Qual
fato tem mais importância no ranking de dramas e tragédias atualmente vivenciados
no mundo?
Destaco
dois textos que fazem menção a isso, no momento em que algumas pessoas buscam
hierarquizar os fatos pelo grau de
importância/interferência que têm em suas vidas: “Bombas versus lama” e
“A inveja é uma mérde”, ambos publicados no blog msdiario.com, de Fábio Marchi.
Provocativos,
os textos denunciam de forma propositadamente cruel a inépcia da população
brasileira em reconhecer as suas limitações (no sentido de que há uma parcela
significativa de pessoas que tem a propensão a relativizar tudo e a comparar
realidades distintas).
“Morrer
sufocado pela lama”, pergunta ele, “é pior que ser peneirado por explosivos de
homens-bomba ou levar balas de AK-47 nos miolos?”. O que você diria a respeito?
Inicialmente,
temos que ter em mente que ações humanas não podem ser comparadas. O professor
da PUC/SP e filósofo Mário Sérgio Cortella, analisando os dramas recentes em
Mariana (MG) e em Paris, reforça: são dois dramas incomparáveis, mas ambos
atingem a cada um de nós.
Poderiam
ter sido evitados. Mas são dramas porque decorrem da ação humana.
Por
outro lado, tragédias, como a seca, por exemplo, que atinge de forma gradativa
a população pobre do sertão nordestino (que não consome os produtos que são anunciados
através da grande mídia), não interessa aos meios de comunicação, ressalta Marchi.
Tragédias
se referem ao que acontece sem que o ser humano decida, sem que ele tenha
responsabilidade sobre o ocorrido. Muitas vezes, são inevitáveis. Mesmo assim,
é possível comparar?
O
rompimento da barragem em Mariana, assim como o fuzilamento de homens na Síria,
o massacre em Paris, e agora o ataque em Mali, são dramas, pois decorrem da
ação direta do homem.
É
claro que não podemos, em nome do terrorismo, esquecer aquilo que nos atinge,
mas olhar o que nos atinge de maneira alguma tem que nos cegar quanto àquilo
que está do lado de fora, porque se hoje é em Paris, pode ser aqui amanhã. Se
houve negligência em Mariana, pode haver em qualquer outro lugar do mundo no
dia seguinte, ressalta o professor Cortella.
Sim,
é verdade.
Quando
algumas pessoas teimam em comparar dramas distintos, temos a perda da noção de
humanidade, pois tudo aquilo que interessa a “um” ser humano, deveria a priori interessar
a “outros” seres humanos também. E, neste momento, acredito que a maioria das
pessoas tem a impressão de que essa noção de fraternidade encontra-se
fragmentada, diluída no pensamento imediatista e raso que vemos comumente projetado
nas redes sociais.
A
tendência que temos a transferir responsabilidades, a relativizar a dor e o
sofrimento alheios, a diminuir os efeitos de tragédias ou dramas que não nos
afetam diretamente, a não exigir o cumprimento das leis, a banalizar a
violência, enfim, reforça a ideia já estereotipada do brasileiro acomodado e inerte
diante das questões vitais que nos atingem.
Infelizmente,
Fábio Marchi tem razão em apontar o dedo para nós brasileiros, que deixamos de
exigir seriedade no trato das questões públicas, no cumprimento dos contratos e
das parcerias de empresas privadas com o Governo Federal, e, sobretudo, no
campo político, onde proliferam interesses pessoais muito mais do que os
interesses coletivos.
E, aqui, sem partidarismos e de forma bastante superficial e resumida, sintetizo a minha opinião sobre o atual cenário político brasileiro: un dégoût (nojo) - para não dizer outra coisa.
Por Lene Franck
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