“Vão
catar coquinho”. Esta foi a frase da semana, proferida pelo promotor José Carlos
Blat, do Ministério Público de São Paulo, e um dos responsáveis pelo pedido de
prisão preventiva de Lula, argumentando saber a diferença entre Engels e
Hegel. Será que sabe?
À
propósito da confusa petição emitida pela promotoria estadual e com o intuito
de enfatizar a arbitrariedade do ato, muito bem analisada por Marcos Rolim (edição
ZH deste final de semana), reproduzo texto de Jean Wyllys, postado hoje no facebook e que esclarece a questão.
SOBRE MARXISTAS, HEGELIANOS E PALHAÇOS
Georg Wilhelm Friedrich Hegel morreu em Berlim em 1831, quando o
jovem Karl Marx tinha apenas 13 anos e estudava no Ginásio de Trier, na Renânia
prussiana. Ainda faltavam quase dez anos para que aquele adolescente, que
gostava de escrever poesia e ainda não tinha decidido qual seria sua carreira,
conhecesse, nos círculos intelectuais da juventude de Berlim, a obra do
filósofo que acabaria se tornando uma de suas obsessões intelectuais. Em 1844, durante seu exílio em Paris, o já doutor Marx,
que começava sua passagem do liberalismo democrático ao socialismo, que depois
o levaria ao comunismo, publica no único número que chega a ser impresso dos
Anais Franco-Alemães seu artigo "Introdução a uma crítica da Filosofia do
Direito de Hegel", uma das obras onde abordará criticamente o pensamento
do autor da "Fenomenologia do Espírito", entre outras obras
fundamentais da filosofia.
Mas,
apesar da confusão histórica dos promotores do MP de São Paulo, Marx e Hegel
nunca se conheceram.
No mesmo ano da publicação daquele artigo sobre Hegel, ainda em
Paris, Marx conhece outro jovem turbulento como ele, o já comunista declarado
Friedrich Engels, com quem terá longas conversas no Café de la Régance. Filho
rebelde de um rico empresário, Engels acabará se tornando o melhor amigo,
parceiro político e mecenas de Marx, com quem escreverá vários livros, entre
eles o Manifesto comunista.
Não é tão difícil reunir as informações básicas dos dois
parágrafos anteriores. Há nas livrarias biografias de todos os personagens
históricos citados e, para quem preferir uma obra curta, bem escrita e de
leitura agradável, eu recomendo o livro "Marx, manual de instruções",
de Daniel Bensaïd.
Num país onde a maioria das pessoas não leem livros e por volta
de dois terços da população não consegue compreender textos, não estranha que
Hegel possa ser confundido com Engels e que Nietzsche seja citado para
argumentar em favor do contrário daquilo que ele defendeu, mas seria razoável
esperar que advogados que ocupam cargos de responsabilidade no Ministério Público
e têm a responsabilidade de investigar um ex-presidente da República não sejam
tão, tão burros.
Contudo, a confusão entre o amigo e o filósofo que inspirou os
primeiros trabalhos intelectuais de Marx não é mais do que um detalhe engraçado
numa peça que não tem graça nenhuma. A falta de fundamentação jurídica, as
contradições, os argumentos toscos e a redação medíocre do pedido de prisão
preventiva do ex-presidente Lula são um sintoma grave de degradação
institucional e política. Não é possível que um assunto tão sério seja tratado
com tão pouca seriedade.
Eu espero que, pelo menos, o ocorrido sirva para alguma coisa.
Que os cursos de Direito das nossas faculdades usem esse texto ridículo como
material de estudo para os seus alunos: como um exemplo do tipo de palhaçada
que nunca devem fazer se quiserem ser respeitados como profissionais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário