Edgar
Morin: quase um século de complexidade e sabedoria
(por Juremir
Machado da Silva)
Defensor da teoria da complexidade, Edgar Morin, nascido
em Paris, em 8 de julho de 1921, chega aos 95 anos de idade escrevendo,
viajando, palestrando e comportando-se como o intelectual que tem sido desde a
sua resistência ao invasor nazista na França ocupada da Segunda Guerra Mundial.
Autor de dezenas de livros, tem como obra-prima os seis volumes de O Método.
Sociólogo, filósofo,
epistemólogo, antropólogo e pensador da sociedade contemporânea, ele escreveu
sobre quase tudo, das vedetes de cinema ao imaginário da morte.
A edição do
Caderno de Sábado do Correio do Povo (08/07/16) traz três artigos de conhecedores da sua obra e uma pequena
entrevista, feita por e-mail, com o sempre jovem e curioso Edgar, que recebeu
no distante ano 2000 o título de Doutor Honoris Causa pela PUCRS.
Caderno de Sábado – Qual é a sensação de ter visto quase
tudo ao longo de um século : a Alemanha nazista, a guerra, a resistência,
o império soviético e seu desaparecimento, os « ismos » – marxismo,
existencialismo, estruturalismo, maoísmo –, o homem na lua, a televisão, a
internet ?
Edgar Morin – A sensação de que não aprendemos com o passado, não
tiramos as conclusões necessárias dos erros, que se reproduzem no presente:
inconsciência, sonambulismo, ilusão.
CS –
De todos esses acontecimentos qual o marcou mais?
Morin –
A guerra e a resistência.
CS – O senhor é um homem de livros, dos livros. Teme que o
livro, em papel, ao menos, vá desaparecer?
Morin –
A televisão não matou o rádio ; o cinema não matou a literatura; o livro
nas telas não matará o livro em papel, mas fará com que ele perca espaço.
CS – O senhor sempre combateu por um mundo melhor.
Acredita que não há mais utopias. O capitalismo, apesar das suas crises, venceu
em definitivo?
Morin –
O planeta marcha para prováveis catástrofes, mas, às vezes, o improvável
acontece e muda o destino das coisas.
CS – A França passa por mais uma crise. O governo
socialista quer modificar a legislação trabalhista. Trata-se de mais um sinal
do fim de uma concepção de mundo?
Morin –
Um mundo agoniza, mas um novo mundo ainda não consegue nascer.
CS – O cinema e a televisão foram objetos dos seus
estudos, que abordaram as estrelas, as vedetes e os olimpianos. Qual personagem
desse mundo do imaginário midiático mais o marcou?
Morin –
Charles Chaplin.
CS – A sua cultura é gigantesca, enciclopédica. O senhor
passou a vida lendo. Que livros mudaram a sua vida?
Morin – Crime e Castigo e Os
Irmãos Karamazov, de Dostoievski; as obras de Montaigne, Pascal,
Spinoza, Hegel, Karl Marx e Jean-Arthur Rimbaud.
CS –
A reforma do pensamento, necessária à complexidade, defendida em suas obras,
está em curso?
Morin –
Ela está apenas começando.
CS – A idade mudou a sua maneira de ver a vida e o mundo?
Morin –
Ainda não.
CS – A idade muda o olhar dos outros?
Morin –
Uns veem a minha velhice; outros, veem a juventude da minha velhice.
CS – O senhor tem medo de morrer?
Morin –
De vez em quando.
CS – A poesia e os poetas ainda o encantam? Que poema vem
em primeiro lugar à sua mente?
Morin –
“O lago”, de Lamartine.
Caderno de Sábado, jornal Correio do Povo, edição de 08/07/2016
Leia mais em: http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/

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