Por mais que alguns “amigos” me surpreendam com
seus argumentos e pontos de vista diametralmente opostos aos meus, posiciono-me
contrária à exclusão de amigos nas redes de relacionamento. O fato de pensarem
diferente de mim não me dá motivo suficiente para promover uma cassação pública
em rede.
Penso na ágora dos gregos e no quanto a discussão
de ideias foi determinante para a evolução do pensamento.
Penso também que, se um dia eu os aceitei como
amigos, foi porque acreditava terem algo em comum comigo.
Percebo que tenho o dever de, pelo menos, tentar
entender o porquê de alguns deles
pensarem de maneira diferente da minha; quais os referenciais de análise que eles
têm para se posicionarem de um modo que não condiz com as minhas crenças e
visões de mundo. O que subsidia seus argumentos? Que motivos essas pessoas têm
para pensarem a realidade de um jeito que me parece diferente? Que história de
vida foi construída e que sociedade foi idealizada por essas pessoas? É
estranha a minha? Sem dúvida. Talvez por isso mesmo, seja o momento de ponderar
e respeitar o direito que todos têm de emitir suas opiniões, mesmo que agridam a
meus princípios.
Imagino como seríamos ignorantes se fôssemos impedidos
de discutir. Ou como nos tornaríamos passivos e complacentes em um ambiente de
total concordância. Não haveria espaço para a divergência e nem para o
aprofundamento do que conhecemos de forma rasa. Estaríamos conversando em círculo.
Não mudaríamos nada. A concordância de concepções sobre o homem, a sociedade e
o mundo não emanciparia os sujeitos para a elaboração de modelos de sociedade
mais justos. Visões reacionárias continuariam existindo e tentando se impôr sobre
o bom senso. A falta de esclarecimento sobre os fatos da realidade inviabilizaria
a possibilidade da crítica. Não é isso que estamos vivendo no Brasil?
Na tentativa do entendimento e da compreensão sobre
os argumentos divergentes, percebo que todos nós temos interesses diferentes. Diferentes
e, em grande medida, conflitantes.
Compreendo que algumas pessoas tendem a defender prioritariamente
o seu modus vivendi: a família, o
trabalho, a propriedade, a preservação dos bens, dos negócios e da fé que
baliza suas ações e suas relações com o mundo. Outros, vão um pouco além e pensam
no todo, ou seja, nas condições de vida globais, nos interesses e benefícios coletivos.
Alguns optam por não se inserirem no sistema produtivo, buscando formas
alternativas de sobrevivência.
A democracia, penso, abarca o conjunto dessas
diferentes visões. Se eu pensar numa sociedade ideal e justa, democrática e
inclusiva, acredito que devamos colocar em primeiro lugar a garantia dos
direitos mínimos a todos. No mínimo. Isso, para mim, é condição básica para a
existência em uma sociedade democrática plena.
Mas, evidentemente, essa condição pesa, tenciona e dá
vazão a conflitos, provocando dicotomias e contradições. Como defender os
interesses dos outros acima dos meus interesses? Como colocar em segundo plano
os meus objetivos?
No entanto, ao compreender que devo respeitar a
opinião do outro, mesmo que não a aceite, respondendo de forma digna num
esforço de superação inteligente e eficaz de um conflito de ideias, estou
aceitando a alteridade necessária à existência da democracia, na qual eu quero
viver.
Nesse “duelo” de interesses e nesse propósito de aclarar
as razões que me levam a posicionamentos ideológicos divergentes dos de muitos
dos meus amigos da rede virtual e da vida concreta, tenho buscado não o
convencimento coercitivo, que impõe e exclui o pensamento contrário ao meu, mas
a exposição dos meus argumentos que representam as minhas convicções, baseadas em
premissas e em valores nos quais acredito. Nesse agir comunicativo difícil e conflitante,
tenho veiculado mensagens coerentes com o meu modo de ver a realidade e de pensar
sobre ela, acreditando poder, assim, suscitar novas reflexões e abordagens, contextualizadas
e não apenas ligadas a questões pessoais ou de interesses de classe. Acredito
na possibilidade de convivência dialética ao abrir espaço às diferentes visões.
Nesse confronto, o humor é fundamental e a ironia um
excelente antídoto à falta de esclarecimento. O #belarecatadaedolar está aí
para demonstrar isso.
Se a gente quer vislumbrar uma evolução no modo de pensar
a sociedade e transformá-la efetivamente, temos que conviver com a alteridade
de pensamento, de modo ativo, civilizado e inteligente. O resto é apenas
silêncio e ignorância.
E, vamos combinar, ignorância e más intenções só se
combatem com argumentação e "muuuuuita" generosidade!
Por Lene Franck
Por Lene Franck

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