A propósito da saída de Moisés
Mendes da ZH, aproveito para perguntar: aonde repousam as cabeças e as ideias
pensantes do Brasil?
No reduto das academias
universitárias?
Nos textos das palestras de pouca audiência?
Nas páginas das revistas
especializadas?
Nas diretorias administrativas das
grandes empresas?
Nas mesas diretivas de Congressos internacionais?
Nos grupos temáticos dos seminários
institucionais?
Nas convenções partidárias?
Nas associações da classe?
Nos editoriais das grandes revistas?
Nas redações dos jornais?
No boteco da esquina ou em confortáveis
sofás de onde podem acessar notícias, verificar mensagens e postar, sem compromisso
ou comprometimento, comentários leves e breves sobre o que está “rolando” na
atualidade?
Eu, sinceramente, esperava uma
maior atuação da intelectualidade neste momento.
Faço buscas diárias na web no
intuito de encontrar análises críticas mais aprofundadas sobre o que está
acontecendo no cenário político brasileiro e o que encontro: opiniões esparsas e
as opiniões “carimbadas” de sempre. Será que estou procurando nos lugares certos?
O que há de novo nas nossas instituições
de ensino? Debates temáticos pouco divulgados na imprensa, eventos patrocinados
por grandes empresas, com convidados estrangeiros, e discussões fechadas dentro
dos recintos universitários. A sociedade quer interagir com a academia. Que se
fizesse, no mínimo, um “Fronteiras do Pensamento” aberto e gratuito à
comunidade, reunindo os nossos intelectuais brasileiros, para discutir com a população
assuntos relevantes. Será que isso não é importante ou a exposição de ideias acarreta
um posicionamento ideológico que a intelectualidade de modo geral não quer assumir?
O que temos, lamentavelmente, são colunas
jornalísticas e noticiários televisivos dominados pelo pensamento presunçoso, previsível
e indigerível dos jornalistas patrocinados. Há exceções, como, por exemplo, o
jornalista Moisés Mendes, que se vê agora fora do jornal de maior circulação no
estado, por divergências com a empresa (veja a carta clique aqui). A informação jorrada
é rasa e superficial, habilmente manipulada por um jornalismo que produz
opiniões para serem vendidas e absorvidas como verdade.
Eventualmente, temos os sociólogos,
os cientistas políticos, os agentes públicos e técnicos especializados, que comparecem
na mídia à convite e como representantes de um saber teórico professoral. São oportunamente
inseridos no campo do debate como pontes necessárias ao esclarecimento, na pretensa
ideia de “democratizar para ampliar a discussão” que a mídia veicula. São vozes
cuidadosamente escolhidas para que suas falas estejam alinhadas ao pensamento interessado
que caracteriza a linha editorial/empresarial do veículo. Basta observar o tipo
de análise que se faz - prioritariamente voltada ao delineamento de mapas e diagnósticos
(quantitativa) e não ao contexto histórico aonde os fatos se inserem
(qualitativa).
São opiniões circunstanciais, isoladas.
Eu diria, desarticuladas das demais
falas que se manifestam na sociedade.
Temos também as opiniões dos
blogueiros, os tweets, os textos e as mensagens de todo o tipo nas diversas
plataformas digitais. Mas, há que ter cuidado e comedimento no uso desses
meios.
Há poucos Chicos, poucas Tiburis, poucos Furtados.
Há artistas que falam e outros que se calam.
É fundamental, portanto, ampliar o
leque de vozes inteligentes nas redes sociais e nos meios de comunicação de
massa para que o grito nas ruas reflita a consciência do pensamento crítico coerente
(que conhece e exige o cumprimento dos direitos e deveres constitucionalmente
instituídos) e não a falta de esclarecimento movida pela omissão das cabeças
pensantes no Brasil.
por Lene Franck
por Lene Franck