Em recente
entrevista à Carta Capital, o filósofo esloveno Slavoj Žižek mostra-se insatisfeito com a incapacidade
de a esquerda atual (em âmbito global) propor alternativas ao capitalismo e
retoma temas do seu livro O Sujeito Incômodo: O Centro ausente da ontologia
política, escrito em 1999.
Žižek é conhecido por fazer referências a Jacques Lacan em suas obras sobre cultura popular e por abordar temas como o cinema de Alfred Hitchcock e David Lynch, além de tópicos
como fundamentalismo, tolerância, correção política, subjetividade
nos tempos pós-modernos, dentre outros.
A seguir, a íntegra da entrevista:
CartaCapital: Em seu livro, O Sujeito Incômodo, o senhor discorre sobre
como a proposta de uma transformação global da sociedade tem dado lugar à
defesa de subjetividades particulares no mundo pós-moderno. O senhor acha que
os últimos 17 anos têm confirmado essa leitura?
Slavoj
Žižek: Ainda
não há uma alternativa positiva de esquerda. Sabemos que o capitalismo global é
um problema, mas como devemos agir para reestruturar a sociedade global? Nisso
a minha análise antiga ainda se sustenta.
Muitos dos meus amigos latino-americanos e europeus pensam que a
forma de resistir ao capitalismo é por meio de tradições e Estados Nacionais.
Na Europa, uma das linhas predominantes da esquerda radical também defende
essas tradições, como no caso do Brexit no Reino Unido.
Eles afirmam que a União Europeia é uma organização em defesa do
avanço do capital internacional e a única forma de salvar o Estado do Bem-Estar
Social e até desenvolvê-lo é por meio da defesa de Estados Nacionais fortes,
até mesmo de espécie nacionalista.
Há esquerdistas que falam na necessidade de um Socialismo
Nacional, em lugar do Nacional Socialismo (Nazismo). Não acho que isso
funcione, é uma catástrofe.
CC: Movimentos horizontais como o Syriza, na Grécia, e o Podemos, na Espanha, não são o caminho?
SŽ: Considero-me
mais vertical e menos horizontal. O horizontalismo pode funcionar em nível
local, mas está fadado a uma tragédia, como mostrou a chegada do Syriza ao
poder na Grécia. A solução é pensar em formular novas intervenções estatais.
Uma vez debati com integrantes de organizações anarquistas que me
falaram de sua intenção em viver em comunidades locais e de se organizar de
forma autônoma. Mas disse a eles que isso só funciona se houver um grande
Estado invisível, capaz de fornecer energia, água, um sistema de saúde, leis e
ordem.
A esquerda não deve ter medo em redescobrir a força do Estado. Sei
que não é muito popular defender essas ideias hoje em dia, mas vivemos um
momento estático. Há alguns que se empolgam: “Olha só, 1 milhão de pessoas na
Praça Tahrir, no Egito, foi divino, nós triunfamos”.
Eu não me importo com esse tipo de conquista. Em inglês, fala-se
muito sobre a morning after (a manhã seguinte), após uma noite de bebedeira. A
revolução não é o porre, a revolução está na ressaca do dia seguinte. Costumo
fazer uma piada sobre aquele filme V de vingança.
Ele termina com cidadãos mascarados tomando o Parlamento. Eu
adoraria mesmo é assistir V de Vingança, parte 2. O que eles fariam no dia seguinte, como reorganizariam a
vida cotidiana? Alguns me classificam como um comunista retrógrado, mas na
verdade sou um pragmático.
CC: Na América Latina, governos com viés de esquerda foram
majoritários nas últimas décadas, mas essa tendência tem mudado com a eleição
do conservador Mauricio Macri na Argentina, a fragilidade do governo de Nicolás
Maduro na Venezuela e o processo de impeachment de Dilma Rousseff no Brasil.
Como o senhor avalia a situação política na região?
SŽ: Eu não tenho conhecimento profundo, mas te darei a minha
impressão. Jamais houve um movimento revolucionário autêntico no continente. Os
únicos regimes pelos quais nutria alguma simpatia era o Brasil de Lula e a
Bolívia de Evo Morales.
Eu não posso julgar a corrupção no Brasil, mas as revelações
recentes de que os defensores do impeachment de Dilma o fizeram para proteger seus esquemas mostram como se trata
de um escândalo muito complexo. Mas por que o Brasil teve sucesso relativo nos
últimos anos?
Pela adoção de um programa modesto de social-democracia. Não estou
dizendo que isso é ruim, veja, não sou um marxista arrogante. Eles são
moderados, não estão preocupados com grandes gestos simbólicos, e talvez esse
seja o caminho possível hoje.
A tragédia brasileira não reside apenas no impeachment, mas no impacto da crise econômica mundial sobre a
derrocada do projeto de Lula. Ainda assim, durante seus anos de governo, ele
retirou muitos brasileiros da miséria.
Não deveríamos imaginar que ao elegermos um novo governo teremos
grandes mudanças. Alterações globais dependem de uma grande crise econômica, ou
ecológica, em um nível internacional.
CC: Na França, a reforma trabalhista proposta por François
Hollande, do Partido Socialista, foi respondida com uma série de protestos
sindicais. O senhor acha que os partidos de esquerda têm se tornado cada vez
mais parecidos com as legendas conservadoras?
SŽ: Estou lentamente descobrindo uma
lei quase geral. Se o objetivo é uma política neoliberal contra sindicatos e a legislação
trabalhista, apenas um governo dito de esquerda pode impô-la.
Angela Merkel, a princípio conservadora, tem dado continuidade ao
Estado de Bem-Estar Social na Alemanha. Essa é a grande ironia. Há alguns
direitistas que acusam Merkel de ser uma comunista secreta, pois ela nasceu na
Alemanha Oriental. É um paradoxo político muito interessante.
Há movimentos de esquerda que só uma grande força de direita
consegue fazer, e vice-versa. Só Richard Nixon foi capaz de fazer a paz com a
China. Se fosse um governo de esquerda, ele seria acusado de traição. Na
França, só Charles de Gaulle foi capaz de dar independência à Argélia.
Logo, se o capital global exige intervir na legislação
trabalhista, somente um presidente dito de esquerda pode fazer isso.
CC: Como o senhor analisa a ascensão de
representantes da extrema-direita como Donald Trump nos Estados Unidos?
SŽ: Eu não gosto desse foco no Trump. Ele é um fenômeno ambíguo. Por um lado, é abertamente racista, nojento, mas ele
quase não fala sobre mudanças concretas. Para mim, o verdadeiro monstro era Ted
Cruz, pré-candidato republicano.
A ascensão de Trump é uma situação perigosa, claro, mas devemos
ter em conta que o mesmo caos responsável por sua popularidade também
fortaleceu Bernie Sanders. Novas regras da política estão sendo escritas.
Anteriormente, apenas mencionar o socialismo nos Estados Unidos
era um suicídio político. Sanders reabilitou o termo. O grande desafio da
esquerda é não se deixar fascinar por esses novos inimigos fascistas, mas repensar suas posições e equívocos nesses tempos
conturbados.

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