quinta-feira, 4 de agosto de 2016

No Brasil, o diabo não veste Prada

Por Antenor Fischer

Mesmo sendo adepto da dialética e acreditando em velhos ditados – como os que ensinam que “da discussão nasce a luz” e que “é conversando que a gente se entende” –, eu estava decidido a não mais me manifestar sobre a patacoada do processo de impeachment de Dilma Rousseff, que finalmente está chegando ao término, naquele circo de horrores que é o nosso Senado Federal.

Ocorre, porém, que acabo de ouvir no rádio mais uma manchete sobre Lula, o torneiro mecânico que teve a ousadia de transformar em inferno o paraíso construído e legado pelo seu antecessor, o acadêmico presidente FHC. Por essa razão e, também, por gostar de uma boa charla, resolvi sacrificar parte desta manhã ensolarada.

Enquanto tomo meu chimarrão, na companhia de meus nove vira-latas, “cevo” alguns parágrafos, que gostaria de compartilhar com você, já que não tenho como lhe oferecer um mate.

Começo lançando, aqui, alguns questionamentos que andei remoendo e que, agora, ao ouvir a manchete no rádio, voltaram a martelar meu insano e limitado cérebro: por que será que, só agora, após 127 da proclamação da República, surgiu em nosso país um juiz com tamanho senso de justiça, quanto Sérgio Moro?

Por que será que, ao longo de mais de um século de República, em que a elite esteve no comando da nação, cometendo os maiores abusos e atrocidades, o Judiciário sempre se manteve em segundo plano, para não dizer inativo?

Sim, desde que me conheço por gente, nunca vi o Judiciário e, principalmente, sua instância superior, o STF, tomar qualquer medida para punir ou, mesmo, inibir os abusos dos sucessivos mandatários da nação.

No período pós-ditadura, Sarney, Collor (deixo de fora o Itamar, que parecia ser um sujeito honesto) e FHC se envolveram em inúmeros escândalos e casos de corrupção (só o último, em seus oito anos de governo, esteve envolvido diretamente em, pelo menos, duas dezenas de casos escabrosos). Todos eles saíram impunes, inclusive Collor, que teve seu mandato cassado por corrupção.

Nos processos cujos crimes não caducaram por decurso de prazo o STF o absolveu. Com ficha limpa, o ex-caçador de marajás e defensor dos descamisados voltou ao Senado, onde ficará até ficar senil. Mais do que já é, quero dizer. Exatamente como o patriota Sarney, que só decidiu interromper sua longa vida de “serviços prestados à nação” quando se deu conta de que já era um morto-vivo.

Ainda falando de impunidade política, você se lembra do rumoroso escândalo dos anões do orçamento, ocorrido no final dos anos 80 e início dos 90, do século passado? Uma CPI, criada em 1993, investigou 37 parlamentares, todos de partidos da direita, envolvidos em esquemas de fraudes na Comissão de Orçamento do Congresso Nacional. Os tais anões roubaram mais de cem milhões de reais (em valores da época) e se tornaram réus num processo que se arrastou no STF até 2014 (levando, portanto, mais de 20 anos para ser julgado!). Você sabe quantos dos 37 políticos envolvidos na roubalheira foram condenados? Nenhum! Apenas o assessor de um dos parlamentares não saiu impune, mas mesmo assim ficou livre de cumprir a pena porque o crime já estava prescrito. Mas, este parágrafo está ficando mui longo... Vou tomar um chimarrão, antes que a água esfrie.
 
Bueno! Enquanto tomava o chimarrão, ouvi de novo a tal manchete: “delator da OAS revela doação de dinheiro de caixa dois para PMDB, PPB e para Lula”. Por que para dois partidos e para uma pessoa física? É visível que, já há algum tempo (ou desde sempre?), o quarto poder se encontra empenhado em demonizar Lula, Dilma e o Partido dos Trabalhadores.

Diante de todas as denúncias e evidências, não tenho dúvida de que o PT praticou, nas campanhas eleitorais de Lula e Dilma, os mesmos crimes que os demais partidos cometeram. Para chegar ao poder, foi obrigado a jogar o jogo... Também não sou ingênuo a ponto de acreditar que Lula é totalmente inocente de todas as acusações que lhe fazem, mas estou certo de que, comparado com o que fizeram esses quadrilheiros acoitados no PSDB e PMDB, que hoje comandam nossos destinos, Lula é quase um anjo.

