Ninguém
desconhece que a corrupção no Brasil é tão antiga quanto a própria história do
País. Desde que aqui chegaram os primeiros colonizadores, com a ideia de
saquear para lucrar, essa prática tem moldado a nossa cultura.
Vivemos,
de forma sistemática, uma cultura extrativista, que mais retira do que produz. Aliado
a isso, vem predominando na sociedade brasileira um sentimento de perda e de
impotência diante do descaso com que as questões mais emergentes e prioritárias
da população têm sido tratadas nas instâncias de poder, o que reforça a ideia que
o mais interessante, para determinados grupos políticos (com evidentes propósitos
econômicos) é manter sob controle uma prática
cultural predatória no país. A política, dessa maneira, vem assumindo
historicamente e de forma gradativa, um sentido pífio e instrumentalizado, pela
imposição de alianças que se impõem (por um lado, e se opõem, por outro) à governabilidade, e pela ascensão de uma
outra classe que se materializa e se fortalece através de práticas de
corrupção.
Os
primeiros registros de falcatruas no período colonial aconteceram quando
propinas foram aceitas para afrouxar o controle sobre o contrabando de
mercadorias. Funcionários públicos, mais tarde, passaram a favorecer e lucrar
com o tráfico ilegal de escravos. Na República, todo o tipo de corrupção foi
praticado: da compra de votos à subversão de contratos de obras públicas.
Isso
para não falarmos dos casos de corrupção registrados no período militar. Quem viveu naquela época deve
lembrar as denúncias contra o delegado Fleury, envolvido com o tráfico de
drogas e extermínios; deve lembrar também das manobras políticas de Maluf para
obter empréstimos junto ao BNDE, para salvar a empresa da família. Havia o
cartel do jogo do bicho bancado por militares da Polícia do Exército, que
intermediava o contrabando ilegal de produtos de todo o tipo. O que dizer do
SNI, que nomeava governadores de estado,
entre outros mandatários, na época do governo Médici. Muitas extorsões e subornos
foram praticados para garantir a obtenção de contratos milionários junto a
empresas multinacionais que entraram no país de forma totalmente irregular.
E os
casos de corrupção abafados pelo governo FHC: compra de votos de deputados para
votarem a favor da emenda que permitiu a reeleição, desvios de dinheiro na
SUDENE, compra de lugar na fila para pagamento de precatórios do DNER, extinção
da Comissão Especial de Investigação (órgão que apurava as denúncias de
corrupção no governo), o pagamento de propinas para privatização do sistema
Telebrás e da Vale do Rio Doce?
Não se
pode deixar de falar sobre esse assunto sem voltar ao passado. Há que se mencionar
o impeachment do Collor por conta da roubalheira e os anões do orçamento. Também
não se pode negligenciar o episódio conhecido
como “mensalão”, que trouxe à tona os intrincados acordos feitos com dinheiro público em troca de apoio
político. E, mais recentemente, os casos envolvendo propinas, subornos e
adulterações de contratos da Petrobrás com empreiteiras, que estão escancarados
em todas as mídias do país e do exterior.
A
corrupção, hoje, e não era para menos, aparece como preocupação maior dos
brasileiros. É o que aponta a última pesquisa realizada pelo Instituto
Datafolha e divulgada no último domingo (29).
Pela
primeira vez, os brasileiros entrevistados dizem que esse problema está
superando os demais problemas existentes no país, tais como saúde, desemprego,
educação, segurança e economia.
O
sistema de saúde, por exemplo, assim como a segurança, é ineficiente e
ineficaz. A burocracia, apesar de alguns avanços, ainda dificulta a vida dos
brasileiros. As políticas públicas na área da educação não atingiram o grau de
maturidade que desejamos para minimamente respeitar princípios éticos, tão
fundamentais para a construção de uma sociedade civilizada. É desnecessário enumerar
os demais problemas que atingem a população brasileira. São claros e notórios.
O fato
de evidenciarmos a pouca solidez institucional, alicerçada por práticas de
acomodação de interesses políticos diversos e muitas vezes conflitantes dentro
das administrações públicas, fortalece a percepção da corrupção de modo
generalizado. Se as instituições são deficientes e não funcionam do jeito que
deveriam, criam-se mecanismos para o improviso, para a “armação” e o conluio. Criam-se
brechas para o famoso “jeitinho brasileiro”. E é grande a probabilidade de o
cidadão comum ter que recorrer a meios não muito lícitos para obter, por
exemplo, um atendimento prioritário no serviço público. Bastam ver os inúmeros casos
de pessoas que pagam para não entrar em filas de cirurgias no Sistema Único de
Saúde.
Temos
a propensão a achar que aqui nada funciona e que lá fora tudo é melhor. Ao
mesmo tempo, toleramos as pequenas contravenções cotidianas e os entraves ao
cumprimento dos direitos e deveres constitucionalmente previstos.
É
preciso, sem dúvida, abandonar o sentimento de inferioridade e perguntar: será
que o povo brasileiro tem consciência de que as instituições devem ser produtos
de interesses socialmente construídos e reconhecidos? Nós valorizamos as
instituições? Nós exigimos e nos submetemos às normas de convívio social? Nós
exigimos o cumprimento das leis? Cobramos as promessas de campanha dos legisladores?
Quando,
por exemplo, flagramos alguém jogando lixo na calçada, somos capazes de
interpelar? Ao saber que o colega não cumpre o horário de trabalho de forma
integral, denunciamos? Ao constatar que um servidor da administração pública em
regime de dedicação exclusiva acumula dois empregos (excetuando os permitidos
em lei), fazemos a denúncia? Ao não exigirmos a nota fiscal, estamos agindo
corretamente?
Os dispositivos
colocados a serviço do cidadão pelo Estado atuam como instrumentos de promoção da vida e da
dignidade humanas? Ou nós não contribuímos para a afirmação do Estado?
Por Lene Franck
Por Lene Franck
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