sexta-feira, 25 de março de 2016

Cabeças pensantes



A propósito da saída de Moisés Mendes da ZH, aproveito para perguntar: aonde repousam as cabeças e as ideias pensantes do Brasil?

No reduto das academias universitárias?

Nos textos das palestras de pouca audiência?

Nas páginas das revistas especializadas?

Nas diretorias administrativas das grandes empresas?

Nas mesas diretivas de Congressos internacionais?

Nos grupos temáticos dos seminários institucionais?

Nas convenções partidárias?

Nas associações da classe?

Nos editoriais das grandes revistas?

Nas redações dos jornais?

No boteco da esquina ou em confortáveis sofás de onde podem acessar notícias, verificar mensagens e postar, sem compromisso ou comprometimento, comentários leves e breves sobre o que está “rolando” na atualidade?

Eu, sinceramente, esperava uma maior atuação da intelectualidade neste momento.

Faço buscas diárias na web no intuito de encontrar análises críticas mais aprofundadas sobre o que está acontecendo no cenário político brasileiro e o que encontro: opiniões esparsas e as opiniões “carimbadas” de sempre. Será que estou procurando nos lugares certos?

O que há de novo nas nossas instituições de ensino? Debates temáticos pouco divulgados na imprensa, eventos patrocinados por grandes empresas, com convidados estrangeiros, e discussões fechadas dentro dos recintos universitários. A sociedade quer interagir com a academia. Que se fizesse, no mínimo, um “Fronteiras do Pensamento” aberto e gratuito à comunidade, reunindo os nossos intelectuais brasileiros, para discutir com a população assuntos relevantes. Será que isso não é importante ou a exposição de ideias acarreta um posicionamento ideológico que a intelectualidade de modo geral não quer assumir?

O que temos, lamentavelmente, são colunas jornalísticas e noticiários televisivos dominados pelo pensamento presunçoso, previsível e indigerível dos jornalistas patrocinados. Há exceções, como, por exemplo, o jornalista Moisés Mendes, que se vê agora fora do jornal de maior circulação no estado, por divergências com a empresa (veja a carta clique aqui). A informação jorrada é rasa e superficial, habilmente manipulada por um jornalismo que produz opiniões para serem vendidas e absorvidas como verdade.  

Eventualmente, temos os sociólogos, os cientistas políticos, os agentes públicos e técnicos especializados, que comparecem na mídia à convite e como representantes de um saber teórico professoral. São oportunamente inseridos no campo do debate como pontes necessárias ao esclarecimento, na pretensa ideia de “democratizar para ampliar a discussão” que a mídia veicula. São vozes cuidadosamente escolhidas para que suas falas estejam alinhadas ao pensamento interessado que caracteriza a linha editorial/empresarial do veículo. Basta observar o tipo de análise que se faz - prioritariamente voltada ao delineamento de mapas e diagnósticos (quantitativa) e não ao contexto histórico aonde os fatos se inserem (qualitativa).

São opiniões circunstanciais, isoladas. Eu diria,  desarticuladas das demais falas que se manifestam na sociedade.

Temos também as opiniões dos blogueiros, os tweets, os textos e as mensagens de todo o tipo nas diversas plataformas digitais. Mas, há que ter cuidado e comedimento no uso desses meios.

Há poucos Chicos, poucas Tiburis, poucos Furtados. Há artistas que falam e outros que se calam.

É fundamental, portanto, ampliar o leque de vozes inteligentes nas redes sociais e nos meios de comunicação de massa para que o grito nas ruas reflita a consciência do pensamento crítico coerente (que conhece e exige o cumprimento dos direitos e deveres constitucionalmente instituídos) e não a falta de esclarecimento movida pela omissão das cabeças pensantes no Brasil.

por Lene Franck