Por Antenor Fischer
“Varre, varre vassourinha, varre a corrupção”, foi o mote usado por Jânio Quadros, candidato do PTN, apoiado pela conservadora UDN, nas eleições para a presidência do Brasil, em 1960. O jingle da campanha possuía apenas uma estrofe, que repetida duas vezes, continha os seguintes versos:
Varre, varre, varre vassourinha!/ Varre, varre a bandalheira!
Que o povo já 'tá cansado/ De sofrer dessa maneira
Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!
Jânio Quadros é a certeza de um Brasil moralizado!
Alerta, meu irmão!/ Vassoura, conterrâneo!
Vamos vencer com Jânio!
Em sua primeira disputa pela prefeitura paulistana, na década de 50, Jânio Quadros conquistara grande popularidade ao usar uma vassoura como símbolo da limpeza que prometia fazer nos órgãos públicos. Com um discurso enérgico e carismático, Quadros arrebatou uma leva de eleitores que acreditavam que a vassoura iria varrer a corrupção da política paulistana.
Ao lançar sua candidatura à presidência da República, Jânio Quadros continuou utilizando a vassoura como símbolo de sua campanha presidencial, prometendo moralizar o cenário político nacional e “varrer” a corrupção do país. Seria eleito presidente com 5,6 milhões de votos, a maior votação até então obtida no Brasil, o que não apenas demonstrava que o povo brasileiro estava cansado da corrupção, mas indicava a consolidação do regime democrático no país.
No entanto, pra sorte da legião de
corruptos da política brasileira, as contradições e a falta de um claro posicionamento
político fizeram com que o mandato de Jânio Quadros fosse tomado por situações
nebulosas e acabasse antes mesmo que a vassoura viesse a ser usada.
Mas, assim como a corrupção não foi
introduzida no Brasil pelos governos da Frente Popular, a corrupção também não
começou no governo JK... Quem se der o trabalho de fazer uma viagem, ainda que
superficial, pelas páginas de "Brasil: uma biografia", de Lilia M.
Schwarcz e Heloisa M. Starling (Cia. das Letras, 2015, 694 p.), irá deparar com
passagens como esta, ainda do período colonial:
“No final do mês de agosto de 1666,
cinco anos após a Revolta da Cachaça, o governador de Pernambuco, Jerônimo de
Mendonça Furtado, acabou preso, em plena luz do dia, no meio da rua de São
Bento, em Olinda. (...) O governador foi encarcerado na fortaleza do Brum, no
Recife, e em seguida devolvido a Lisboa. A briga foi coisa de graúdos, e a
lista de reclamações contra Mendonça Furtado era robusta: acusavam o governador
de executar dívidas, sequestrar bens, proteger ostensivamente diversos
devedores da Fazenda Real, quebrar imunidades eclesiásticas, prender e soltar
pessoas: tudo em troca de propina.
As ruas de Olinda e Recife também
acolhiam e difundiam a notícia de que o governador não só costumava embolsar
parte da receita devida à Coroa, como cuidava de aumentar o quinhão embolsado,
recunhando moedas no próprio palácio.
Desprezado pela população, Mendonça
Furtado recebeu a alcunha de Xumbergas, termo ambíguo que tanto significava
“alguém que azucrina o próximo” quanto apontava de modo chulo para uma pessoa
adepta de excessos: um sujeito embriagado ou um figurão useiro e vezeiro na
prática de bolinar.
O Xumbergas fez parte de uma linhagem
de governadores locais prepotentes, corruptos e venais que se aproveitavam da
investidura régia para enriquecer depressa, em geral de forma ilícita.
Na belíssima oratória de padre
Vieira, que os conhecia bem, a cobiça desses governantes era sem remédio, e punha em risco a
estabilidade do domínio português na América: “Esta é a causa original das
doenças do Brasil: tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências
particulares por onde a Justiça se não guarda e o Estado se perde”, bradava
Vieira, do púlpito. E concluía: “Perde-se o Brasil (digamo-lo em uma palavra)
porque alguns ministros de Sua Majestade não vêm cá buscar nosso bem, vêm cá
buscar nossos bens”.
Outra passagem dá conta de que, nos
anos que se seguiram à vinda de D. João VI ao Brasil, a corrupção também corria
solta. Foi nessa época que começou a surgir a “nobreza da terra”.
Entre sua vinda, em 1808, até seu
retorno a Portugal, em 1821, D. João concedeu nada menos que 235 títulos de
nobreza. Isso sem contar a instauração da Ordem da Espada e dos títulos de
grã-cruz, comendador e cavaleiro, categorias em que distinguiu quase cinco mil
pessoas.
Já nos escalões mais baixos, o número
de funcionários aumentava, inflando e emperrando a máquina administrativa, uma
vez que muitos cargos foram sendo criados apenas para atender os
recém-chegados, que reclamavam sua subsistência. A maior parte dos emigrados –
monsenhores, desembargadores, legistas, médicos, empregados da casa real, os
homens do serviço privado e protegidos do monarca – comportou-se como uma
“chusma de satélites”. “Eram os vadios e parasitas [...] que continuariam no
Rio de Janeiro o ofício exercido em Lisboa: comer à custa do Estado e nada
fazer para o bem da nação”. A máquina inchava e, para dar conta das novas
despesas, geraram-se impostos pelo Brasil todo.
Foi em tom de brincadeira séria que a população denunciou a corrupção nessa corte voraz:
Quem furta pouco é ladrão/
Quem furta muito é barão/
Quem mais furta e esconde/
Passa de barão a visconde.
Nessa mesma época, a população escravizada, por seu turno, reagia promovendo fugas, rebeliões e assassinatos, ou partindo para a ironia contra a corrupção dos brancos:
Sinhô branco também furta/
Nosso preto furta galinha/ Furta saco
de feijão/
Sinhô branco quando furta/ Furta
prata e patacão/
Nosso preto quando furta/ Vai parar
na [Casa de] Correção/
Sinhô branco quando furta/
Logo sai sinhô barão.
Muita lama ainda correria por debaixo da ponte, antes que o Império fosse soterrado. A corrupção havia espalhado suas ramificações, como um cancro, por todos os setores da sociedade. O diagnóstico foi de que a doença não era resultado do comportamento dos políticos e do povo e, sim, da forma de governo. A República, sim, iria nos curar e, mais que isso, nos redimir. Era o que, então, tolamente se acreditava.

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