Por Marcos Rolim
Como se sabe, o senhor Michel Temer
indicou para a vaga de Teori Zavascki, no Supremo Tribunal Federal, o seu
ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. O fato de o indicado ter posições
alinhadas política e ideologicamente com o governo não me parece ser o
problema. Nos Estados Unidos, por exemplo, presidentes
democratas e republicanos se revezam na indicação de magistrados liberais e
conservadores para a Suprema Corte. Entendo que o fundamental não pode ser
medido por esta régua e que os critérios decisivos para uma indicação a
qualquer Tribunal devam ser outros.
O primeiro critério deveria ser o das qualidades morais; o
segundo, a competência técnica. Um ministro do STF se posiciona sobre temas que
afetam a vida de milhões de pessoas, decide sobre interesses de grupos muito
poderosos e pode mesmo alterar a história do País. As responsabilidades
pressupostas são tamanhas que se deve exigir dos indicados que estejam entre os
mais capazes e que sejam exemplos de virtude. Os que integram os Tribunais
devem possuir, mais do que todos os outros, condutas irretocáveis e histórias
de vida admiráveis. Ninguém constrói esse patrimônio sem a necessária
independência, sem ter oferecido suficientes demonstrações de altivez e coragem
cívica. Por essa razão, vassalos e covardes jamais poderiam ser juízes, muito
menos ministros do STF. O mesmo vale para os incompetentes, os ignorantes e os
desazados.
Em nenhum lugar como em um Tribunal a independência é tão
necessária. Sem ela, a própria República naufraga, posto que a última palavra
não pode ser facciosa ou conspurcada pelo interesse. Um magistrado que se
vergasse à "opinião pública" ou ao clamor dos incautos; que alterasse
sua posição para agradar aos gregos ou aos troianos; que não interpretasse a
lei tendo em conta o interesse público, mas seus próprios interesses; que, por
temer a repercussão política de suas decisões, conformasse seu juízo às
expectativas majoritárias, se transformaria, de fato, em um perigoso bandido.
Alexandre de Moraes escreveu em sua tese de doutorado que
"É vedado (para o cargo de ministro do STF) o acesso daqueles que
estiverem no exercício ou tiveram exercido cargo de confiança no Poder
Executivo". A posição deveria ser suficiente para que ele mesmo se
excluísse. Ocorre que a palavra do ministro não vale um vintém. Sua própria
tese, se descobriu, contém passagens inteiras plagiadas de Francisco Rubio
Lorente, ex-presidente do Conselho de Estado espanhol, falecido em 2016. Após o
massacre no presídio de Roraima, Moraes afirmou que o governo do Estado não
havia solicitado ajuda na área. Logo após, veio a público o ofício assinado
pela governadora Suely Campos, enviado ao Ministério um mês antes da tragédia,
pedindo apoio urgente para ações no sistema prisional. A passagem de Moraes
pelo Ministério da Justiça não produziu uma só iniciativa apreciável e sua
saída se dá em um dos momentos mais graves da segurança pública, com a crise
aguda do Espírito Santo ameaçando se alastrar. Sobraram, entretanto,
declarações imbecis. Apenas para lembrar, o "ministro xerox" é o
mesmo que afirmou que iria erradicar a maconha da América e que o Brasil
gastava "muito em pesquisa e pouco em armamento".
Alexandre de Moraes tem 49 anos e seu período no STF
poderá se prolongar por 26 anos. O mal praticado pelos interessados em barrar a
Lava a Jato ("e conter essa sangria") se transformará, então, em uma
longa e impiedosa sentença contra o Brasil. Para assegurar que tudo transcorra
bem, tomou posse na presidência da Comissão de Constituição e Justiça do
Senado, encarregada de sabatinar o indicado, Edison Lobão (PMDB-MA), um dos
investigados pela Lava Jato. Ao que tudo indica, os gangsters seguem operando
com desembaraço. Agora, com mais compreensão do público, claro.
* artigo publicado na edição de 11/02/17, do jornal ZH

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