terça-feira, 12 de abril de 2016

Bárbaros



João Pedro Gil

Tive um professor (é sempre com orgulho que menciono essa categoria profissional a qual pertenço),  que me fez um questionamento e mudou totalmente meu olhar sobre o ensino de teatro e a vida acadêmica: é possível fazer ciência da arte?

Com esta pergunta, ele me provocou a me aproximar da filosofia, estudar Hegel e penetrar na Escola de Frankfurt: Adorno, Horkheimer e Marcuse. Mas quem definiu melhor minha dialética foi Habermas. Numa simples fórmula exata para as ciências humanas, ele resumiu o dilema: CA=E² sendo que CA significa conhecimento autônomo e E² se refere a esclarecimento e emancipação.

No projeto da teoria crítica, como pensamento reflexivo, entende-se esclarecimento como capacidade de ação em estipular quais são nossos verdadeiros interesses frente às reflexões realizadas. Entende-se emancipação como libertação do pensamento próprio, individual, sem nenhum tipo de coerção. O que vimos na comissão especial da Câmara dos Deputados que trata do impeachment da presidente Dilma é ausência total dos princípios básicos para uma pessoa emancipada. Ao ponto de um representante do Partido da Mulher Brasileira (sem mulheres) citar Ésquilo, um dos três maiores trágicos gregos, sem o acento, confundindo com aquele bichinho que passeia nos parques americanos. Nas redes sociais e até na Universidade os ataques ao bom senso e à civilidade se tornaram constantes. A atual governante e as mulheres são as maiores vítimas.

Aqui não se confunde informação com conhecimento. A informação pode ser guiada por todos os meios. O conhecimento não. Esse é gerado na relação entre sujeitos, construído historicamente. Por isso a memória é importante. Por isso os professores são importantes. Como não relacionar os movimentos políticos de hoje com acontecidos em 1964?  Como ignorar isto? A peça “Rasga coração”, de Vianinha (1936-1974), trata exatamente deste conflito de gerações e posições. E foi censurada. E teve sua leitura dramática realizada no Clube de Cultura de Porto Alegre em 1972, com a Polícia Federal proibindo a manifestação. Como esquecer isso? Ainda bem que, por toda a luta daquele período, hoje, os policiais federais estão tratando de outros assuntos.

Porém, novamente, chegamos ao ápice das contradições: pichações em espaços públicos, argumentos nas redes e na imprensa tentam questionar as turbulências políticas que atravessam o país. Na época em que cheguei ao Departamento de Arte Dramática, estava escrito nas paredes do prédio da Salgado Filho, 340, “Abaixo os comunistas! Viva O CCC!” Depois é que entendi: tratava-se do Comando de Caça. Mudaram os slogans, mas a patrulha permanece. O que tem a ver os comunistas com tudo isso? Ainda “matam criancinhas?” A falta de esclarecimento é tamanha que modifica os critérios de recepção artística: Chico Buarque é um compositor menor e Luis Fernando Veríssimo, um péssimo escritor. A médica não atendeu paciente porque não tem o mesmo vínculo ideológico. A não tomada de posição é justificada pelo niilismo e já que estamos numa terra de urubus é melhor dar carniça.

Não existe neutralidade na ciência, que dirá imparcialidade nos processos comunicativos. “Todo signo é ideológico” já dizia Bakthin (1895-1975). Assim,  caros leitores deste blog (seguindo a proposta do jornalista Juremir Machado da Silva para autores marginais) não basta a informação teleguiada, não basta opinião. “Opinião é a maior desgraça do ser humano”, afirmava Deleuze (1925-1995). É preciso conhecimento reflexivo. Não devemos esquecer que os frankfurtianos surgiram para explicar como uma sociedade industrializada, informada, como a alemã, na metade do século passado, deixou que um nazista a dominasse. Será que  caminhamos para isso?

É verdade que a maioria da população brasileira não teve e não tem acesso ao conhecimento, à cultura, por falta de condições materiais. Mas, quando a gente vê de onde partem os ataques à democracia, percebemos como é atual a Teoria Crítica. Estes que picham, que falam bobagens e se escondem serão bárbaros, primitivos?



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