Quem seremos nós depois do neoliberalismo é a pergunta que pode nos ajudar nesse momento
Por Márcia Tiburi
Precisamos falar sobre neoliberalismo
Neoliberalismo
é um termo antipático mais pronunciado por quem o critica enquanto economia
política, do que por quem possa, conscientemente ou não, concordar com sua
ideologia. Não falamos sobre neoliberalismo por se tratar de um assunto difícil
do ponto de vista teórico, mas porque muitos preferem mesmo repetir a opinião
que não compromete.
Sabemos no
entanto que, se uma palavra nos perturba, é nela que temos que investir os
esforços da nossa inteligência. Nesse sentido, é preciso enfrentar um problema
semiológico-político: vivemos atualmente sob o signo impronunciado do
neoliberalismo. De fato, um silêncio paira sobre nós para nos livrar da coisa à
qual ela se refere.
E
do que estamos falando? De uma experiência vivida pessoal e coletivamente que
implica o nosso futuro como sociedade. Quem seremos nós depois do
neoliberalismo é a pergunta que pode nos ajudar nesse momento.
Se
o neoliberalismo é a luta de classes dos ricos contra os pobres, podemos ter
certeza de que, com o advento do neoliberalismo, seremos mais pobres. O
neoliberalismo precisa acabar com a luta pela igualdade social e de classes, já
que não se beneficia com ela em sentido algum.
Pensando
no que seremos no futuro, se hoje vivemos sem direitos fundamentais
assegurados, saúde e moradia, educação e trabalho, a tendência projetada pelo
neoliberalismo é que as hordas de alienados, que hoje aplaudem aquilo mesmo que
os destrói, estarão de tal como infelizes que aprofundaremos a barbárie entre
nós em todos os níveis. Em uma sociedade para poucos, com o acirramento da
desigualdade, a violência se intensificará até a barbárie. Como o
neoliberalismo é a vida reduzida ao mercado, ele mesmo providenciará as armas e
lucrará com isso.
O
neoliberalismo é a economia política que faz retornar a luta de todos contra
todos em nome do capital. Projeta-se uma sociedade de muitos perdedores sociais
e econômicos e alguns poucos vencedores articulados com primores de ideologia
disfarçadas de mérito e competência, promessa dos mais eminentes de seus
teóricos.
Privatizar
e desregulamentar economias para entregá-las ao setor privado, é parte do
programa acionado pelo dispositivo ideológico que usa cada corporação, que usa
cada indivíduo como parte do seu plano. Minimizar o Estado para a maioria da
população e reservá-lo às elites econômicas, é a parte nuclear do seu método.
O
próprio neoliberalismo inventou que falar dele soa antipático. Na varredura que
o capital faz pelo mundo afora, até mesmo o Rio Grande do Sul, que parecia um
lugar tão distante e protegido por seus aguerridos cidadãos cuja fama é de
coragem política e senso de cidadania, está sendo levado pelo vento. Precisamos
falar sobre neoliberalismo para soprar essa desgraça para longe de nós.
* Professora da Unirio e autora de “Como conversar com um
fascista” e “Ridículo Político”
artigo publicado em ZH, edição de 3 e 4 de junho de 2017

Nenhum comentário:
Postar um comentário