terça-feira, 29 de março de 2016

O legado

(selfie de Elaine Strapasson Faccin)


(Por que voltei às ruas)

João Pedro Gil

Cresci apoiando Lula (e ouvindo Nei Lisboa). Falo culturalmente. Cultura aqui tomada em seu amplo sentido etnográfico, construída historicamente, como complexo que inclui conhecimentos, crenças, leis, costumes ou qualquer outra capacidade das pessoas. Mais do que Luiz Inácio e o autor de “Para viajar no cosmos não precisa gasolina”, o que me movia na metade dos anos 80 era o projeto de uma política emancipatória e uma música autoral gerado na base da sociedade.

Fui para Santa Maria, depois do magistério estadual, tendo em vista uma Universidade que tinha eleito pela primeira vez no país um reitor por vias democráticas. Era por aí.

Fiz um mestrado em condições precárias, com o ensino público superior sucateado. Fomos para as ruas defendendo o projeto popular. Lula representava este projeto. Perdemos a primeira eleição após a conquista da diretas, contra Collor. Perdemos a outra eleição. As condições do ensino superior iam de mal a pior (isso que tínhamos um acadêmico no poder da república). Rua de novo. Idas e voltas a Brasília para defender a universidade pública, gratuita e de qualidade. O senador Fogaça me questionou: por que não ficou em Porto Alegre fazendo arte? Finalmente, depois de uma reeleição questionável, um operário, com o apoio de vários partidos é eleito.

O projeto de soberania do país com avanços sociais seguiu por dois mandatos e chegou a uma sucessão tranquilamente. As condições de vida melhoraram para 20 milhões de brasileiros, segundo dados estatísticos. A universidade pública ampliou sensivelmente sua infraestrutura. E também tornou-se mais acessível: basta ver o número de vagas e a diversidade social e étnica dos aprovados nos últimos processos seletivos. Veio a última eleição e com ela uma disputa acirrada. A realidade econômica  ficou amarga.   Não seria tão dura se os perdedores aceitassem o resultado das eleições. A situação política chegou ao ápice da corrupção. Teria uma coisa a ver com a outra?


O clima está pesado: muitos traidores, muita bobagem dita e escrita em todas as redes.  No entanto, lembrando os tempos iniciais  em que vivia nas associações de bairros  e nos sindicatos, me vejo de volta às ruas defendendo o mesmo projeto: democrático, gerado na base da sociedade, sem contravenções. Coerente, não? E ouço a mesma música que embalava os sonhos  de uma geração. Quando meus filhos tiverem a minha idade será este o meu legado. Nada foi em vão. Estes momentos de luta e utopia por um país melhor ninguém vai tirar. Porque as pessoas passam, mas as ideias permanecem.