Em entrevista exclusiva, o líder indígena reflete sobre o
significado da pandemia de coronavírus e faz um alerta: "Se voltarmos à
chamada 'normalidade', não valeram de nada as mortes de milhares de
pessoas".
Ailton Krenak: "Terra está falando para a humanidade: 'silêncio'. Esse é também o significado do recolhimento”.
foto: Marcos Vieira, Press
O mundo está em suspensão. O momento é de recolhimento, de
silêncio. A experiência do isolamento social, para enfrentar o
horror do novo coronavírus, pode trazer lições valiosas à
humanidade. “Se essa tragédia serve para alguma coisa é mostrar quem nós somos.
É para nós refletirmos e prestar atenção ao sentido do que venha mesmo ser
humano. E não sei se vamos sair dessa experiência da mesma maneira que
entramos. Tomara que não”, afirma o escritor Ailton Krenak, de 66
anos, um dos mais destacados ativistas do movimento socioambiental e de defesa
dos direitos indígenas e doutor honoris causa pela Universidade de Juiz de
Fora.
Recolhido em sua aldeia no Rio Doce, o autor de Ideias
para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras) observa que o ser
humano descolou-se da natureza e da sintonia com a terra, “devorada” por
grandes corporações que controlam os recursos financeiros do planeta e
persistem na concepção europeia colonizadora de que exista uma “humanidade”,
enclausurada na maior parte de sua vida em ambientes artificiais.
“Essa chamada humanidade, na verdade, constitui um grupo seleto que exclui uma
variedade de sub-humanidades, caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes, que
vivem agarradas à terra, aos seus lugares de origem, que são coletivos
vinculados à sua memória ancestral e identidade. Esse grupo exclui também 70%
das populações arrancadas do campo e das florestas, que estão nas favelas e
periferias, alienadas do mínimo exercício do ser, sem referências que
sustentam a sua identidade. São lançadas nesse liquidificador chamado
humanidade”, acredita.
Para Ailton Krenak, os seres humanos têm neste isolamento
social pelo qual passa a maior parte do planeta uma
oportunidade para a pausa e correção de rumos: “Todos precisam despertar. Se,
durante um tempo, éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados de
ruptura ou da extinção dos sentidos das nossas vidas, hoje estamos todos diante
da iminência de a terra não suportar a nossa demanda. Tomara que,
depois de tudo isso, não voltemos à chamada ‘normalidade’, pois se voltarmos é
porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro. Aí, sim,
teremos provado de que a humanidade é uma mentira”.
A seguir, mais trechos da entrevista exclusiva com o escritor.
No início do livro Ideias para adiar o fim do mundo, o
senhor introduz uma discussão que parte da indagação: Somos mesmo uma
humanidade?. O senhor poderia responder à esta provocação,
particularmente mais intrigante nestes tempos de pandemia: somos uma
humanidade?
Eu penso que essa pergunta fica em suspenso. Vivemos esta
experiência de isolamento social, como está sendo definida a experiência do confinamento,
em que o mundo inteiro tem de se recolher. Ao mesmo tempo, assistimos a uma
tragédia de gente morrendo em diferentes lugares do mundo, ao ponto de na
Itália os corpos serem colocados em caminhões para incinerar, sem sequer ser
identificados. Essa dor, talvez ajude as pessoas a responder a essa pergunta.
Nós nos acostumamos com a ideia de que somos uma humanidade. Embora a ideia
tenha sido naturalizada, ninguém mais presta atenção ao sentido do que venha
mesmo ser humano. É como se tivéssemos várias crianças brincando que, por
imaginar essa fantasia da infância, continuassem a brincar por tempo
indeterminado. Viramos adultos, estamos devastando o planeta, cavando um fosso
gigantesco de desigualdades entre povos e as sociedades. De modo que há uma
sub-humanidade que vive uma grande miséria, sem chance de sair dela. Isso
também foi naturalizado. O presidente da República disse outro dia que
brasileiros vivem no esgoto. Esse tipo de mentalidade doente está dominando o
planeta. E veja agora esse vírus, um organismo do planeta, responder a essa
alienação dos humanos com um ataque à forma de vida insustentável que adotamos
por livre escolha, essa fantástica liberdade que todos adoram reivindicar, mas
ninguém se pergunta sobre o seu preço. Veja que esse vírus está discriminando
essa humanidade. Ele não mata pássaros, ursos, nenhum outro ser, apenas
humanos. Apenas a humanidade está sendo discriminada. Quem está em pânico são
os povos humanos, o modo de funcionamento deles entrou em crise. Consolidaram esse
pacote que é chamado de humanidade, que vai sendo descolada de uma maneira
absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória
que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência
e de hábitos. Os únicos núcleos que ainda consideram que precisam ficar
agarrados nessa terra são aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do
planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na
América Latina. Esta é a sub-humanidade: caiçaras, índios, quilombolas,
aborígenes. Existe, então, uma humanidade que integra um clube seleto, vamos
dizer, bacana. E tem uma camada mais rústica e orgânica, uma sub-humanidade,
que fica agarrada na terra. Eu não me sinto parte dessa humanidade. Eu me sinto
excluído dela. Por isso digo, no livro, que é um clube, seleto, que não aceita
novos sócios.