Mas, como eu dizia, o quarto poder vem empenhado na tarefa de atribuir a Lula, a Dilma, ao PT, enfim, aos trabalhadores, todas as mazelas do Brasil. Mentiras do tipo “nunca houve tanta corrupção no país” e “O PT acabou com o Brasil”, de tantas vezes repetidas, já são aceitas – até por alguns que tem o cérebro maior que uma ervilha – como verdades inquestionáveis. 

Você já se deu conta de que a todos os supostos “crimes” cometidos por Lula são atribuídos pesos inversamente proporcionais àqueles que são conferidos aos crimes cometidos pelos representantes das elites?

Lembram o escândalo que deixou a imprensa brasileira estarrecida, no final da campanha presidencial de 1989, quando Collor revelou ao país que Lula tinha uma filha, fora do casamento? A imprensa noticiou o fato como se o mundo tivesse acabado. Aquilo (juntamente com a montagem do último debate eleitoral, feita pela TV Globo, e o sequestro forjado do empresário Abílio Diniz, no dia da eleição) foi decisivo para a vitória de Collor.

Agora, como agiu a imprensa quando, na disputa presidencial de 1993, foi revelado que FHC tinha, também, uma filha fora do casamento? Aliás, como se comportou a mesma imprensa quando se descobriu que Luciana Cardoso, filha de FHC, era funcionária fantasma do gabinete do Senador Heráclito Fortes e que ela havia viajado a Buritis (MG), num avião oficial da Força Aérea Brasileira? Luciana havia ido conferir os danos causados pela invasão dos sem-terra à sede da Fazenda Córrego da Ponte, de propriedade de sua família. À época, a assessoria do Palácio do Planalto informou que Luciana era funcionária da Presidência (era secretária do próprio FHC) e viajou com outros servidores do Planalto. E ficou por isso mesmo. Quando se tratava dos filhos de FHC, a imprensa sempre foi branda, já com os filhos de Lula!... 

Mas, afinal, de que crimes, mesmo, acusam o político brasileiro escolhido, em seu último ano de mandato, pelo jornal francês Le Monde, como o “Homem do ano” e pelo espanhol El País, como a “Personalidade do ano”? Acusam-no de ser dono de um duplex, no Guarujá, e um sítio, em Atibaia.

Lembram quando FHC, em 1989, comprou a fazenda de mais de mil hectares, em sociedade com seu braço direito, Sérgio Motta, em Buritis? Sem ter capacidade, em termos de agricultura, de diferenciar uma abóbora de uma moranga e sem terras disponíveis na região para a reforma agrária, o que teria levado o acadêmico FHC a se tornar um latifundiário? O negócio era duvidoso e se tornaria ainda mais em 1995, quando FHC já era presidente, e a proprietária da fazenda Pontezinha, ao lado das terras de FHC, era a Agropecuária Jauense, da Camargo Corrêa. Em julho daquele ano, a empreiteira iniciou a construção de um aeródromo particular na fazenda, com 1.300 metros, obra concluída em menos de três meses. Um presentinho para FHC... O que fez a imprensa?

Bueno! Como tenho que preparar o almoço, vou concluir esta charla – mas não sem antes lançar um último questionamento: por que razão os vendilhões do templo, capitaneados pelo PSDB de Aécio Neves e FHC, deixaram Michel Temer de fora do pedido de impeachment?

Eu sei que você, que é um cidadão consciente, sabe a resposta: em primeiro lugar, porque eles sabiam que a população resistiria em aceitar um dos gânsters na linha sucessória, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, como substituto de Dilma; em segundo, porque, em caso de nova eleição, teriam que expor seu telhado de vidro e dificilmente sairiam vitoriosos do pleito, independentemente de quem fosse seu candidato; e, por último, porque estavam certos de que Temer não se recusaria a ser o seu preposto (lacaio talvez combine melhor com um traidor!), na continuidade de seu projeto de desmonte do Estado.

Ala puxa, tchê! Acabou a água do chimarrão!...

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