quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Tabacaria

    (respiro Pessoa em um tempo que voa em Lisboa - um poema para saudar o grande poeta e as ruas dessa linda cidade) 

    PS: mesmo considerando a recente discussão sobre a genialidade do poeta português
    Vide 

       

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    (...)


    Álvaro de Campos, 15-01-1928

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