Filosoficamente, como interpreta a pandemia que acomete o
mundo?
Estamos há muito divorciados desse organismo vivo que é a
Terra. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra,
resulta que ela está nos deixando órfãos, não só os que em diferente graduação
são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas todos. Enquanto a
humanidade está se distanciando do seu lugar, um monte de corporações
espertalhonas tomam conta e submetem o planeta: acabam com florestas,
montanhas, transformam tudo em mercadorias. Fomos, durante muito tempo,
embalados com a história de que somos a humanidade e nos alienando desse
organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa
e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que
não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo
pensar é natureza. Nós, a humanidade, vamos viver em ambientes artificiais
produzidos pelas mesmas corporações, que são os donos da grana. Agora, já
imaginou que esse organismo, o vírus, possa também ter se cansado da gente e
nos “desligado”? Sabe como faz isso? Tirando o nosso oxigênio. Dizem que a
Covid-19, quando evolui para os pulmões, se não tiver bomba, aparelho para
alimentar de oxigênio, a pessoa morre. Quantas máquinas dessa vamos ter de
fazer? Para 6 bilhões de pessoas na terra? A nossa mãe, a Terra, dá de graça o
oxigênio, põe a gente para dormir, desperta de manhã com sol, dá oxigênio,
deixa pássaros cantar, as correntezas, as brisas, cria esse mundo maravilhoso
para compartilhar, e o que a gente faz com ele? Isso pode significar uma
mãe amorosa, que decidiu fazer o filho calar a boca pelo menos por um instante.
Não é porque não goste dele, mas quer ensinar alguma coisa para ele. Filho,
silêncio. A Terra está falando isso para a humanidade. E ela é tão maravilhosa
que não é ordem imperativa. Ela simplesmente está dizendo para a gente: silêncio.
Esse é também o significado do recolhimento.
Os idosos, chamados de grupo de risco, em algumas
abordagens são lembrados como algo descartável – do tipo, “alguns vão morrer”,
como algo inevitável. Como avalia esta abordagem que parece arrancar toda e
qualquer humanidade do indivíduo, tornando-o uma estatística?
Esse tipo de abordagem cria uma insegurança, afeta as
pessoas que amam os idosos, que são avós, pais, filhos, irmãos de outras
pessoas, que estão na idade útil de trabalho. É uma palavra insensata, não tem
sentido que alguém em sã consciência faça comunicação pública dizendo ‘alguns
vão morrer’. É uma banalização da vida, mas também é uma banalização do poder
da palavra. Pois alguém que faz uma emissão dessa está pronunciando a
condenação. Seja diretamente dirigida a alguém em idade avançada, com 80, 90,
100 anos. Sejam os filhos, netos, ou todas as pessoas que têm afeto uns com
outros. Imagine se vou ficar em paz pensando que minha mãe ou meu pai podem ser
descartados. Eles são o sentido de eu estar vivo. Se eles podem ser descartados
eu também posso. Olhando para além do Brasil, mirando o mundo, Foucault tem uma
obra fantástica: Vigiar e punir. Nesse livro, diz que essa sociedade de mercado
que vivemos, essa coisa mercantil, só considera o ser humano útil quando está
produzindo. Com o avanço do capitalismo, foi criado um instrumento que é o de
deixar viver e o de fazer morrer: quando deixa de produzir, passa a ser um
custo. Ou você produz as condições para você ficar vivo ou produz as condições
para você morrer. Essa coisa que conhecemos como a Previdência, que existe em
todos os países com economia de mercado, ela tem um custo. Os governos estão
achando que, se morressem todas as pessoas que representam custo, seria ótimo.
Isso significa dizer: pode deixar morrer os que integram os grupos de risco.
Não é ato falho de quem fala, a pessoa não é doida, é lúcida, sabe o que está
falando.
