Foram dias de intenso prazer em Lisboa. Subi e desci não sei quantas vezes as labirínticas ladeiras que desenham a cidade, sorvendo os aromas e as sensações que emanam dos velhos casarios.
Percorri ruelas que se perdiam em becos estreitos, sem
saída. Deixei-me levar pelo delicado movimento das roupas nos varais e pelo
balanço dos móbiles coloridos que enfeitam as escadarias e os botecos - sem
fim. Perdi-me no tempo observando a delicadeza das flores nos vasinhos que
ornam as lindas varandas de ferro “rendado”. Fotografei os diferentes tipos de
ladrilhos, tentando decifrar histórias ali representadas em azul e branco. Deixei
o olhar se perder nos tons pastéis e alaranjados dos telhados que emolduram a velha
capital portuguesa e percebi o quanto é prazeroso viver emoções em uma cidade que
acolhe e inspira, seduz e convida as pessoas a percorrê-la, lenta e
intensamente. E melhor, de forma segura, ou quase, como em qualquer cidade do
mundo.
Então, me pergunto: quantos anos serão necessários para
podermos construir uma cultura de acolhimento, respeito e de valorização humana
em nossas cidades? Quantos anos serão precisos para que possamos apreender e
exigir os direitos de cidadania e usufruir dos nossos produtos culturais? E
quantos anos mais serão necessários para que possamos trafegar seguros e
protegidos nos espaços públicos de nossas cidades? Quando poderemos nos
orgulhar de nossa história e de nossa cultura?
Podemos argumentar que somos um país ainda jovem, que
Portugal tem uma cultura milenar e que a nossa história de vida carrega os resultados
de uma colonização predatória (e a culpa de nossas mazelas tem origem na forma
de dominação aqui praticada pelos portugueses) que introduz as primeiras
práticas de suborno e de corrupção no país. Tudo bem. Mas não deixa de ser
emblemático o fato de não termos superado a condição de “colonizados” e não
termos banido de vez as práticas pouco salutares dessa exploração material e
humana, que começa com os lusitanos, prossegue com os espanhóis, invade e se
entranha aqui com os norte-americanos, e persiste ainda hoje no País.
Todos nós sabemos que os portugueses modernizaram parte do
seu território graças às riquezas extraídas das colônias e à submissão das
populações locais. No entanto, foram precisos milhares de anos para que
Portugal se tornasse o país que é hoje. Há indícios de que fenícios teriam
ocupado áreas da cidade de Lisboa já antes de Cristo (ano 1.200), assim como os
celtas, romanos, germânicos e muçulmanos, logo depois. Dominados e dominantes souberam
tirar proveito das matérias-primas existentes na Península Ibérica desde o
período Neolítico, mas não dispensaram o contrabando ilegal de produtos ao
descobrirem terras além-mar (América do Sul, África, Ásia e Oceania),
urbanizando-se graças às riquezas saqueadas.
Por outro lado, Portugal aprendeu a se refazer e a se
reinventar depois de guerras e, sobretudo, depois da grande catástrofe ocorrida
em 1755: o terremoto que destruiu quase por inteiro a cidade de Lisboa. Aliás,
o Marques de Pombal figura em vários monumentos no País, para lembrar o quanto
empreendedor foi. Reergueu e deu outra feição à capital, promovendo a
modernização e europeização, dentro dos princípios e conceitos urbanos e
estéticos do Iluminismo.
Não sei se as obras construídas pela corte foram
superfaturadas ou não com o dinheiro público. O fato é que elas surpreendem,
encantam e facilitam a vida da população
e dos turistas que debandam em massa para o lado das terras lusitanas
com uma frequência cada vez mais surpreendente. Essa constatação fica
evidenciada pelo clima de segurança que predomina no país - ainda não atingido
(em parte) pela onda de terrorismo e violência que se espalha pelo mundo. Claro,
há pequenas ocorrências, como em todas
as grandes cidades do planeta, mas nada que atinja as dimensões que dominam
os noticiários daqui.
Então, constato um paradoxo cruel. Inebriamo-nos com as
belezas, com a grandiosidade de um patrimônio cultural construído e preservado
e com as grandes obras de infraestrutura realizadas em solo português e percebemos
a ambivalência do nosso papel nesse contexto.
Senti-me como uma filha bastarda, nascida fora da relação,
uma filha que carrega as marcas de uma história de humilhação e de exploração.
Não sei se isso acomete a todos os que visitam Portugal, mas essa sensação
esteve presente em alguns momentos desta minha estada no país: quando
demonstrei ao motorista do táxi que conhecia o itinerário; quando solicitei à
atendente do metrô ressarcimento pelas moedas que a máquina “engoliu” sem
validar o meu ticket; quando pedi arroz no restaurante e o garçom respondeu que
só brasileiro costuma misturar arroz com peixe; quando um senhor reconheceu
minha nacionalidade e disse que tinha pena dos brasileiros... Enfim, predomina uma
certa aversão aos brasileiros e um certo
ar de superioridade de alguns (não digo todos) lisboetas em relação aos
turistas tupiniquins.
Apesar desses pequenos detalhes, que em nada abalam a
minha contemplação com os feitos portugueses e a minha identificação que não se
limita à língua, rebato com a musicalidade e sutileza dos versos de Caetano,
que muito dizem sobre essa questão já há muito superada: dominados x
dominadores. Viva a nossa cultura! Sejamos imperialistas, cadê!
Lene, que tri!! Parabéns pelo texto, paradoxo interessante, para pensar e, sobretudo, agir!!
ResponderExcluirLene, que tri!! Parabéns pelo texto, paradoxo interessante, para pensar e, sobretudo, agir!!
ResponderExcluirQue bom que gostaste do texto! Obrigada pelo comentário - fico feliz. Beijo!
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