| João Pedro Gil, visitando o Berliner Ensemble, em Berlim (foto de 2014) |
Há exatos 60 anos, morria em Berlim, um dos mais criativos e engajados dramaturgos de todos os tempos: Bertold Brecht!
Autor de uma vasta bibliografia,
que inclui peças de teatro, poemas, livros de ensaios e teoria crítica, Brecht
nos deixou um grande legado.
Este texto, que reproduzo aqui, não
poderia ser mais atual.
Se os tubarões fossem homens, perguntou ao Sr. K. a filha da sua senhoria, eles seriam mais amáveis com os
peixinhos? Certamente, disse ele. Se os tubarões fossem homens, construiriam no
mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto
animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca,
e por exemplo se um peixinho ferisse a barbatana, então lhe fariam
imediatamente um curativo, para que ele não lhes morresse antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem
melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os
peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente, haveria
também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar
para as goelas dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para
localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais
importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam
informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho
que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo
quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura.
Os peixinhos saberiam que esse futuro
só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos
deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e
avisar imediatamente os tubarões, se um dentre eles mostrasse tais tendências.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para
conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros.
Nessas guerras eles fariam lutar os
seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os
peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, eles iriam proclamar, são
notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem
se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que
silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço
e receberia o título de herói. Se os tubarões fossem homens, naturalmente
haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes
dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardins onde se brinca
deliciosamente.
Os teatros do fundo do mar mostrariam
valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões.
Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria
que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além
disse se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos
são iguais entre si.
Alguns deles se tornariam
funcionários, seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores
poderiam inclusive comer os menores. Isto seria agradável para os tubarões,
pois eles teriam, com maior frequência, bocados maiores para comer. E os peixinhos
maiores, detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos,
tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas etc. Em suma,
haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens”. (BRECHT, apud
WONSOVICZ, 2005, p. 38).
Eugen
Bertholt Friedrich Brecht
(Augsburg, 10 de fevereiro de 1898 — Berlim Leste, 15 de agosto de 1956)
Destacado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX. Seus trabalhos artísticos e teóricos
influenciaram profundamente o teatro contemporâneo, tornando-o mundialmente
conhecido a partir das apresentações de sua companhia - o Berliner Ensemble, realizadas em Paris durante os anos
1954 e 1955.
Ao
final dos anos 1920 Brecht torna-se marxista, vivendo o intenso período das mobilizações da República de Weimar,
desenvolvendo o seu teatro épico.
Sua praxis é uma síntese dos experimentos teatrais
de Erwin Piscator e Vsevolod Emilevitch Meyerhold, do conceito
de estranhamento do formalista russo Viktor Chklovski, do teatro chinês e do
teatro experimental da Rússia soviética, entre os anos 1917-1926.
Seu
trabalho como artista concentrou-se na crítica artística ao desenvolvimento das
relações humanas no sistema capitalista.
