De arte e zumbis
Por:
E
afinal os mortos-vivos atravessaram o muro, mas isso não é Game of Thrones, é
Porto Alegre, Brasil, 2017. Invadiram o Museu e
mutilaram o espaço em que a inteligência, o engenho e a serenidade podem
assegurar a civilização. É incalculável o preço desse ataque de zumbis e dessa
rendição ignominiosa, sintomas dos tempos duríssimos que estamos vivendo, em
que crescem mobilizações maníacas nutridas por ignorância, em cruzada moralista
antipolítica. O nome deste tipo de barbárie é fascismo, e começa com um
megafone agredindo oponentes para culminar com brucutus intimidando visitantes
do Museu, com robôs semeando discórdia nas redes, e com
destruição objetiva da Arte; emergem das sarjetas odiadores sentenciosos,
autoimaginados como limpinhos no mesmo ato em que se constituem como grau máximo
da imundície – a burrice cultural e a intolerância agressiva.
A
Arte contemporânea não preconiza. Ela representa, reflete e problematiza, toma
os signos do mundo e os investe de algo mais; cria, manipula e dramatiza
símbolos, provoca deslocamentos que são revelações clamando por expressão
sensível. Esta arte corajosa rompe os padrões que por séculos sujeitaram
artistas aos caprichos do Estado, das religiões e de magnatas, para nos
oferecer imagens do que somos e dos mundos que criamos. Estes artistas não
querem nos enrolar com historinhas parnasianas, mas examinar conosco graus
relevantes do universo humano, nossa psique complexa, os símbolos e linguagens,
as dimensões de poder e de violência das relações sociais, incluindo-se a
denúncia das violações que suprimem a realização plena da vida, em sua
diversidade, felicidade, liberdade e beleza (ideais liberais). Estes artistas
não vêm com discurso fácil, mas te convidam a pensar, e isto nem sempre é
automático ou simples. É desta forma que a arte enfrenta
horrores e coopera no resgate e purificação do mundo da vida. Nesta missão, é
natural que se enfrentem adversidades, a começar pelo idioma, longe da retórica
clássica, e logo a resistência de quem não aceita que sejam revelados os graus
de insensatez da cultura.
Vejamos
o caso atual, a alegação de apologia da pedofilia assacada
contra a exposição Queermuseu, curadoria de
Gaudêncio Fidelis, censurada por fascistas e gestores imprudentes, que clamam
que não se pode expor crianças a esta Arte. Ora, quem são as vítimas da
pedofilia? Espera-se que religiosos (que ora atacam) e outros abusadores eduquem
as crianças para perceberem e reagirem diante desta agressão hedionda e
tristemente recorrente? A exposição resgata(va!)
visões de vítimas de abusos, artistas com memórias e imagens, para documentar e
problematizar este mal. Nada de glamourização didática, nenhuma justificativa
para este horror. Eis, então, que zumbis analfabetos, incapazes de compreender
a Arte, destroem um cenário educativo destinado a combater um mal. Quem atacou
esta exposição por julgá-la pedofílica e imprópria para crianças alinhou-se ao
que há de pior – o ocultamento do mal e a defesa dos criminosos que o
praticam.
Agradeçamos
aos artistas, curadores, educadores e museus (memoriais e galerias) de verdade,
que não recuam em sua missão de defender a civilização pela Arte.
Artigo
publicado na edição de 16, 17/09/2017 – Jornal ZH

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