domingo, 17 de setembro de 2017

Arte e zumbis




De arte e zumbis

Por: Francisco Marshall


E afinal os mortos-vivos atravessaram o muro, mas isso não é Game of Thrones, é Porto Alegre, Brasil, 2017. Invadiram o Museu e mutilaram o espaço em que a inteligência, o engenho e a serenidade podem assegurar a civilização. É incalculável o preço desse ataque de zumbis e dessa rendição ignominiosa, sintomas dos tempos duríssimos que estamos vivendo, em que crescem mobilizações maníacas nutridas por ignorância, em cruzada moralista antipolítica. O nome deste tipo de barbárie é fascismo, e começa com um megafone agredindo oponentes para culminar com brucutus intimidando visitantes do Museu, com robôs semeando discórdia nas redes, e com destruição objetiva da Arte; emergem das sarjetas odiadores sentenciosos, autoimaginados como limpinhos no mesmo ato em que se constituem como grau máximo da imundície – a burrice cultural e a intolerância agressiva.

A Arte contemporânea não preconiza. Ela representa, reflete e problematiza, toma os signos do mundo e os investe de algo mais; cria, manipula e dramatiza símbolos, provoca deslocamentos que são revelações clamando por expressão sensível. Esta arte corajosa rompe os padrões que por séculos sujeitaram artistas aos caprichos do Estado, das religiões e de magnatas, para nos oferecer imagens do que somos e dos mundos que criamos. Estes artistas não querem nos enrolar com historinhas parnasianas, mas examinar conosco graus relevantes do universo humano, nossa psique complexa, os símbolos e linguagens, as dimensões de poder e de violência das relações sociais, incluindo-se a denúncia das violações que suprimem a realização plena da vida, em sua diversidade, felicidade, liberdade e beleza (ideais liberais). Estes artistas não vêm com discurso fácil, mas te convidam a pensar, e isto nem sempre é automático ou simples. É desta forma que a arte enfrenta horrores e coopera no resgate e purificação do mundo da vida. Nesta missão, é natural que se enfrentem adversidades, a começar pelo idioma, longe da retórica clássica, e logo a resistência de quem não aceita que sejam revelados os graus de insensatez da cultura.

Vejamos o caso atual, a alegação de apologia da pedofilia assacada contra a exposição Queermuseu, curadoria de Gaudêncio Fidelis, censurada por fascistas e gestores imprudentes, que clamam que não se pode expor crianças a esta Arte. Ora, quem são as vítimas da pedofilia? Espera-se que religiosos (que ora atacam) e outros abusadores eduquem as crianças para perceberem e reagirem diante desta agressão hedionda e tristemente recorrente? A exposição resgata(va!) visões de vítimas de abusos, artistas com memórias e imagens, para documentar e problematizar este mal. Nada de glamourização didática, nenhuma justificativa para este horror. Eis, então, que zumbis analfabetos, incapazes de compreender a Arte, destroem um cenário educativo destinado a combater um mal. Quem atacou esta exposição por julgá-la pedofílica e imprópria para crianças alinhou-se ao que há de pior – o ocultamento do mal e a defesa dos criminosos que o praticam. 

Agradeçamos aos artistas, curadores, educadores e museus (memoriais e galerias) de verdade, que não recuam em sua missão de defender a civilização pela Arte.
Artigo publicado na edição de 16, 17/09/2017 – Jornal ZH

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