quinta-feira, 21 de abril de 2016

Excluir amigos é sensato?


Por mais que alguns “amigos” me surpreendam com seus argumentos e pontos de vista diametralmente opostos aos meus, posiciono-me contrária à exclusão de amigos nas redes de relacionamento. O fato de pensarem diferente de mim não me dá motivo suficiente para promover uma cassação pública em rede.

Penso na ágora dos gregos e no quanto a discussão de ideias foi determinante para a evolução do pensamento.

Penso também que, se um dia eu os aceitei como amigos, foi porque acreditava terem algo em comum comigo.

Percebo que tenho o dever de, pelo menos, tentar entender  o porquê de alguns deles pensarem de maneira diferente da minha; quais os referenciais de análise que eles têm para se posicionarem de um modo que não condiz com as minhas crenças e visões de mundo. O que subsidia seus argumentos? Que motivos essas pessoas têm para pensarem a realidade de um jeito que me parece diferente? Que história de vida foi construída e que sociedade foi idealizada por essas pessoas? É estranha a minha? Sem dúvida. Talvez por isso mesmo, seja o momento de ponderar e respeitar o direito que todos têm de emitir suas opiniões, mesmo que agridam a meus princípios.

Imagino como seríamos ignorantes se fôssemos impedidos de discutir. Ou como nos tornaríamos passivos e complacentes em um ambiente de total concordância. Não haveria espaço para a divergência e nem para o aprofundamento do que conhecemos de forma rasa. Estaríamos conversando em círculo. Não mudaríamos nada. A concordância de concepções sobre o homem, a sociedade e o mundo não emanciparia os sujeitos para a elaboração de modelos de sociedade mais justos. Visões reacionárias continuariam existindo e tentando se impôr sobre o bom senso. A falta de esclarecimento sobre os fatos da realidade inviabilizaria a possibilidade da crítica. Não é isso que estamos vivendo no Brasil?

Na tentativa do entendimento e da compreensão sobre os argumentos divergentes, percebo que todos nós temos interesses diferentes. Diferentes e, em grande medida, conflitantes.

Compreendo que algumas pessoas tendem a defender prioritariamente o seu modus vivendi: a família, o trabalho, a propriedade, a preservação dos bens, dos negócios e da fé que baliza suas ações e suas relações com o mundo. Outros, vão um pouco além e pensam no todo, ou seja, nas condições de vida globais, nos interesses e benefícios coletivos. Alguns optam por não se inserirem no sistema produtivo, buscando formas alternativas de sobrevivência.

A democracia, penso, abarca o conjunto dessas diferentes visões. Se eu pensar numa sociedade ideal e justa, democrática e inclusiva, acredito que devamos colocar em primeiro lugar a garantia dos direitos mínimos a todos. No mínimo. Isso, para mim, é condição básica para a existência em uma sociedade democrática plena.   

Mas, evidentemente, essa condição pesa, tenciona e dá vazão a conflitos, provocando dicotomias e contradições. Como defender os interesses dos outros acima dos meus interesses? Como colocar em segundo plano os meus objetivos?

No entanto, ao compreender que devo respeitar a opinião do outro, mesmo que não a aceite, respondendo de forma digna num esforço de superação inteligente e eficaz de um conflito de ideias, estou aceitando a alteridade necessária à existência da democracia, na qual eu quero viver.

Nesse “duelo” de interesses e nesse propósito de aclarar as razões que me levam a posicionamentos ideológicos divergentes dos de muitos dos meus amigos da rede virtual e da vida concreta, tenho buscado não o convencimento coercitivo, que impõe e exclui o pensamento contrário ao meu, mas a exposição dos meus argumentos que representam as minhas convicções, baseadas em premissas e em valores nos quais acredito. Nesse agir comunicativo difícil e conflitante, tenho veiculado mensagens coerentes com o meu modo de ver a realidade e de pensar sobre ela, acreditando poder, assim, suscitar novas reflexões e abordagens, contextualizadas e não apenas ligadas a questões pessoais ou de interesses de classe. Acredito na possibilidade de convivência dialética ao abrir espaço às diferentes visões.

Nesse confronto, o humor é fundamental e a ironia um excelente antídoto à falta de esclarecimento. O #belarecatadaedolar está aí para demonstrar isso.

Se a gente quer vislumbrar uma evolução no modo de pensar a sociedade e transformá-la efetivamente, temos que conviver com a alteridade de pensamento, de modo ativo, civilizado e inteligente. O resto é apenas silêncio e ignorância.

E, vamos combinar, ignorância e más intenções só se combatem com argumentação e "muuuuuita" generosidade!

Por Lene Franck 

 

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