por Lene Franck
"O
8 de março deve ser visto como momento de mobilização para a conquista de
direitos e para discutir as discriminações e violências morais, físicas e
sexuais ainda sofridas pelas mulheres, impedindo que retrocessos ameacem o que
já foi alcançado em diversos países"¹. Esta opinião, expressa pela professora
Maria Célia Orlato Selem, mestre em Estudos Feministas pela Universidade de
Brasília e doutora em História Cultural pela Universidade de Campinas (Unicamp),
há 5 anos atrás, é reproduzida e multiplicada por milhares de vozes no mundo
inteiro e deve ser levada em consideração sempre que se aponta a desnecessidade
de celebração de uma data destinada exclusivamente à mulher.
Posiciono-me
favorável à manutenção da data, como rememoração necessária, pois é preciso
lembrar sim das lutas que as mulheres travaram ao longo do tempo para serem ouvidas,
respeitadas, valorizadas e inseridas em todos os setores e âmbitos da vida
social.
A data 08 de
março simboliza um conjunto de conquistas, mas também faz menção à luta que ainda
precisa ser travada de forma constante e persistente para que se efetive
a igualdade de condições entre os gêneros nas práticas da vida cotidiana. Devemos
encarar o 8 de março, não como o Dia da Mulher, mas como o Dia da Luta Feminina.
No mundo
inteiro, as mulheres vêm reivindicando melhores condições de vida, de trabalho e
o reconhecimento dos seus direitos na sociedade há, pelo menos, dois séculos.
Registra a literatura que organizações femininas oriundas de movimentos
operários já protestavam em vários países da Europa e nos Estados Unidos, em plena
Revolução Industrial e durante a 1ª
Guerra Mundial, fechando fábricas e conclamando o fim do trabalho infantil.
Para baratear os salários, as
mulheres foram inseridas, pela primeira vez, no mundo da produção pelas
indústrias que surgiram na Inglaterra. Cumprindo jornadas exaustivas de 17 horas
de trabalho, com salários 60% menores do que o dos homens, as operárias viviam
em condições insalubres e eram submetidas a constantes espancamentos e ameças
sexuais. Um exemplo da desumanidade praticada no ambiente fabril da época era a
tecelagem Tydesley, em Manchester, “onde se trabalhava 14 horas diárias a uma
temperatura de 29°, num local úmido, com portas e janelas fechadas e, na
parede, um cartaz afixado proibia, entre outras coisas, ir ao banheiro, beber
água, abrir janelas ou acender as luzes”².
Consta que a partir da
Revolução Francesa, em 1789, as mulheres começam a atuar de forma mais
significativa, reivindicando não apenas a
melhoria das condições de vida e de trabalho, mas também a participação na
política, o fim da prostituição, o acesso à educação e a igualdade de direitos
entre os sexos.
A data 8 de
março assinala um fato histórico ocorrido na Rússia, em 1917, quando
aproximadamente 90 mil operárias manifestam-se contra o Czar Nicolau II, expondo
as péssimas condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra - em
um protesto conhecido como "Pão e Paz".
A consagração
da data e sua oficialização como Dia Internacional da Mulher, no entanto, só vem
a ocorrer em 1921 – apesar de a história apontar várias datas e fatos também relevantes
da luta feminina no mundo inteiro. Vale lembrar:
março de 1857 – alguns autores mencionam essa data para se referir a
um fato ocorrido em Nova Iorque, quando
uma centena de operárias de uma fábrica de tecidos se mobilizam na primeira greve conduzida somente
por mulheres. Elas reivindicam melhores condições de trabalho (a carga horária era de
16 horas), equiparação de salários (recebiam até 1/3 do valor pago aos operários
homens) e tratamento digno (as condições de trabalho eram sub-humanas, com agressões
físicas e sexuais). Como resultado, todas
foram trancafiadas dentro da fábrica e 130 morreram carbonizadas.
maio de 1908 – cerca de 1500 mulheres americanas aderem
a uma manifestação a favor da igualdade econômica e política no país. É
celebrado o primeiro Dia Nacional da Mulher.
fevereiro de 1909 - o Partido Socialista dos EUA
oficializa a data (28/02) com um protesto que reune mais de 3 mil pessoas no
centro de Nova York e culmina, em novembro do mesmo ano, em uma longa greve
têxtil que fecha quase 500 fábricas americanas.
1910 - durante a II Conferência Internacional de
Mulheres Socialistas na Dinamarca, uma resolução para a criação de uma data
anual para a celebração dos direitos da mulher é aprovada por mais de cem
representantes de 17 países. O objetivo é honrar as lutas femininas com o
objetivo de obter suporte à instituição do sufrágio universal em diversas
nações.
março de 1911 – alguns autores citam essa data para se referir ao incêndio ocorrido em uma fábrica têxtil de Nova York – a Triangle Shirtwaist Company (outros, afirmam que o ano foi 1857), que mata 125 operárias, delineando a difícil trajetória que as mulheres teriam ao longo do século 20.
março de 1911 – alguns autores citam essa data para se referir ao incêndio ocorrido em uma fábrica têxtil de Nova York – a Triangle Shirtwaist Company (outros, afirmam que o ano foi 1857), que mata 125 operárias, delineando a difícil trajetória que as mulheres teriam ao longo do século 20.
No Brasil, a
história não é muito diferente. Mas é somente a partir do início do século XX
que a mulheres passam a integrar o mercado de trabalho como operárias,
enfermeiras, professoras ou secretárias. As lutas por melhoria da qualidade de
vida e das condições de trabalho (que envolviam salários menores e a prática do
assédio sexual) são assumidas por grupos anarquistas que emergem no país. A
luta feminina passa a ganhar força com o movimento das sufragistas, nas décadas
de 1920 e 30, o qual leva o governo Vargas a instituir o voto feminino no
Brasil, através da Constituição de 1932.
A partir dos anos 70 emergem no país
organizações que passam a incluir na pauta de discussões a igualdade de
gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher.
Algumas mulheres perguntam: ainda precisamos
desse dia? Sim. A Organização das Nações Unidas registra que o salário das
mulheres ainda é 27% menor do que o dos homens que ocupam a mesma função. E
isso vale para o mundo inteiro.
“A proporção de mulheres que ficam em casa
e cuidam de afazeres domésticos não remunerados é duas vezes e meia maior do
que a de homens”³, enfatiza a ONU.
Um artigo muito interessante,
a respeito, e que sugiro, é “As sementes do feminismo no Brasil”, de Constância Lima Duarte, disponível
em:
Fontes:

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