Como está a sua rotina, agora com o isolamento social?
Parei de andar mundo afora, suspendi compromissos. Estou
com a minha família na aldeia krenak, no Médio Rio Doce. Já estávamos aqui de
luto com o nosso Rio Doce. Não imaginava que o mundo faria esse luto conosco.
Está todo mundo parado. Todo mundo. Quando os engenheiros me disseram que iriam
usar a engenharia, a tecnologia para recuperar o Rio Doce, perguntaram a minha
opinião. Eu disse: a minha sugestão é impossível de colocar em prática. Pois
teríamos de parar todas as atividades humanas que incidem sobre o corpo do rio,
a 100 quilômetros na margem direita e esquerda do rio, até que voltasse a ter
vida. O engenheiro me disse: ‘Mas isso é impossível’. O mundo não pode parar. E
o mundo parou. Desde muito tempo a minha comunhão com tudo o que chamam de
natureza é experiência que não vejo muita gente que vive na cidade valorizando.
Já vi pessoas ridicularizando, ele conversa com árvore, abraça árvore, conversa
com o rio, contempla a montanha, como se isso fosse uma espécie de alienação.
Essa é a minha experiência de vida. Se é alienação, sou alienado no sentido
comum que as pessoas. Há muito tempo não programo atividades para depois. Temos
de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de
parar de vender o amanhã.
Agora o prognóstico, ou algo do tipo: se continuarmos ao
ritmo de sempre, em sua avaliação, que fim nos aguarda?
O ritmo de hoje não é o da semana passada nem o do ano
novo, do verão, de janeiro ou fevereiro. O mundo está agora numa suspensão. E
não sei se vamos sair dessa experiência da mesma maneira que entramos.
Desconfio que não vai ser a mesma coisa depois. Se tiver depois. Tem muita
gente que suspendeu projetos, atividades que estavam fazendo. As pessoas acham
que basta mudar o calendário. Estão enganadas. Pode não haver o ano que vem. Em
artigo que li sobre a pandemia, o sociólogo italiano Domenico de Masi cita a
obra profética A peste, de Albert Camus: a peste pode vir e ir embora sem que o
coração do homem seja modificado. Ele cita trecho inteiro do romance em que o
personagem diz, aquele bacilo que trouxe aquela mortandade, que parece que
tinha sido dominado, podia continuar oculto em alguma dobra, algum corrimão,
janela, poltrona, só esperando o dia em que, infortúnio ou lição aos homens, a
peste acordará seus ratos para mandá-los morrer numa cidade feliz. Este vírus
que nos ameaça não é o mesmo na China, na Itália, nos Estados e no Brasil. Ele
muda. E se muda, não sabemos o que é. Então seria muito bom parar de fazer
projetos para amanhã, para o ano que vem e nos ater ao aqui e agora. Não tenho
certeza nenhuma se no ano que vem tudo vai continuar a acontecer como se nada
tivesse mudado. E tomara que não voltemos à normalidade, pois se voltarmos é
porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro. Aí, sim,
teremos provado que a humanidade é uma mentira. Se essa tragédia serve para
alguma coisa, é nos mostrar quem nós somos. Estamos em suspensão. Vamos ver o
que vai acontecer.
Quais são as suas ideias e inspirações para adiarmos o
fim do mundo?
Precisamos ser críticos a essa ideia plasmada de
humanidade homogênea em que o consumo tomou o lugar daquilo que antes era
cidadania. Para que cidadania, alteridade, estar no mundo de uma maneira
crítica e consciente, se você pode ser um consumidor? Essa ideia dispensa a
experiência de viver numa terra cheia de sentido, numa plataforma para
diferentes cosmovisões. Boaventura de Sousa Santos nos ensina que a ecologia
dos saberes deveria também integrar nossa experiência cotidiana, inspirar
nossas escolhas sobre o lugar em que queremos viver, nossa experiência como
comunidade. Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver
em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma
intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o
prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações
de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de
humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto
prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma
possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha
provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma
história. Se pudermos fazer isso, adiaremos o fim. Como os povos originários do
Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar com o seu mundo? Quais
estratégias esses povos utilizaram para cruzar esse pesadelo e chegar ao século
21 ainda esperneando, reivindicando e desafinando o coro dos contentes? Vi as
diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da
criatividade e da poesia que inspirou a resistência desses povos.
Ideias para adiar o fim do mundo
Ailton Krenak
Companhia das Letras
88 páginas
R$24,90
postado em 03/04/2020 04:00, Jornal Estado de Minas