomada em seu amplo
sentido etnográfico, construída historicamente, como complexo que inclui
conhecimentos, crenças, leis, costumes ou qualquer outra capacidade das pessoas.
Mais do que Luiz Inácio e o autor de “Para viajar no cosmos não precisa gasolina”, o que me movia na metade dos anos 80 era o projeto de uma política emancipatória e uma
música autoral gerado na base da sociedade.
Fui para Santa Maria,
depois do magistério estadual, tendo em vista uma Universidade que tinha eleito pela
primeira vez no país um reitor por vias democráticas. Era por aí.
Fiz um mestrado em
condições precárias, com o ensino público superior sucateado. Fomos para as
ruas defendendo o projeto popular. Lula representava este projeto. Perdemos a primeira eleição após a conquista da diretas, contra Collor. Perdemos a outra eleição. As condições do
ensino superior iam de mal a pior (isso que tínhamos um acadêmico no poder da
república). Rua de novo. Idas e voltas a Brasília para defender a universidade
pública, gratuita e de qualidade. O senador Fogaça me questionou: por que não
ficou em Porto Alegre fazendo arte? Finalmente, depois de uma reeleição
questionável, um operário, com o apoio de vários partidos é eleito.
O projeto de
soberania do país com avanços sociais seguiu por dois mandatos e chegou a uma
sucessão tranquilamente. As condições de vida melhoraram para 20 milhões de
brasileiros, segundo dados estatísticos. A universidade pública ampliou sensivelmente sua infraestrutura. E também tornou-se mais acessível: basta ver o número
de vagas e a diversidade social e étnica dos aprovados nos últimos processos seletivos. Veio a última eleição e com ela uma disputa acirrada. A realidade
econômica ficou amarga. Não seria tão dura se os perdedores
aceitassem o resultado das eleições. A situação política chegou ao ápice da
corrupção. Teria uma coisa a ver com a outra?
O clima está pesado:
muitos traidores, muita bobagem dita e escrita em todas as redes. No entanto, lembrando os tempos iniciais em que vivia nas associações de bairros e nos sindicatos, me vejo de volta às ruas defendendo
o mesmo projeto: democrático, gerado na base da sociedade, sem contravenções.
Coerente, não? E ouço a mesma música que embalava os sonhos de uma geração. Quando meus filhos tiverem a
minha idade será este o meu legado. Nada foi em vão. Estes momentos de luta e utopia por um país melhor ninguém
vai tirar. Porque as pessoas passam, mas
as ideias permanecem.
