domingo, 13 de março de 2016

Catar coquinho & outras degradações



“Vão catar coquinho”. Esta foi a frase da semana, proferida pelo promotor José Carlos Blat, do Ministério Público de São Paulo, e um dos responsáveis pelo pedido de prisão preventiva de Lula, argumentando saber a diferença entre Engels e Hegel. Será que sabe?
À propósito da confusa petição emitida pela promotoria estadual e com o intuito de enfatizar a arbitrariedade do ato, muito bem analisada por Marcos Rolim (edição ZH deste final de semana), reproduzo texto de Jean Wyllys, postado hoje no facebook e que esclarece a questão.

SOBRE MARXISTAS, HEGELIANOS E PALHAÇOS


Georg Wilhelm Friedrich Hegel morreu em Berlim em 1831, quando o jovem Karl Marx tinha apenas 13 anos e estudava no Ginásio de Trier, na Renânia prussiana. Ainda faltavam quase dez anos para que aquele adolescente, que gostava de escrever poesia e ainda não tinha decidido qual seria sua carreira, conhecesse, nos círculos intelectuais da juventude de Berlim, a obra do filósofo que acabaria se tornando uma de suas obsessões intelectuais. Em 1844, durante seu exílio em Paris, o já doutor Marx, que começava sua passagem do liberalismo democrático ao socialismo, que depois o levaria ao comunismo, publica no único número que chega a ser impresso dos Anais Franco-Alemães seu artigo "Introdução a uma crítica da Filosofia do Direito de Hegel", uma das obras onde abordará criticamente o pensamento do autor da "Fenomenologia do Espírito", entre outras obras fundamentais da filosofia.
Mas, apesar da confusão histórica dos promotores do MP de São Paulo, Marx e Hegel nunca se conheceram.
No mesmo ano da publicação daquele artigo sobre Hegel, ainda em Paris, Marx conhece outro jovem turbulento como ele, o já comunista declarado Friedrich Engels, com quem terá longas conversas no Café de la Régance. Filho rebelde de um rico empresário, Engels acabará se tornando o melhor amigo, parceiro político e mecenas de Marx, com quem escreverá vários livros, entre eles o Manifesto comunista.
Não é tão difícil reunir as informações básicas dos dois parágrafos anteriores. Há nas livrarias biografias de todos os personagens históricos citados e, para quem preferir uma obra curta, bem escrita e de leitura agradável, eu recomendo o livro "Marx, manual de instruções", de Daniel Bensaïd.
Num país onde a maioria das pessoas não leem livros e por volta de dois terços da população não consegue compreender textos, não estranha que Hegel possa ser confundido com Engels e que Nietzsche seja citado para argumentar em favor do contrário daquilo que ele defendeu, mas seria razoável esperar que advogados que ocupam cargos de responsabilidade no Ministério Público e têm a responsabilidade de investigar um ex-presidente da República não sejam tão, tão burros.
Contudo, a confusão entre o amigo e o filósofo que inspirou os primeiros trabalhos intelectuais de Marx não é mais do que um detalhe engraçado numa peça que não tem graça nenhuma. A falta de fundamentação jurídica, as contradições, os argumentos toscos e a redação medíocre do pedido de prisão preventiva do ex-presidente Lula são um sintoma grave de degradação institucional e política. Não é possível que um assunto tão sério seja tratado com tão pouca seriedade.


Eu espero que, pelo menos, o ocorrido sirva para alguma coisa. Que os cursos de Direito das nossas faculdades usem esse texto ridículo como material de estudo para os seus alunos: como um exemplo do tipo de palhaçada que nunca devem fazer se quiserem ser respeitados como profissionais.

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